Autor Tópico: Reluz (continuação Advices for the young at heart)  (Lida 360 vezes)

Macrolook

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Online: 28 de Dezembro de 2018, 02:27:07
Depois de ler metade da cartilha, adormeço, nem ideia da hora que fui dormir, acordo assustado, é dia, e está muito quente, nossa, deve ser bem mais tarde, normalmente está fresquinho quando acordo, preciso de um relógio, se alguém me achar aqui, pode ser o fim do meu canto, felizmente, não há ninguém por ali, mas percebo que fiz xixi nas calças, droga, estou todo molhado, pego minhas coisas, e saio dali, quando estou de saída, uma mão repousa firmemente no meu ombro, e me segura.
Olho para para trás e elevo o rosto, um senhor de barba branquinha e de chapéu esquisito, logo ele me diz:
—Garoto, o que faz aqui?
—Nada, estava visitando minha irmã...
—Visitas não dormem entre túmulos menino, vou te perguntar de novo!
Sem saída, e se fosse o coveiro? Mentir, acho que não né, como ele sabia? Só podia ser o coveiro!
—Bom, me desculpe por mentir, estou dormindo aqui pois não tenho mais casa, minha mãe está no hospital e não quero ir pra FEBEM, logo ela ficará boa, até lá, preciso ficar longe de encrenca, senhor!
O velhinho faz cara de surpreso, por minutos não diz nada, acho que não esperava a verdade nua e crua, deve ter ficado pensando em algo que me dizer.

—Olhe menino, terei problemas se te encontrarem aqui entendeu? Também não tenho ninguém, moro aqui pois não tenho casa, e não posso perder isso, assim que, não volte mais aqui, caso fizer, chamarei o juizado. Sinto muito por você, mas a vida é assim, xô, vá embora e não volte mais, sei onde dorme, mas hoje vi que acordou tarde, se alguém te vê aqui, será um problema, não havia dito nada até então pois você se levantava cedo e ia antes das pessoas chegarem, mas hoje, acordou tarde e está todo mijado, procure outro lugar.
—Poderia tomar um banho ali na torneira pelo menos? Prometo que não volto mais, e ainda lavo o local que dormi, por favor!
—Pode tomar banho e lavar, mas depois, vá embora, ah, tome no banheiro ali, da minha casa, fique tranquilo, eu vou lá limpar seu mijo, quando voltar, melhor que não esteja aqui. E não pense que faço isso por que sou bom, é por que não quero que vejam moleque de rua tomando banho de torneira por aqui.

O banheiro é daqueles que ficam do lado de fora, muito comum antigamente, entro, passo a tramela (espécie de trava interna) e fecho com chave, tomo aquele banho rápido, coloco uma roupa limpa, cheirando a sabão de coco, jogo minha roupa xixada fora (estava bem velhinha já) e vou embora.

Sem saber onde ir, sento em uma praça, está muito quente, como uma bolacha Triunfo, meu café da manhã, tomo água de torneira, quente, só um gole, então vejo a cartilha, logo me dá um lampejo, biblioteca!
É para lá que vou, saio correndo, em disparada, estava limpinho, desta vez, nada iria me impedir, mas antes, passo no bar da gorda, para dar uma olhada na máquina de fliperama.
Lá estava ela, a máquina, cheia de brilho e barulhenta, aquele barulho futuristico maneiro, então minha viagem é interrompida pela senhora dona do bar:

—Olha quem apareceu, está alinhadinho hoje esse menino, e aí, vai jogar?
—Não senhora, só olhando mesmo, quem sabe outro dia.
— É hora do almoço, já comeu?
Com medo de ser algum truque, fico relutante, embora, aquele cheiro de comida estava maravilhoso!
—Já sim, obrigado!(estava com a barriga cheia de biscoito).
—Bom, logo chegam fregueses, se me ajudar, te darei umas fichas para jogar na máquina, que tal?
Meu coração parece saltar pelo peito, com uma agonia boa, sei lá o que era aquilo, digo!
—Jura, sério, verdade, noooooossa! Sim, sim, já mesmo.

Teria que servir as mesas apenas, era prato feito, só um tipo, arroz, feijão, torresmo e ovo frito.
Depois de algum tempo, retiro as mesas, ajudo a varrer e limpar o bar, logo, ela me fala:
—Rapazinho, quantos anos você tem?
— Sete e meio...(menti). Ela ri, e diz:
— Bem, você fez sua parte, tome algumas fichas e vá jogar!

Ela me deu um punhado de fichas, contei, tinha dez fichas, DEZ!Tremendo. Coloquei uma ficha na máquina, aquele barulho da máquina ligando, inesquecível, a máquina de pinball se chamava Titan, e o robô falava quando colocava a ficha... foi muito animal!

Perdi logo, era um pato, a máquina tragava as bolas, em menos de três minutos, perdi todas as bolas.
Resolvi guardar para depois, aquilo era meu tesouro, ah, fichas de fliperama, tido por muitos como coisa de vagabundo, marginal e bandidos.
Mas, para mim, aquilo era puro delírio, logo, vem um cara e coloca a ficha, ele, diferente de mim, fica por horas na máquina, observo e aprendo, ele ganhava bolas extras e tinha até o especial, que dava créditos ou seja, jogadas inteiras extras!

Passo a tarde inteira ali, curtindo, esquecendo todo meus problemas, quando chega a noite, escuto a porta baixar, a dona, fala para eu ir embora, pois minha mãe deve estar preocupada já, pego minhas coisas e me dou conta que não quero mais chamar a dona de gorda, ela foi muito legal.
—Senhora, qual é seu nome?
—Socorro, e o seu?
—Beto!
—Bem Beto, hora de fechar, onde mora?
—Na Vila Formosa! Respondo.
—Bom, melhor ir embora, obrigado pela ajuda, se quiser, pode vir amanhã outra vez, mas, amanhã te pagarei em dinheiro, você é ligeiro e não fala muito, ah, mas com uma condição, fale para sua mãe vir aqui conversar comigo, e assim ficarei mais tranquila.
—Tá bem, obrigado dona Socorro... Até amanhã então.

Vou embora pensando que bom seria trabalhar ali a tarde, ao menos teria um lugar para ficar e ganhar um dinheirinho, mas, agora tinha que resolver outro problema, onde dormir, e como fazer para poder voltar ao bar? Afinal, nem sabia onde estava minha mãe...

Um problema de cada vez, primeiro onde dormir, lembrei de uma casa que tinha um portão baixinho e não tinha cachorro, uma varandinha de chão vermelhao, poderia jogar um papelão lá e dormir um pouco, fui até lá e usei um truque que o Tico me ensinou, joguei pedrinhas pequenas na porta, depois nas janelas, por três vezes e ninguem apareceu, me ajeitei na varanda, usei minhas sacolas de travesseiro e fiquei pensando em como voltar ao bar da Socorro.

Continua...
“Fotografia é poder de observação, não de aplicação da tecnologia.” Ken Rockwell.