Autor Tópico: Fragmentado?  (Lida 347 vezes)

Macrolook

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Online: 05 de Janeiro de 2019, 02:05:50
A fase da transição entre a academia que iria assumir, estava prestes a acontecer, faltava pouco, mas até lá, tinha que garantir o dinheiro das despesas fixas, para quem tem o privilégio de ter suporte financeiro básico (moradia e alimento, ao menos é o que eu considero básico), não sabe o que é precisar se sujeitar a empregos de merda, mas, eu tinha que aguentar, pois para quem não tem grana, a miséria e a pobreza tem uma linha muito tênue.

Este dia estava eu no caixa do supermercado, era véspera de natal, estava tudo lotado, parecia que iria acabar a comida do mundo, filas intermináveis de carrinhos, o ar condicionado não dava conta, estava insuportávelmente quente, passava das 22:00, mesmo com as portas baixadas, sairíamos dali bem mais tarde...
Para ajudar, o sistema de software do escaner deu pau, tivemos que fazer tudo manual, e para adiantar todo esse rolê, uma das gerentes nos disse que haviam muitos clientes que iriam de ônibus para casa, e que, deveríamos dar um "gás" para que todo aquele povo estivesse fora antes das 23:00...

Haviam uns itens que eram um porre, exemplo, bombons a granel, tinha cliente que pegava mais de 50 de tipos diferentes, e nós, obviamente, tinhamos que digitar e registrar cada um deles, isso, retardava bastante o processo, sem dizer, que não havia mais os empacotadores, ou seja, tinhamos, que registrar, contar, embalar, e repor mercadorias, claro, era nosso trabalho, se é que podemos chamar assim, haviam clientes, que embalavam para adiantar tudo isso, certa vez, um cavalheiro, de meia idade, me disse:
—Pode deixar que eu embalo, você já está registrando e contando, além de não achar justo que o embalador tenha perdido o posto, não devo deixar as outras pessoas esperando, não posso tomar o tempo delas, e se consigo, empacoto tudo, assim, vai mais rápido, nisso, ele comentou que estava ali por pedido da esposa, mas não concordava com esse sistema deste mercado, de um funcionário ter que absorver todas tarefas, ele também me contou, que fora motorista de coletivo (ônibus), estava então, explicado sua indignação, ser humano fantástico esse, algo de bom aparecia ali, e eu, aproveitava cada ser iluminado que dava o ar da graça.

Reparem, que muitas famílias inteiras vão ao mercado, elas passam centenas de itens, ficam todos na ponta do caixa, com os braços cruzados, esperando que o caixa termine de registrar para depois ainda guardar TODAS as compras, eu acho isso um desrespeito brutal com o trabalhador e pior, com as outras pessoas da fila...mas é meu ponto de vista.

Voltando ao dia antes do natal, no caixa em que eu estava, chegou um senhor, com uns oito carrinhos de compras, um deles, estavam cheios de bombons, balas, um monte de guloseimas a granel, atrás dele, uma senhora com muita pressa, até saiu da fila, pois percebera que aquele local já estava tomado.

Muito mal humorado, puto, perguntou por quê da demora, expliquei sobre o sistema, ele resmungava, dizia que estava com muita pressa, isso e aquilo, eu, bem, fiquei na minha, só ouvindo.
Ele não parava de reclamar, até que uma hora começou a me dizer para ir mais rápido, continuei no meu ritmo, pois digitar rápido induz a erros, lição que nunca esqueci após faltar dinheiro no caixa por querer acelerar e ir embora mais cedo.

Ele entendeu isso como um insulto, como se não ligasse a mínima para ele, foi então, insinuou que eu era surdo, assim, pacientemente lhe disse:Vista-me devagar, pois tenho pressa.", se eu me apressar, é bem fácil de errar, e aí, teremos que cancelar a compra inteira e recomeçar.
Por algum momento ele ficou quieto, mas logo, começou a dizer que eu deveria ter feito curso de digitação, e que isso deveria ser uma norma para quem desempenhasse esse tipo de trabalho...

Bom, aquilo não me irritou, na época, eu estava de boa, e ele não iria me tirar do "prumo", segui passando as compras e ele protelando e ordenando para que eu fosse mais rápido.
Gentilmente lhe disse:
—Senhor, vejo que está aflito com seu horário, tenho uma sugestão para que possamos ir mais rápido, quer ouvir?
—Claro, fala logo, e se tem, por quê não falou antes, caralho? (intimacy detected, oi?) Disse ele, fodido da vida.
—Bom, se o senhor embalar as comprar e separar aqueles itens a granel, poderemos agilizar pelo menos uns 30 minutos.

O Homem congelou.

Nunca vi ninguém ficar tão vermelho na minha vida, o homem parecia um pimentão, ficou enlouquecido e começou a gritar:
— O queeeee? Como ousa, seu moleque, imagine, que audácia essa a sua, seu, seu porra. Cadê a gerente, chamem a gerente aqui, agora, seu filho da puta de um moleque, não sabe quem sou eu, eu estou aqui e você aí (ele cliente, eu, um bosta no caixa, que fique bem claro), nunca pensei na minha vida ouvir isso de um merda desse.
Fez um escândalo, eu fiquei perplexo, desarmado, não queria ofende-lo, apenas, foi uma ideia infeliz, talvez, mas para mim, não era o fim do mundo, já para ele, era um crime.

A gerente chega, assustada, ele, que parecia ter sido mutilado, começou a gritar:
— Esse incompetente mandou eu empacotar e contar os bombons, eu, onde já se viu isso? Como ele ousa, como vocês contratam ese tipo de gente, lerdo, mal educado, quem ele pensa que é? Exijo que ele seja despedido imediatamente ou então irei processar vocês, quero uma reparação, A-GO-RA! Cuspia enquanto falava.

A gerente, perplexa, teve a péssima ideia de dizer que ela não tinha esse poder, pois era apenas uma fiscal de caixa recém promovida, e seu título era honorário, apenas naquela data, e apenas a gerente geral ( a japa do outro conto https://forum.mundofotografico.com.br/index.php?topic=127666.0) poderia fazer isso.

O homem, surtou.

Começou a dar telefonemas, enquanto isso apontava o dedo para mim, nisso, ele consegue o telefone da japa, a gerente fodona, ela liga para a loja e ali, na cara dele, me demitem sem pestanejar.
Um sorriso demoniaco se forma no rosto daquele homem, ele, radiante me diz:
—Ponha-se no seu lugar, seu merdinha, vá mendigar, pois emprego nessa cidade, não conseguirá nunca mais, seu filho da puta, lacaio de merda.
Logo, vejo que a compra do cara estava embalada e finalizada, outras caixas foram lá para termminar de passar a compra dele, mas, me pediram que fechasse o caixa antes de ir, pois era minha responsabilidade, e que se desse algum problema, poderiam descontar do meu salário e pior, que elas teriam que revisar todos tickets, atordoado, relutante, cedi e fechamos o caixa.
Vou para o vestiário, me troco, e ainda cai a ficha no sorteio para ser revistado, o segurança com cara de "que foda mano..." me libera sem a revista de rotina.

Ele conseguiu, me tirou do prumo, acordou o bicho ruim que mora na minha respiração, que faz arder o peito, é, não é um alien, muito menos, pneumonia.
É umas sensação horrivel, parece que o ar é ácido e cada vez que respiro uma estaca cheia de farpa atravessa o peito e fica lá, sinto ela incomodando o estômago, a garganta, o toráx fica pesado, e é como se tivesse um caminhão em cima das minhas costelas, e na mente, algo sombrio aparece, sussura para que algo deve ser feito, penso em resposta que algo será feito, mas não aquela hora, depois, mais tarde, vários pensamentos inundam a mente, lógica, ódio, indignação, raiva, confusão, foco no vazio da mente e começo a divagar sobre o que pode aliviar aquela cólera, a bondade não está, apenas o medo acalma, mas sabe que o perdão está fora de questão, e que algo deve ser feito, a ira, sutilmente, começa a dominar a mente.

Minha ira é algo estranho, é calma, é diferente do ódio, que parece um monstro louco que quer matar e destruir qualquer coisa que o liberte.
Na hora do ódio, eu tive que acorrenta-lo, para não socar aquele homem, preocupado em segurar a "onda", não me lembro de muita coisa na hora, literalmente, o ódio te cega.
Já a ira é plácida e ativa incoscientemente memórias e pontos de vista que não lembro de ter olhado, ou ela toma conta de uma forma que eu não sei como descrever, segue um exemplo.

Chegando em casa, fui tomar um banho, mas nisso, a ira já começou a montar a estratégia, ao me despir, pego um papel no meu bolso, eram dois nomes, dois CPFs e um telefone, nem me dei conta na hora, então, veio um lampejo, a folha de um cheque, e eu conferindo o caixa e contando os cheques e passando alguns dados para uma lista, logo, percebi então que havia anotado isso de um cheque em conta conjunta, o único cheque de valor alto da noite, era dele, do homem que tinha desacorrentado a ruindade que adormecia quieta no meu peito.

Não me lembrava de ter feito isso, sinceramente, mas, por outro lado, já tinha onde começar minha busca, passo a madrugada pensando em várias "jogadas", adormeço.
O telefone toca, é do supermercado, é a morena de beleza vampiresca do RH, e me diz que devo ficar uns dias sem ir ao trabalho, poucos dias, e que depois, verão o que será feito, e isso claro, remunerado, assim que tiverem uma posição, me retornam, insisto em saber se devo procurar outro emprego, ela, amiga de treino, extraoficialmente, diz que não, que eu nunca tinha dado trabalho, e que eles não estavam procurando motivos para me desligar, apenas, para que aquele cliente se sentisse com a razão.
Nos despedimos e me preparo para mais um dia, sem clientes da academia pela manhã, era meu dia de treino.

Tomo uma vitamina e vou puxar ferro, era dia de treinar ombro, na época, fazia elevação frontal com 120 kg, me acalmava bastante esse exercício, me ajudava a controlar o ódio, tirava um pouco daquele desejo de vingança, era bom, tinha mais espaço para pensar em qual seria a solução, o que seria melhor que uma surra? O que eu deveria fazer para que ele sentisse aquilo que eu sentia, só que em intensidade maior?
Precisava me livrar daquilo logo, antes que tomasse conta da minha mente, e tinha que ser rápido.
Na minha última série, na última repetição, me veio a cabeça, uma das piores vinganças que arquitetei até hoje, esta está no top list das mais maquiavélicas.

É incrível como as atitudes alheias influenciam em nossas vidas, e como elas causam um efeito colateral muitas vezes impensável para quem semeia o mal.

Continua...












« Última modificação: 05 de Janeiro de 2019, 02:21:08 por Macrolook »
“Fotografia é poder de observação, não de aplicação da tecnologia.” Ken Rockwell.


Elder Walker

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