Autor Tópico: O corpo, a sociedade e onde me encontro.  (Lida 365 vezes)

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    • Marcio Faustino
Online: 21 de Abril de 2020, 11:25:33
Nós percebemos o mundo através do nosso corpo. Através de seus sentidos, o corpo reage ao que há ao seu redor de acordo com o que identifica como agradável e desagradável. A reação é refletida nas funções de nossos órgãos, como a velocidade dos batimentos cardíacos, a pressão sanguínea, a tensão dos músculos, a tensão da respiração, entre muitas outras coisas que, no conjunto das sensações corporais, identificamos como emoção. Emotar é a característica fundamental de todos os seres vivos, não importa quão complexo ou simples; Até seres monocelulares, protocélulas e vírus emotam. A reação corporal ao meio serve para a autopreservação e a perpetuação da vida, também conhecidas como homeostase, que caracterizam um organismo como vivo. O uso comum do termo homeostase refere-se a uma forma inconsciente de controle fisiológico que opera automaticamente sem subjetividade ou deliberação por parte do organismo

A cultura popular geralmente representa o indivíduo como sendo sua consciência e o corpo como um objeto que possui, considerando a consciência como se estivesse instalada ou sendo gerada em um determinado lugar no cérebro (ao qual ainda esperam ser descoberto) considerando o corpo como uma ferramenta que trabalha para o sistema nervoso. Mas ao contrário do que se costumava acreditar, as pesquisas científicas atuais sugerem que nosso sistema nervoso é a ferramenta que funciona para o nosso corpo, para uma melhor eficiência de sua preservação e auto-perpetuação. Não somos uma coisa instalada em nosso cérebro, não somos apenas nosso sistema nervoso, o “eu” é todo o nosso corpo.

O sistema nervoso está constantemente monitorando as emoções do corpo. O cérebro desenvolvido cria imagens que estão associadas ao contexto do que nos emocionam (emota). Essa associação a imagens mentais é o que gera os sentimentos. Em outras palavras, a emoção é gerada pelo corpo enquanto os sentimentos são gerados pela mente. No entanto, o corpo não apenas se emociona com o que seus sentidos percebem do mundo físico externo, mas também as imagens mentais e sentimentos. O cérebro e o corpo não podem distinguir o real da imaginação; se você pensa ou acredita estar caindo de uma altura alta o corpo emota como se estivesse realmente acontecendo. A reação emotiva à imagem mental (nossas memórias mental) é o que torna o corpo mais eficiente para sua autopreservação e auto-perpetuação.

As memórias são desencadeadas através dos sentimentos gerados pela emoção, o que significa que só lembramos das coisas porque temos sentimentos, porque sentimos algo associado a uma imagem mental, de acordo com o contexto; Ao qual pode ser algo em que já estamos pensando (sentimentando) ou algo real percebida pelos sentidos corporais (emocionando / emotando). É por isso que as pessoas gesticulam quando falam, quando pensam, andando ao redor de si mesmas quando querem lembrar de algo ou quando estão ao telefone. A expressão corporal nos ajuda a lembrar o que estamos tentando comunicar às demais pessoas e a nós mesmos. É a partir dos sentimentos que memorizamos e aprendemos: movimento fisio, emoção, contexto e repetição que gera imagens mentais e sentimentos a ligadas a tais imagens mentais.

Algumas pessoas se sentem mais inspiradas e criativas ao usar ferramentas manuais; fotógrafos com câmera de filme, escritores com máquina de escrever ou escrita à mão, motoristas com carros manuais, pessoas que gostam de coisas artesanais e hobbies de bricolage. Muitas pessoas tentam justificar isso e muitas outras criticam, mas a maioria acaba racionalizando o que na verdade não entendem. Ja que as pessoas sentem o impulso em pensar, elas tendem a confundir seus pensamentos com fontes de conhecimentos; Eles tendem a confundir o desejo de encontrar significado, que estimula o pensamento e julgamento, com a verdade, mas significado e verdade não são a mesma coisa. De fato, as pessoas buscam significado porque querem encontrar certezas, apesar das coisas sobre as quais nunca podemos entender completamente e ter certeza, mas apenas racionalizar para fazer sentido para o nosso limitado entender.

É por isso que algumas experiências são melhores quando deixadas apenas para o corpo. Coisas que não podemos explicar, coisas que não podemos descrever, coisas que não podemos verdadeiramente entender e a tentativa de justificá-las apenas resulta em distração de sua pura experiência e realização. Experiências que representam o nosso irracional, o que significa que elas só podem ser entendidas a partir da própria experiência e não da razão.

Apesar de o corpo estar se emocionando com tudo ao seu redor, não temos consciência da maior parte ao que o corpo reage. Frequentemente, temos a sensação de que gostamos ou não de algo, mas não sabemos o porquê. Às vezes, nem temos consciência do que gostamos e não gostamos, apenas sentimos falta de disposição e aborrecimento, e às vezes sentimos motivação e excitação. Independentemente de nossa consciência, sempre acabamos expressando nossa emoção, diretamente ou indiretamente, sobre como nos sentimos através de atividades, pensamentos, opiniões e julgamentos.

Nosso corpo nos define. Ele molda nossa estrutura cerebral e, portanto, nossa mente. Ele molda a nossa psicologia. Todas as sociedades têm muitas pessoas com psicologias distintas, sendo que uma delas acaba emergindo como a psicologia dominante por razões políticas e econômicas. Todo mundo, de alguma forma ou em algum aspecto, precisa se encaixar na psicologia dominante para se encaixar em sua sociedade. Isso quer dizer, se encaixar na maneira de interpretar sua realidade (a racionalização da “lógica” da psicologia dominante) e a maneira de se comportar em uma sociedade para obter a melhor sua integração nela, participação política e oportunidade econômica. Países ou sociedades ditas desenvolvidas ou bem sucedidas assim são avaliadas baseada na quantidade de pessoas que estão bem adaptadas a ideologia da psicologia dominante, como o número de pessoas com formação superior, número de pessoas com trabalho formal ou simplesmente o número de pessoas que não estão na pobreza. Isso sugere que os não adequados não são aceitos, são excluídos. Ser pobre não é uma opção se quiser ter acesso aos bens sociais, a sua integração. A ideologia dominante acaba reprimindo a psicologia e identidade de muitas pessoas, causando conflitos internos e crises psicológicas.

A arte sempre foi sobre emoção (a reação corporal causada percepção de nossos sentidos - emotar). O desenvolvimento da tecnicidade como tentativa de racionalizar a arte para o sentimento de ordem, controle e lógica, que Cícero costumava chamar de corrupção dos sentidos, surge com o desenvolvimento da tecnologia, indústria e comércio, mas a arte em sua essência sempre foi abstrata, sempre foi para nossos sentidos e emoção. A arte é o recuo dos oprimidos, onde se está livre da obrigação de racionalização e explicação. A liberdade além do racionalismo, sendo capaz de expressar seu irracional, suas emoções e, principalmente, seus conflitos e frustrações psicológicas. A arte é para o mundo de hoje o que era a religião e misticismo no passado. Razão pela qual arte e rituais estão juntos desde o início. Mesmo em um estado secular e cultura ateia, sempre teremos rituais que são as atividades repetitivas e mímicas para expressar “o eu” irracional, engajando-se nas sensações das emoções.

O corpo é a fronteira do “eu” e do mundo. Nosso entorno, nossas memórias, nossas experiências, nossas primeiras emoções e sentimentos, moldam nossa narrativa interna do eu, de onde vem nosso senso de personalidade e identidade; Sem a auto-narrativa interna, não sabemos quem somos. Nossas experiências de infância criam o modelo para nossa psicologia e ideologia da vida adulta. A pessoa que cresceu se mudando constantemente de uma casa para outra, por causa de pais divorciados, ausentes ou qualquer outro motivo, tendem a perseguir essa falta de estabilidade emocional e falta de sentimento de ordem nos afazeres da vida adulta, que pode ser expressada no vício ao trabalho - procurando sempre motivos para trabalhar - ou no perfeccionismo técnico em suas atividades, não por razões racionais mas por razões emocionais; estimular o corpo a emotir (reagir) a ordem que a pessoa sente faltar dentro de si. O mesmo acontece com a comida, quando as pessoas que sofrem de angústia emocional encontram satisfação literal comendo e preenchendo o corpo, o que faz com que se sinta prazer e conforto corporal, a busca pela harmonia da regulação homeostática. O oposto também é verdadeiro, com tradições que encontram no jejum um caminho de purificação do mundo externo e de seus vícios.

É interessante como a ideologia de hoje vê as pessoas ditas preguiçosas, condenando-as por evitarem problemas emocionais (o que seu corpo reage como inadequado para sua própria preservação), enquanto a sociedade valoriza os trabalhadores que vão contra sua emoção e psicologia, para ter sucesso na integração da ideologia dominante da sociedade capitalista acumulativa.

“A homeostase refere-se ao processo pelo qual a tendência da matéria de se transformar em desordem é combatida, a fim de manter a ordem, mas em um novo nível, o permitido pelo estado estacionário mais eficiente. Esse cálculo tira proveito do princípio de menos ação.” - António Damasio

Enquanto isso, muitas pessoas chamadas de bem sucedidas e bem ajustadas a sociedade usam drogas, para dormir e acordar, ter foco em momentos de tomada de decisões e relaxar quando querem descansar. A psicologia capitalista racionaliza o que sempre foi considerado um castigo (o trabalho), agora como uma coisa boa, a fim de fazer que seja lógico a sua ideologia.

A importância da expressão irracional é evidente. A maior parte de nossas ações emocionais e reações sentimentais são expressadas inconscientemente. As crianças têm pesadelos quando são reprimidas a expressar suas frustrações. Não importa como tentemos reprimir nosso próprio psicológico, a fim de nos encaixar na ideologia dominante na sociedade, nosso irracional sempre nos escapa. Nosso irracional é nosso verdadeiro eu: a expressão de nossa própria psicologia e frustrações.

Toda expressão é destinada a um espectador, que pode ser outra pessoa ou o nosso eu imaginário (o que constitui a nossa auto-narrativa ao qual somos o nosso próprio espectador). Mas ser espectador de nossa própria auto-narrativa não é o suficiente. Todos nós precisamos de outra pessoa para interagir e confirmar nossa própria identidade (por semelhança ou distinção). A vida é sobre trocas. A simbiose da natureza é sobre pluralidade, receber e dar. Todos nós temos o desejo de oferecer algo de nós para o mundo, algo de permanente, que nos eternize (auto perpetuação) porque a consciência que temos de nossa própria morte nos cria anseios sobre o que ficará de permanente sobre nós, sobre nossa identidade, comunidade e cultura, e principalmente na outra pessoa. Mesmo que nosso corpo não seja capaz de distinguir o real da mente, viver em solidão com nossos pensamentos cria desejos insuportáveis, de nutrir nossos sentidos e preencher o “eu” faminto. O que nutre os nossos sentidos se torna a nossa natureza e, por isso, nao eh possivel haver um “eu” sem um “outro” pelo qual possamos nos perpetuar.

http://www.marciofaustino.com/blog/o-corpo-a-sociedade-e-onde-me-encontro


felipemendes

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Resposta #1 Online: 21 de Abril de 2020, 12:13:26
Ótimo tê-lo de volta, Marcio! Li os primeiros 4 parágrafos antes de perceber que o artigo vai longe. à noite olho com calma. Mas até onde li, tá bem interessante!
Felipe


Lindsay

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Resposta #2 Online: 21 de Abril de 2020, 13:01:41
Aêhhhhhh bem vindo de volta meu internético amigo!!!

Eu tbm vou ler com calma mais tarde!!!


« Última modificação: 21 de Abril de 2020, 13:04:34 por Lindsay »
Conhecimento importa mais que equipamento.


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Resposta #3 Online: 21 de Abril de 2020, 15:52:47
Obrigado pelo acolhimento. Eh bom esta de volta entre perfils familiares. :)


adrianof14

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Resposta #4 Online: 21 de Abril de 2020, 23:08:27
filosofia séria esse texto.
Adriano Ferreira
https://www.flickr.com/photos/adrianof14/

"Resistir ao ruído, à palavra, ao rumor pelo silêncio da foto - resistir ao movimento, ao fluxo e à aceleração pela imobilidade da fot


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Resposta #5 Online: 22 de Abril de 2020, 01:21:01
filosofia séria esse texto.
A mensagem que tento transmitir eh que a experiencia artistica, entre muitas outras, eh antes de mais nada uma experiencia corporal e que por ser algo autonomo de nossa conciencia, a compreencao de tal experiencia como tambem do que transmite tal experiencia esta mais na introspectividade do que na racionalidade. Ou seja, pertence ao irracional.

Ao dizer irracional eu nao me refiro como algo inferior ou burro, mas sim como uma outra inteligencia, a da introspectividade, a corporal, a sua simbiose.

E eh do corpo que vem a fonte de nossas emocoes e consequentemente,  lembrancad, sentimentos e razao.

Em outras palavras. Enquanto gostamos de acreditar que somos seres essencialmente racionais e que nossa experiencia mental e corporal sao coisas a parte. Eu que tento dizer aqui eh que somos essencialmente seres emotivos antes de mais nada, sendo que o corpo nao eh um objeto que possuimos e que carrega a nossa conciencia (o "Eu"), mas sim o corpo eh o "eu". O "eu" vai alem de nossa conciencia e o que concientimente temos como o "eu" eh apenas identidade (a nossa auto-narrativa).
« Última modificação: 22 de Abril de 2020, 01:34:42 por C R O I X »


amador47sc

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Resposta #6 Online: 31 de Maio de 2020, 23:31:53
satisfação revê-lo de volta ao fórum, Márcio. Eu também estive um tempo fora