Autor Tópico: A Ilusão Especular - Arlindo Machado  (Lida 5659 vezes)

RFP

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Online: 12 de Setembro de 2006, 22:16:20
Como tenho participado e assistido aqui a discussões muito interessantes que não abordam apenas a fotografia, mas também as disciplinas com as quais ela faz contato, resolvi colocar um texto que acabei de publicar no meu Multiply sobre o livro A Ilusão Especular.

Link para o texto no meu Multiply

Nessa última semana, li "A Ilusão Especular", de Arlindo Machado. No último ano venho lendo diversos livros sobre fotografia, mas poucos me levaram a uma reflexão tão intensa quanto esse. Machado é professor de comunicação e semiótica na USP e PUC/SP.

Ele propõe, a partir de uma visão marxista, a desconstrução do código fotográfico que, segundo ele, está impregnado da ideologia burguesa dominante, refletida especialmente na perspectiva central advinda do Renascimento.

A questão da luta de classes e seu reflexo na fotografia pode ser interessante, mas eu estava especialmente interessado na desconstrução da fotografia que ele sugere como necessidade para o engajamento e verdadeiro contato com o referente.

O autor explicita, de forma contundente, os diversos meandros da fotografia na sua tentativa de se manter como fiel representação da realidade, e consequentemente, na manutenção da perspectiva central como uma representação realista e desprovida de uma ideologia intrínseca. A partir daí, mostra imagens que obtiveram êxito em se desprender dessas armadilhas, denunciando o próprio mecanismo de ação do chamado "efeito especular".

Uma das questões centrais é o fato da fotografia, assim como as pinturas renascentistas, permitirem ao observador colocar-se no lugar do autor, tomando para si aquela perspectiva como real, sem perceber que seu olhar está preso e dirigido. A descosntrução desse processo implica necessariamente na denúncia desse movimento, produzindo imagens em que essa "transferência de subjetividade" não possa ocorrer, ao menos de imediato. Portanto, imagens em que a perspectiva é distorcida, ou que a leitura é difícil, servem a esse propósito.

De imediato associei essa questão ao que já discuti algumas vezes aqui, a "correção fotográfica". Todos os manuais de fotografia ensinam, primordialmente, como montar uma ilusão eficaz. A busca por melhores técnicas e equipamentos nada mais é do que do que a busca pela ilusão mais perfeita. E o fotógrafo iniciante, em suas primeiras fotos, pode cometer deslizes como um corte de cabeças ou deixar sua própria sombra aparecer na foto. De pronto, um fotógrafo mais calejado apontará esses erros "ingênuos". Ora, o que o iniciante fez, nesses casos, foi inocentemente denunciar a própria captura fotográfica, rompendo com o efeito especular. E o fotógrafo que o corrige, em nome de uma norma consensual, por vezes não percebe o que está envolvido nesse jogo.

Como finalização, deixo um trecho de uma entrevista do autor ao Jornal da USP, de 2001, que resume de forma clara a visão do autor sobre a fotografia:

"Fotografia é a mais mal entendida de todas as mídias modernas. Isso é particularmente grave se considerarmos que ela é a base técnica e conceitual de grande parte das mídias de nosso tempo (cinema, vídeo, televisão etc.). No último capítulo de meu livro O Quarto Iconoclasmo, dedicado ao exame da fotografia, defendo a idéia de que esse meio não tem nada de 'espelho do real'. Ele é um 'texto' como outro qualquer, que se constrói através de uma articulação simples ou sofisticada de seus elementos expressivos. Não há nem mais nem menos 'manipulação' numa foto (e, por extensão, num documentário, numa imagem de telejornal) do que num texto jornalístico, numa pesquisa de sociologia ou num tratado de filosofia. Isso não quer dizer que não exista uma 'verdade', um "fato" do qual buscamos nos aproximar, seja fotografando, seja verbalizando, mas essa aproximação só pode ser uma construção, necessariamente coletiva, que se dá num amplo processo de negociação entre os sujeitos sociais."

Currículo Lattes de Arlindo Machado

Referência:
Machado, A. (1984). A Ilusão Especular. São Paulo: Brasiliense.
« Última modificação: 12 de Setembro de 2006, 22:43:05 por RFP »


Beto Eterovick

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Resposta #1 Online: 12 de Setembro de 2006, 22:34:18
Muito bacana seu post RFP. Aliás, como é seu nome?

Pelo que entendi, o autor busca mostrar o lado filosófico, talvez, da fotografia. E sendo a fotografia o alicerce de vários veículos de comunicação hoje existentes, que de mais a mais estão impregnados de publicidade, a própria fotografia fica encarcerada na visão da maioria das pessoas, um vício que veio sendo construído há tempos. Isso tem muito a ver com uma discussão que está rolando aqui no fórum, sobre crítica, que o Ivan criou, aliás, um excelente tópico. O exemplo que você deu do iniciante que faz um retrato cortando a cabeça explica muito bem o que o autor tenta mostrar.

Partindo para o lado pessoal, tendo buscar na fotografia esse disprendimento da "ideologia da burguesia dominante" tão arraigada em nós hoje em dia. Apesar de trabalhar com publicidade, divido minhas fotos muito bem divididas. As publicitárias e que são pessoais, de hobbie, que faço com muito mais prazer do que as de trabalho, apesar de também adorar.

Abraços,  


RFP

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Resposta #2 Online: 12 de Setembro de 2006, 22:45:18
Beto, meu nome é Rodrigo. Acompanhei a discussão sobre crítica, também vi relação entre os pontos do livro e o que estava sendo falado lá.

Achei interessante você falar da "divisão" das suas fotos. Isso implica numa consciência necessária sobre a finalidade e o processo de construção de cada  tipo de imagem.


Beto Eterovick

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Resposta #3 Online: 12 de Setembro de 2006, 22:48:51
Com certeza Rodrigo. Isso é uma coisa que separo bem. O trabalho as vezes tem uma carga de responsabilidade que nos atrapalha, rsrssrs. Talvez seja até falta de segurança, ou segurança demais, rsrsrsrs.

É um processo de construção como você mesmo disse muitíssimo diferente um do outro. Se um dia conseguir juntar os dois, seria legal. Mas acho quase impossível.

Abraços,  


Alex Biologo

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Resposta #4 Online: 12 de Setembro de 2006, 23:04:50
Fiquei curioso em ler o livro, Rodrigo, vc trabalha com o que? Teoria da comunicação?
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RFP

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Resposta #5 Online: 12 de Setembro de 2006, 23:09:48
Alex, sou psicólogo, trabalho com pesquisa sobre eficácia de tratamentos em psicologia clínica e atendimento em consultório.

Mas leio tudo que posso sobre a Fotografia como disciplina teórica ou categoria epostemológica, depois de ter lido bastante sobre técnica.

O livro está esgotado, mas se você conseguir uma cópia, vale muito a pena. Essa que eu tenho foi emprestada. Sei que tem na biblioteca da ECA/USP.
« Última modificação: 12 de Setembro de 2006, 23:10:04 por RFP »


Alex Biologo

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Resposta #6 Online: 13 de Setembro de 2006, 00:17:53
Rodrigo vou passar lá, estou coletando bibliografias pra minha pesquisa (estou estudando educação não formal) e a imagem faz parte dos estudos
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Lucas Eduardo

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Resposta #7 Online: 13 de Setembro de 2006, 00:30:16
tentando ler esse texto, vejo como nosso cérebro se adapta ao ambiente...
eu faço faculdade de Quiropraxia, e meu raciocínio, conhecimento, vocabulário etc., é voltado para área saúde...
li, reli e pedi ajuda a um "amansa burro", popularmente chamado de Dicionário...
pra mim foi difícil hehehe mas achei interessante também!
RFP...vlw por compartilhar :)
Sul Foto Clube


Carlos Magalhaes

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Resposta #8 Online: 13 de Setembro de 2006, 00:31:29
Rodrigo, pra ver se entendi: estaria certo dizer que essa "transferência de subjetividade" é escondida por trás de uma ilusão de não-subjetividade, ou seja, de uma pretensa objetividade da representação?

Se estou certo, isso me remete a uma frase do Eduardo Coutinho que li uma vez: ele dizia que não documenta uma realidade objetiva quando faz um  filme. O que ele documenta é o ENCONTRO dele, documentarista, com o outro. Os filmes contam a história do encontro e não de uma realidade supostamente livre de interfeências subjetivas.  
Carlos Magalhaes
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Resposta #9 Online: 13 de Setembro de 2006, 00:54:35
Citar
Rodrigo, pra ver se entendi: estaria certo dizer que essa "transferência de subjetividade" é escondida por trás de uma ilusão de não-subjetividade, ou seja, de uma pretensa objetividade da representação?
É exatamente essa a idéia. A busca pela representação real mais objetiva e fiel é justamente para que essa transferência ocorra de forma mais fácil, sem a percepção do observador de que a pretensa objetividade na verdade é a subjetividade de um outro.


Carlos Magalhaes

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Resposta #10 Online: 13 de Setembro de 2006, 00:58:03
Citar
sem a percepção do observador de que a pretensa objetividade na verdade é a subjetividade de um outro.
Ou, talvez, em alguns casos, a intersubjetividade construída durante uma interação COM o outro...
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Aneopa

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Resposta #11 Online: 13 de Setembro de 2006, 01:03:28
Salve, ia te responder por MP mas já que vc abriu o tópico....

Eu encontrei na Biblioteca do CCBB, aqui no Rj podemos retirar livros lá, amanhã eu pego e xeroco...

[]sss


Xiru

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Resposta #12 Online: 13 de Setembro de 2006, 01:40:49
Bah, quero esse livro.


E de todo curso e de tudo que já conheci de Jornalismo, Arlindo mAchado, mesmo q as vezes eu discorde, é dos poucos que usam a bosta cerebral como adubo. Admiro muito ele.
Gentileza gera gentileza.

Xirú Sander Scherer - Ivoti / RS

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