Autor Tópico: [BIBLIOTECA] Fotografia em verso e prosa  (Lida 6139 vezes)

Loas

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Online: 13 de Setembro de 2006, 13:26:03
Diante das Fotos de Evandro Teixeira
A pessoa, o lugar, o objeto
estão expostos e escondidos
ao mesmo tempo sob a luz,
e dois olhos não são bastantes
para catar o que se oculta
no rápido florir de um gesto.

É preciso que a lente mágica
enriqueça a visão humana
e do real de cada coisa
um mais seco real extraia
para que penetremos fundo
no puro enigma das figuras.

A fotografia - é o codinome
da mais aguda percepção
que a nós mesmos nos vai mostrando
e da evanescência de tudo
edifica uma permanência,
cristal do tempo no papel.

Das lutas de rua no Rio
em 68, que nos resta
mais positivo , mais queimante
do que as fotos acusadoras,
tão vivas hoje como então,
a lembrar como a exorcizar?

Marcas da enchente e do despejo,
do cadáver insepultável
o colchão atirado ao vento,
a lodosa, podre favela,
o mendigo de Nova Iorque
a moça em flor no Jóquei Clube.

Garrincha e Nureyev, dança
de dois destinos, mães-de-santo
na praia-templo de Ipanema,
a dama estranha de Ouro Preto,
a dor da América Latina,
mitos não são, pois que são fotos.

Fotografia: arma de amor,
de justiça e conhecimento,
pelas sete partes do mundo
a viajar, a surpreender
a tormentosa vida do homem
e a esperança a brotar das cinzas.



Carlos Drummond de Andrade



 


Carlos Magalhaes

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Resposta #1 Online: 13 de Setembro de 2006, 14:43:41
Não conhecia, Leila. Muito legal! O pessoal podia indicar alguma coisa que envolve poesia, literatura e fotografia. Seria interessante.  
Carlos Magalhaes
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Carlos Magalhaes

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Resposta #2 Online: 13 de Setembro de 2006, 15:38:43
Leila, aproveitando o seu tópico vou colocar o link para o conto "As babas do Diabo", do Julio Cortázar. É um conto que fala de fotografia. Vale a pena ler, é muito legal.

http://rapidshare.de/files/33005163/babas_do_diabo.rtf.html

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Deco-SP

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Resposta #3 Online: 13 de Setembro de 2006, 15:40:04
Muito bom, também não conhecia.

Seguindo o conselho acima do Carlos, não sei se alguém aqui se interessa por carnaval e desfiles de Escolas de Samba, mas em 2007 teremos algo interessante na avenida.
A escola Unidos da Tijuca, do Rio de Janeiro, vai apresentar um enredo, um desfile relacionado a fotografia, segue abaixo uma introdução do enredo e o link para quem quiser ele inteiro.


"Este ano a Unidos da Tijuca vem mostrar uma viagem pela memória criada pela luz, que grandes artistas da foto nos deixaram. Anônimos ou famosos, esses artistas criaram uma forma mágica de recordar."(...)

http://www.tamborins.com.br/agrem/enredo.p...ijuca&prm2=2007

Fica ae a dica, uma boa oportunidade de mostrar ao Brasil e ao mundo essa belissima arte, através do carnaval!

Deco


dadomagalhaes

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Resposta #4 Online: 13 de Setembro de 2006, 18:48:38
Leila,ja conhecia essa poesia mas é sempre bom reler essa pequena maravilha do Drummond,acho muito legal essas citações sobre fotografia em outros meios de Arte.
Lembro-me de uma que gosto muito,aconteceu no filme as Pontes de Medson,quando a Mary pergunta pro Clint se ele tinha visto o recado que ela havia deixado na ponte,ele responde que só viu mais tarde pois pela manha a Luz estava muito boa e ele não poderia perder.Coisas de louco por fotografia,heheheh

Ps: Ele fez as fotos e ganhou a gata ,hehehe!


Alex Biologo

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Resposta #5 Online: 13 de Setembro de 2006, 20:12:36
Drummond é sempre Drummond...rs

Eu faço um trabalho baseado em foto e poesia, depois se a galera quiser posto alguma coisa do meu trabalho aqui, tá quase virando livro já (falta pouco...rs)

Tem outras pessoas fazendo coisas interessantes também na área, cada um a seu jeito, bem legal, conheço uma fotógrafa que faz uso de Fernando Pessoa nas suas composições fotográficas
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Paulo Machado

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Resposta #6 Online: 13 de Setembro de 2006, 20:24:06
Citar
Eu faço um trabalho baseado em foto e poesia, depois se a galera quiser posto alguma coisa do meu trabalho aqui, tá quase virando livro já (falta pouco...rs)
:thmbup:  
When words become unclear, I shall focus with photographs. When images become inadequate, I shall be content with silent.  - Ansel Adams


Loas

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Resposta #7 Online: 13 de Setembro de 2006, 20:35:43
Fotografia é arte como poesia, as duas andam juntas muitas vezes .

Drummond é
sempre ótimo, mesmo qdo detestável.

Quem mais conhece algum tipo de obra de arte que fale ou mostre (filmes, quadros)   a arte da fotografia?

Alex vc que cuida dos concursos, pq não criar um em que a pessoa teria que tirar uma foto que retratasse um poema? Uma foto resumo.
 


Alex Biologo

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Resposta #8 Online: 13 de Setembro de 2006, 21:15:05
Leila, já foi pensado isso sim, na verdade isso quase rolou, mas para tanto, é necessário que o ganhador do concurso defina isso como tema (teve uma vez que quase não veio tema e então o tema escolhido seria uma análise fotográfica de um texto).

Eu particularmente prefiro coisas mais complexas também (e apesar de não poder, até goastaria de participar se rolasse algo assim...rs

ai está um exemplo do que eu costumo fazer com foto e poesia (as do livro são diferenmtes pq estou fazendo com página espelho).



 
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Loas

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Resposta #9 Online: 13 de Setembro de 2006, 21:26:54
Alex muito interessante, gosatei muito.

Enqto não vem o concurso, vou ver se animo algo na Galeria, vou escolher uma foto minha e colocar um poema, para ver se mais gente se anima.

Bj


Bruno Lourenço

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Resposta #10 Online: 14 de Setembro de 2006, 00:30:25
Tirei esse texto do livro de crônicas que estou terminando de ler, Cadeira de Balanço, do próprio Drummond:




 :diario:O retratista de crianças  :diario:

NA PETITE GALEIR o rapaz com cara de menino abriu uma exposição de fotografias. Aconselho meu leitor, se é que existe, a ir espiá-las. O rapaz chama-se Alécio de Andrade e não é meu parente; numerosos como gotas d´água no oceano são os Andrades na terra, porém não revestem esse ar de família fechada e única, próprio das gotas. Portanto não estou fazendo promoção de nenhum tio ou sobrinho. Acontece que vale mesmo a pena ver as fotos de Alécio. Se você não sair de lá com uma especial ternura pela vida, então, meu caro, desista de considera-se gente; o provável é que você seja apenas objeto falante, e mesmo isso...

A exposição chama-se "Itinerário da infância" e leva-nos de passeio pelas fisionomias e pelos gestos das crianças: as que vemos todo dia, nos parques de recreio, nas praças, mas vistas outra vez e com olhos mais demorados e compreensivos por Alécio (não tivesse ele cara de menino). Não com essa melosidade com que se costuma olhar para os garotos quando se trata de nossos filhos ou dos filhos de nossos amigos, desde que não nos lambuzem a calça. Melosidade que apenas disfarça a vaidade da autoria ou exprime a nossa lisonja, no fundo indiferente. Esta não é a maneira correta de ver a criança. Se quisermos penetrar um pouco no segredo infantil através do semblante e captar essa imagem fugitiva, há de ser com um misto de carinhosa paciência e ardilosa simpatia. A experiência de Alécio foi além: atingiu o momento em que as crianças se revelam sem medo, naturalmente, apenas curiosas pelo que o fotógrafo está fazendo. No encontro com o refolhado mistério que se torna simples, acessível, está a preciosidade destas imagens em que a poesia não é elemento externo, ajuntado, mas a própria essência da coisa. Daí a felicidade que nos transmite. Ó descoberta, ó reencontro de nós mesmos!

Tentei dizer de minha emoção em algumas palavras oferecidas a Alécio e que aqui reproduzo:
"Olha, descobre este segredo: uma coisa são duas-ela mesma e sua imagem.
Repara mais ainda. Uma coisa são inúmeras coisas.
Sua imagem contém infinidade de imagens em estado de sonho, germinando no espaço e na luz.
E as criaturas são também assim, múltiplas de si mesmas.
A variedade de imagens revela o mundo que nasce a cada instante em que o contemplas: formas, ritmos, ângulos, expressões, impressões, fragmentos, síntese.
A imagem é um ser vivo, como os demais seres. E quer penetrar em teu espírito, habitá-lo como hóspede afetuoso.
Se a recolheres com toda pureza da vista e completa simpatia da mente, ela te enriquecerá.
Estas imagens vão mais longe do que os meios intersiderais de comunicação. Insinuam-se na profunda região da vida.
Conversam daquele assunto que carregas contigo como baú nostálgico.
O baú abre-se, e tua infância te saúda, com inocência de fonte. Não pode haver melhor uso da fotografia do que este alimentar-nos da porção perdida de nossa alma.
Uma arte vinculada com a mais fugitiva e perene das realidades poéticas, eis o dom sublime de Alécio de Andrade”.

 


eliverto

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Resposta #11 Online: 14 de Setembro de 2006, 22:11:57
Citar
Não conhecia, Leila. Muito legal! O pessoal podia indicar alguma coisa que envolve poesia, literatura e fotografia. Seria interessante.
Isabel Allende em Retrato em Sépia. p 137:

Citar
" Estou certa de que foi o sonho dos meninos de pijamas negros o que me
levou à fotografia. Quando Severo del Valle me presenteou com uma câmara,
foi esse o pensamento que primeiro me acorreu: se pudesse fotografar aqueles
demônios, eu os derrotaria. Desde os treze anos já tentei muitas vezes.
Inventei complicados sistemas de pequenas rodas e delgadas polias a fim de
disparar uma câmara fixa enquanto dormia, mas terminou por evidenciar se que
aquelas criaturas maléficas eram invulneráveis ao assalto da tecnologia. Ao
ser observado com verdadeira atenção, um objeto ou corpo de aparência comum
transforma-se em algo sagrado. A câmara pode revelar os segredos que o olho
desarmado ou a mente não captam, tudo desaparece, salvo aquilo que é
enfocado no quadro. A fotografia é um exercício de observação, e o resultado
é sempre um golpe de sorte; entre os milhares e milhares de negativos que
lotam vários caixotes em meu estúdio, apenas uns poucos são excepcionais.
Meu tio Lucky Chi'en se sentiria decepcionado se soubesse como foi pequeno
efeito do seu sopro de boa sorte em meu trabalho. A câmara é um aparelho
simples, mesmo o indivíduo mais inepto pode usá-la, o desafio consiste em
criar com sua ajuda aquela combinação de verdade e beleza que se chama arte.
Essa busca é sobretudo espiritual. Procuro verdade e beleza na transparência
de uma folha no outono, na forma perfeita de um caracol na areia da praia,
nas curvas de um torso feminino, na textura de um velho tronco, mas também
naquelas formas escorregadias da realidade. Algumas vezes, ao trabalhar com
uma imagem em meu quarto escuro, aparece a alma de uma pessoa, a emoção de
um evento ou a essência vital de um objeto, e nesse momento a gratidão
explode em meu peito, e não posso evitar que meu pranto se solte. É para
essa revelação que meu ofício aponta. "

 copyright Isabel Allende
[/size]
Eliverto Scherer<br /><br />


Kika Salem

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Resposta #12 Online: 10 de Outubro de 2008, 01:21:11
[TÓPICO UNIDO PELA MODERAÇÃO DA SALA POR CONTER ASSUNTO AFIM]

Alguma vez já comentei que meu poeta preferido é Drummond? Pois então, hoje, o Emidio Luisi lembrou-me um poema dele que trata da fotografia de Evandro Teixeira. Drummond tinha esse hábito de escrever poemas sobre pessoas que ele conhecia ("A família Lyra", "A José Lins do Rego"), com quem ele fantasiava ("Os 27 filmes de Greta Garbo"), além rememorar lembranças comuns a todos nós.

Então tive a idéia de não só apresentar o poema para quem não conhece como também reunir outras obras em verso em prosa que, de alguma forma, tematizaram a fotografia ou os fotógrafos. Já tinha visto algo semelhante com relação aos filmes aqui no fórum. E também para desanuviar um pouco os ânimos.

Vou começar com o poema "Diante das fotos de Evandro Teixeira", de Carlos Drummond de Andrade, e com a música "Desafinado", de Tom Jobim e Newton Mendonça. Espero contar com outras referências e com a colaboração de vocês.

Boa noite!!!



Diante das fotos de Evandro Teixeira

A pessoa, o lugar, o objeto
estão expostos e escondidos
ao mesmo tempo só a luz,
e dois olhos não são bastantes
para catar o que se oculta
no rápido florir de um gesto.

É preciso que a lente mágica
enriqueça a visão humana
e do real de cada coisa
um mais seco real extraia
para que penetremos fundo
no puro enigma das figuras.

Fotografia - é o codinome
da mais aguda percepção
que a nós mesmos nos vai mostrando
e da evanescência de tudo
edifica uma permanência,
cristal do tempo no papel.

Das luas de rua no Rio
em 68, que nos resta
mais positivo, mais queimante
do que as fotos acusadoras,
tão vivas hoje como então,
a lembrar como a exorcizar?

Marcas de enchente e do despejo,
o cadáver insepultável,
o colchão atirado ao vento,
a lodosa, podre favela,
o mendigo de Nova York
a moça em flor no Jóquei Clube,

Garrincha e Nureyev, dança
de dois destinos, mães-de-santo
na praia-templo de Ipanema,
a dama estranha de Ouro Preto,
a dor da América Latina,
mitos não são, pois são fotos.

Fotografia: arma de amor,
de justiça e conhecimento,
pelas sete partes do mundo
a viajar, a surpreender
a tormentosa vida do homem
e a esperança a brotar das cinzas.

(Carlos Drummond de Andrade em "Amar se aprende amando")



Desafinado

Quando eu vou cantar, você não deixa
E sempre vêm a mesma queixa
Diz que eu desafino, que eu não sei cantar
Você é tão bonita, mas tua beleza também pode se enganar

Se você disser que eu desafino amor
Saiba que isto em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm o ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu

Se você insiste em classificar
Meu comportamento de anti-musical
Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é Bossa Nova, isto é muito natural

O que você não sabe nem sequer pressente
É que os desafinados também têm um coração
Fotografei você na minha Rolley-Flex
Revelou-se a sua enorme ingratidão

Só não poderá falar assim do meu amor
Este é o maior que você pode encontrar
Você com a sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado
Que no peito dos desafinados também bate um coração

(Tom Jobim e Newton Mendonça)
« Última modificação: 13 de Dezembro de 2008, 20:52:26 por Kika Salem »


LeandroFabricio

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Resposta #13 Online: 10 de Outubro de 2008, 01:35:35
Muito legal..

Do Tom Jobim também tem: "Fotografia" e "Retrato em Preto e Branco".
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Shinon

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Resposta #14 Online: 10 de Outubro de 2008, 09:12:52
Muito Legal Kika!
Mandou muito bem com as composições dos poetas!
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