Autor Tópico: Chateaubriand  (Lida 303 vezes)

Macrolook

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Online: 27 de Abril de 2017, 04:04:55
Mais um relato.

Na época, trabalhava em um restaurante, para pagar a faculdade, arrumei um trabalho de cumim, ajudante de garçom, neste lugar, aprendi a ser multitarefas, o que era arrogância e entender o significado da palavra empatia.
Nesta período, estava estudando tipografia, procurava um estágio em alguma editora, revista, para poder exercer a diagramação, uma das áreas que me aprofundei, mas a única coisa mais próxima a tipografia eram os rótulos das garrafas que tinha que tirar pó.

Havia neste lugar, gente de tudo quanto é tipo, principalmente os pobres metidos a ricos, estes, são em sua maioria, os que mais destratam os serviçais (era assim como eramos chamados por um tal sr Pereiô, cliente antigo, um tipo que parecia um mordomo).
Odiava esse cara, ele tinha o dom de te rebaixar ao extremo, as vezes, nem me dirigia a palavra , preferia chamar a maitre, pois para ele, os cumins não eram dignos de suas palavras... outra coisa que nos emputecia, era quando ele resolvia fumar charuto apó comer, e o pior, jogava o charuto no chão, só para que nós pegassemos, ele era amigo do chefe, o dono do restaurante, então fazia o que bem entendia.

Por outro lado, havia um camarada, Calvo, gente boa demais, em algumas reuniões da empresa que trabalhavam, ele era o primeiro a chegar, o último a sair e o mais informal, enquanto os demais eram todos engravatados e polidos. Certa vez, em uma dessas reuniões, era dia de caldo, inverno, serviamos esse prato em uma tigela de barro, que estava sempre fodidamente lotada até a boca, e era horrível equilibrar isso sem derrubar, para meu azar, ao chegar perto da mesa, escorreguei no charuto do maldito Pereiô e derrubei o caldo no Calvo, os engravatados me xingaram de tudo quanto é coisa, o maldito do charuto se esborrachava de rir, e o Calvo, foi até mim, gentil, disse para ficar tranquilo e assim, os outros pararam com os insultos, pedi um milhão de desculpas e voltei ao trabalho.

Ainda depois disso, tive que pagar a lavanderia da roupa do Calvo, escutar um monte do chefe e ainda ter que ver a cara do maldito fumador de charuto todo dia, olhava, ria, e ficava encarando. Precisava fazer algo a respeito, ele, o charuteiro, era daqueles clientes que levavam meninas 40 anos mais novas que ele, era um dos últimos a sair, pois ficava conversando com o chefe depois que a cozinha fechava, um dia, vou devolver a queda pra ele.
Bolei um plano, comprei laxante, era dia de gazpacho, virei meio vidro daquilo, Gutalax, era moleque, queria mais é ver o homem se contorcendo, ele tomou tudo, era só esperar.

Enquanto isso, chega Calvo, e neste dia havia reservado o restaurante para a empresa, pediu um prato complexo, Chateaubriand, carne maravilhosa, preparo demorado, linda apresentação e o prato mais caro do local, ocasião especial, imaginei, bacana, o cara está numa boa, merece, sujeito humilde.
Estava eu cortando pão, e derrepente vejo o Chateaubriand rolando no chão, que estava sujo, cheio de gordura e serragem (para não escorregar) a cozinha parou, o chefe, vermelho de vergonha, decide, limpem e sirvam, ao ver que eu tinha visto, me disse: Você irá servir, e não diga uma palavra, senão, rua!

Precisava do emprego, pagava bem, estava com as contas no limite, sempre fui sozinho, sem respaldo financeiro, nossa, que situação, não poderia servir aquilo, não aquele cara, já havia derrubado sopa nele, e agora daria prato do chão?
Peguei a bandeja, e fui apresentar a peça inteira, antes de ser fatiada (ritual do prato), estava branco, Calvo percebeu, perguntou se eu estava bem, disse que sim, elogiou o prato e me disse: nem precisava mostrar, confio em você...

Juro, preciso dar um jeito, foi ai que vi o charuto no chão, deslizei sobre o charuto, e lá fui eu pro chão, derrubando o prato no corredor, fazendo o maior estardalhaço, foi uma lambança só.
Coloquei a culpa no charuto do sacana, e por sorte, outros clientes vieram em minha defesa, o chefe, ficou puto da vida, achei que fosse me mandar pra casa, mas não, como castigo por ser vacilão,mandou me limpar o banheiro, saco, antes de ir ao hall, Calvo se despede de todos, e me disse que estava tudo bem, fiquei limpando o banheiro que tinha um hall de entrada único, e se bifurcava depois para homens e mulheres.

Já estava quase na hora de ir embora, quando escuto alguém desesperado batendo na porta do hall, normalmente fecho e coloco um aviso "manutenção" para trocar papel e repor sabonetes, para meu regozijo, reconheço que a voz era do Pereiô, ai, na sacanagem pura digo, a porta emperrou, a chave não gira, quando escuto um barulho, parecia uma moto com escapamento aberto, acelerando com tudo e "estourando" a vela... o cara não aguentou, fez lá mesmo, espero mais alguns segundos, e digo, pronto, consegui, a chave girou. nem me olhou, foi embora, todo borrado, aquilo foi muito humilhante pra ele, a vingança foi doce, mas muito fedida.

No dia seguinte, fui demitido, fodido e sem saber o que fazer, fui tomar um café no bar da frente do restaurante, lá encontro Calvo, que me conta que no dia anterior adquiriu uma editora,contei a ele que estudava designer e problema com o emprego, me ofereceu uma vaga, pois estava precisando de um designer trainee, no início achei que ele era gay e estava rodeando, mas depois descobri que o cara era taoista, e tudo fez sentido.
Contei a ele sobre o prato, ele nunca mais foi ao restaurante, pediu ao seu redator para publicar a história na coluna de gastronomia, um mês depois, o restaurante fechou.
Quanto ao Pereiô, encontrava as vezes ele na rua, quando acontecia, chamava ele de motoqueiro.


« Última modificação: 27 de Abril de 2017, 04:12:44 por Macrolook »
“Fotografia é poder de observação, não de aplicação da tecnologia.” Ken Rockwell.


tiagonn

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Resposta #1 Online: 27 de Abril de 2017, 09:19:42
Kkkkkk ótimo...

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Vanquish

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Resposta #2 Online: 27 de Abril de 2017, 11:37:22
...derrepente vejo o Chateaubriand rolando no chão, que estava sujo, cheio de gordura e serragem (para não escorregar) a cozinha parou, o chefe, vermelho de vergonha, decide, limpem e sirvam...

Ótima história ! O único senão é.. quantas vezes somos vítimas nas mãos de pessoas sem escrúpulos como o ex-dono deste restaurante ?  :ponder:


Helena Bsb

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Resposta #3 Online: 03 de Maio de 2017, 09:28:39
 :clap: :clap: :clap:
Grande Calvo!!!
Realmente, isso que acontece nesse restaurante, deve acontecer direto e reto, e a gente nem sonha...