Autor Tópico: Trechos de livros sobre fotografia  (Lida 277 vezes)

RFP

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Online: 21 de Fevereiro de 2021, 10:16:28
Pegando carona no tópico sobre referências, sugiro colocarmos trechos e citações de livros sobre fotografia. Vou começar:

Em vez de fotografar as coisas que você deveria fotografar, fotografe aquilo que lhe interessa. Você é a sua fonte mais poderosa; então, não perca tempo fotografando aquilo que interessa aos outros, a menos que também lhe interesse. O seu jeito de viver, as suas opiniões e o seu entorno pertencem apenas a você. Latas de lixo numa viela, seu cônjuge molhando as plantas, espuma na pia, um carrinho de supermercado na chuva — o que você escolhe fotografar revela sua psique, sua atitude mental, uma forma única de ver — o seu jeito. O fotógrafo Bob Llewellyn coloca bem: "Toda fotografia que você faz é um autorretrato."

Derek Doeffinger — The Kodak Workshop Series — The Art of Seeing


Hansgruber

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Resposta #1 Online: 21 de Fevereiro de 2021, 13:50:58
Wow!

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Leoneves

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Resposta #2 Online: 21 de Fevereiro de 2021, 14:42:21

O que nós chamamos aqui de “ilusão especular” não é senão um conjunto de arquétipos e convenções historicamente formados que permitiram florescer e suportar essa vontade de colecionar simulacros ou espelhos do mundo (...) Desde pelo menos cinquenta anos, os artistas do campo da visualidade se deram por missão mimetizar o mundo visível, na tentativa, sempre impossível, de obter um espelho perfeito do mundo, mas um espelho dotado de memória, que perpetua o que foi olhado. A fotografia representou o coroamento dessa ilusão especular.

A ilusão especular, Arlindo Machado


RFP

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Resposta #3 Online: 21 de Fevereiro de 2021, 15:01:34
O que nós chamamos aqui de “ilusão especular” não é senão um conjunto de arquétipos e convenções historicamente formados que permitiram florescer e suportar essa vontade de colecionar simulacros ou espelhos do mundo (...) Desde pelo menos cinquenta anos, os artistas do campo da visualidade se deram por missão mimetizar o mundo visível, na tentativa, sempre impossível, de obter um espelho perfeito do mundo, mas um espelho dotado de memória, que perpetua o que foi olhado. A fotografia representou o coroamento dessa ilusão especular.

A ilusão especular, Arlindo Machado

👌👏


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Resposta #4 Online: 22 de Fevereiro de 2021, 06:41:46
Como armas e carros, as câmeras são máquinas de fantasia cujo uso é viciante. Porém, apesar das extravagâncias da linguagem comum e da publicidade, não são letais. Na hipérbole que vende carros como se fossem armas, existe pelo menos esta parcela de verdade: exceto em tempo de guerra, os carros matam mais pessoas do que as armas. A câmera/arma não mata, portanto a metáfora agourenta parece não passar de um blefe — como a fantasia masculina de ter uma arma, uma faca ou uma ferramenta entre as pernas. Ainda assim, existe algo predatório no ato de tirar uma foto. Fotografar pessoas é violá-las, ao vê-las como elas nunca se veem, ao ter delas um conhecimento que elas nunca podem ter; transforma as pessoas em objetos que podem ser simbolicamente possuídos. Assim como a câmera é uma sublimação da arma, fotografar alguém é um assassinato sublimado — um assassinato brando, adequado a uma época triste e assustada.

Susan Sontag — Sobre Fotografia


Leoneves

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Resposta #5 Online: Ontem às 19:27:34
Vão aqui 2 de um dos grandes pensadores contemporâneos sobre fotografia

Aliás, de seu livro mais recente, "O Encanto de Narciso", tão bom que lê-se de uma tacada só, tão bom que relê-se de outra tacada, e mais outra. Um deleite, recomendo.

 “toda fotografia é autoral por natureza, registrada e elaborada segundo a forma pessoal de determinado fotógrafo ver, perceber e conceber o mundo”.

“Às vezes levamos muito tempo para ver os detalhes de uma foto. Muitas vezes não vemos tudo o que nela está gravado. Ou então vemos e não compreendemos exatamente o que significam. Outros ainda olham para as imagens e não veem nada. Além disso, as imagens provocam nos espectadores diferentes sensações. Depende sempre de quem recebe o estímulo visual. Lembra Bergson: ‘O olho vê somente o que a mente está preparada para compreender’”.

Boris Kossoy




RFP

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Resposta #6 Online: Hoje às 11:26:49
‘O olho vê somente o que a mente está preparada para compreender’”.

👍


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Resposta #7 Online: Hoje às 11:28:37
Se considerarmos o aparelho fotográfico sob tal prisma, constataremos que o estar programado é que o caracteriza. As superfícies simbólicas que produz estão, de alguma forma, inscritas previamente (“programadas”, “pré-escritas”) por aqueles que o produziram. As fotografias são realizações de algumas das potencialidades inscritas no aparelho. O número de potencialidades é grande, mas limitado: é a soma de todas as fotografias fotografáveis por este aparelho. A cada fotografia realizada, diminui o número de potencialidades, aumentando o número de realizações: o programa vai se esgotando e o universo fotográfico vai se realizando. O fotógrafo age em prol do esgotamento do programa e em prol da realização do universo fotográfico. Já que o programa é muito “rico”, o fotógrafo se esforça por descobrir potencialidades ignoradas. O fotógrafo manipula o aparelho, o apalpa, olha para dentro e através dele, a fim de descobrir sempre novas potencialidades. Seu interesse está concentrado no aparelho e o mundo lá fora só interessa em função do programa. Não está empenhado em modificar o mundo, mas em obrigar o aparelho a revelar suas potencialidades. O fotógrafo não trabalha com o aparelho, mas brinca com ele. Sua atividade evoca a do enxadrista: este também procura um lance “novo”, a fim de realizar uma das virtualidades ocultas no programa do jogo.

Vilém Flusser - Filosofia da Caixa Preta