Autor Tópico: Olhar fotográfico  (Lida 348 vezes)

erickdlm

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Online: 11 de Outubro de 2021, 20:06:29
Vamos falar um pouco de olhar fotográfico...

Você acha que já desenvolveu um olhar fotográfico que se traduz em suas fotos ou ainda está buscando esse olhar diferenciado?
O que você que já desenvolveu esse olhar pode falar para aqueles que ainda estão na busca?
O que você tem feito para desenvolver esse olhar?
Quando as pessoas veem uma foto sua em algum lugar elas se perguntam se é sua? (vou dar um exemplo: a Pris Werso, é fácil identificar seu estilo)

Essas perguntas não são propriamente para serem respondidas como questionário, é só para dar um "norte" à conversa.


Lindsay

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Resposta #1 Online: 11 de Outubro de 2021, 21:14:36
 :snack:
com mais tempo vou comentar
Conhecimento importa mais que equipamento.


pkawazoe

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Resposta #2 Online: 11 de Outubro de 2021, 23:46:17
Eu já citei essa frase aqui no fórum várias vezes, de que nós não fotografamos com os olhos mas com o cérebro e é preciso alimentá-lo com muita fotografia, pintura, música, literatura, cinema, etc

Mas ao tentar escrever algo para esse post percebi que o repertório não é o mais importante e me lembrei desse texto que tomei conhecimento aqui no fórum há alguns anos.

A COMPLICADA ARTE DE VER
 
Rubem Alves
 
Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões – é uma alegria!
Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica.
De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”
 
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.
 
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
 
William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado.
Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
 
Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”.
Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem.
 
“Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido.
 
Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.
 
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”.
 
Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.
 
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre.
Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras.
 
Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.
 
Por isso – porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…
 
 
Rubem Alves – Educador e escritor.
Texto originalmente publicado no caderno “Sinapse”, jornal “Folha de S. Paulo”, em 26/10/2004.

e um video que gosto muito e tbm exemplifica essa ideia do texto




As vezes ainda estamos muito ligados aquilo que é real, mas uma cadeira antes de ser cadeira, é um conjunto de linhas, formas, sombras, volumes, cor, etc.
Então ao invés de fotografar uma criança, fotografemos a inocência, alegria, ao invés de fotografar uma sala, a gente fotografa o vazio, a luz, o silencio.
E quanto mais características abstratas colocamos, infinitas possibilidades se abrem a nossa frente.


erickdlm

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Resposta #3 Online: 12 de Outubro de 2021, 16:31:11
Eu já citei essa frase aqui no fórum várias vezes, de que nós não fotografamos com os olhos mas com o cérebro e é preciso alimentá-lo com muita fotografia, pintura, música, literatura, cinema, etc

Mas ao tentar escrever algo para esse post percebi que o repertório não é o mais importante e me lembrei desse texto que tomei conhecimento aqui no fórum há alguns anos.

A COMPLICADA ARTE DE VER
 

"ao invés de fotografar uma criança, fotografemos a inocência, alegria, ao invés de fotografar uma sala, a gente fotografa o vazio, a luz, o silencio."
Seria muito bom se não só fotógrafos, mas todos conseguissem ou buscassem conseguir ver através do óbvio, como enxergar a alegria do próximo, a bondade, creio que o mundo seria muito melhor, mas aí entra também outra parte do texto, aquela da educação ensinar a ver...

Muito bom o texto (eu ainda não tinha lido ele aqui no fórum) e o video  :ok:


Arnaldo Santos

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Resposta #4 Online: 13 de Outubro de 2021, 19:32:29
Concordo com as argumentações do pkawazoe:

Eu não trabalho com fotografia então minha opinião deve ser vista a partir desta informação.

"Para mim, a fotografia é uma arte de observação. Trata-se de encontrar algo interessante em um lugar comum... Descobri que tem pouco a ver com as coisas que você vê e tudo a ver com a maneira como você as vê". Elliot Erwitt

O final da frase "tudo a ver com a maneira como você as vê" é a chave para desenvolver o olhar. Cabe ao fotografo entender no repertório visual, literário, etc. o que realmente chama a atenção e conhecer-se melhor para conseguir se expressar efetivamente, isto é, mostrar o que vê e não o que todos virão.

Winogrand tem um ditado mais ou menos assim "se vejo algo comum/ordinário no meu visor, faço todo o possível para poder transformá-lo".

Eu sempre me pergunto nesta busca do "olhar" como saber se atingirei o sucesso ao fazer uma fotografia se não sei como ela tem que se parecer? será teste somente? (digo isto no sentido de ser uma expressão do meu olhar)
« Última modificação: 13 de Outubro de 2021, 19:37:50 por Arnaldo Santos »


erickdlm

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Resposta #5 Online: 14 de Outubro de 2021, 08:31:54

Eu sempre me pergunto nesta busca do "olhar" como saber se atingirei o sucesso ao fazer uma fotografia se não sei como ela tem que se parecer? será teste somente? (digo isto no sentido de ser uma expressão do meu olhar)
Esse é um assunto interessante, e controverso, essa questão de como a fotografia tem que parecer para que a consideremos um "sucesso" ou seja, que seja algo que digamos: Agora sim!