Autor Tópico: [ARTIGO] Você já se preocupou com as questões de estilo?  (Lida 9725 vezes)

Kika Salem

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Online: 06 de Junho de 2008, 13:49:51
Se você já se preocupou, ainda que não tenha um como eu, esse tópico pode lhe interessar, pois mesmo quem não tenha, não está excluído de pensar tais questões e nem de acompanhar o percurso de quem busca ou já encontrou seu próprio caminho.

Vou explicar como cheguei a essa questão ontem especificamente. Estou realizando umas leituras obrigatórias, na minha área, por um motivo muito específico. Estou tentando me concentrar nessa leitura, para não perder o foco da discussão, mas mesmo elas me estimulam a refletir sobre a fotografia e a resgatar muitas questões que já foram levantadas aqui sobre composição fotográfica e fotografia autoral, de modo geral. Também em linhas bem gerais, na minha área existe um debate acirrado e muito bem fundamentado sobre se a escrita da história é arte, é literatura, é narrativa ou se deve ser encarada apenas como uma ciência, ainda que não seja exata nem disponha de um único método.

Pois bem, o autor que me remeteu às discussões passadas no campo da fotografia e realizadas aqui nesse fórum, e que também pode suscitar novas reflexões, chama-se Peter Gay. É alemão, naturalizado americano, e tem uma obra vastíssima sobre as questões de estilo e natureza da história, além de promover discussões entre história e psicanálise, entre outros assuntos. Não estou recomendando que ninguém leia esse autor, porque apenas em poucas páginas, num livro em específico, ele trata de um tema que é caro à produção artística, seja ela escrita ou visual, e nos estimula pensar certos temas, que também nos são caros, tais como estilo, genialidade, tradição, inovação etc.

Vou compartilhar as idéias do autor com vocês. Para isso preferi dividi-las em 5 questões centrais e espero que elas sirvam muito mais para reflexão do que para inflexão.

1) Em primeiro lugar, o que é “estilo”?
Estilo, para Peter Gay, não é apenas uma característica inerente à personalidade do criador (vou usar uma designação mais genérica, mas pode ser substituída por fotógrafo), mas algo mais amplo que integra vários mundos como o individual e o social, o público e o privado, o costume e a cultura. Em resumo, diz o escritor, “o homem vive em vários mundos ao mesmo tempo, mais notadamente em sua esfera privada, no âmbito relativamente íntimo de seu ofício e no amplo domínio público de sua cultura. Tal como as diversas dimensões do estilo, esses mundos se entrecruzam e se penetram continuamente: a pessoa privada interioriza os critérios do ofício e as normas da cultura; o ofício, de modo geral, serve à cultura e expressa com obediência seus ideais mais genéricos”. Ou seja, um estilo literário maduro, ou de qualquer outro setor das artes, “é uma síntese de todos esses elementos, combinados de maneiras várias; é, pois, a um só tempo individual e social, privado e público, uma combinação de modos herdados, elementos tomados de empréstimo e qualidades exclusivas”.

2) Qual o aspecto negativo do romantismo no que concerne às questões do “estilo” e à produção artística?
“Se, como tendiam a pensar alguns românticos, o estilo fosse tão-somente a roupagem externa de estados interiores, o transbordamento espontâneo das fontes de criatividade, ele traria informações sobre a psique de um escritor, e nada mais. Mas esses românticos se equivocavam”.

3) O autor acredita na genialidade artística defendida (e por que não criada?) pelo romantismo?
Não. Primeiro porque Peter Gay define estilo como a equação de vários mundos e não apenas uma manifestação espontânea do criador e segundo porque acredita que o estilo não só pode como deve ser adquirido, é uma construção social que engloba vários elementos.
Portanto, para o autor, o estilo pode ser apreendido. Os escritores, e aqui podemos novamente expandir tais reflexões para o trabalho do fotógrafo, “não são estilistas de nascença; eles modelam seus estilos por meio de um esforço constante para superar a dependência e encontrar suas vozes próprias. Normalmente, o aprendiz de escritor [...] descobre o estilo que lhe é apropriado seguindo de início, e depois abandonando, modelos de sua admiração; a imitação parece constituir uma fase essencial no processo de autodescoberta. Nem sequer em princípio, portanto, a escrita [a forma de expressão] provém inteiramente do coração; em sua maior parte, provém diretamente de outros livros [do contato com outras formas de expressão]. A singeleza mais elevada surge mais tarde, fruto de uma faina que oculta a faina” [essa frase pra mim é central e pode ser uma explicação para muitas confusões nessa área e, por isso, merece um destaque a mais]. Ou seja, o estilo é “ato da vontade e exercício da inteligência. É o tributo que a capacidade de expressão paga à disciplina”. Noutras palavras “o estilo é a utilização de meios para um fim, embora, como bem sabemos, também possua seu lado passional e faça suas revelações involuntárias”. Em síntese, “para a quase totalidade dos demais escritores, o estilo, além de dote, é conquista e o estudo do estilo empreende a crônica e a análise dessa conquista”.

4) Qual o papel da tradição no processo de apreensão do estilo?
“A escrita [vamos pensar a escrita como algo mais amplo, como forma de expressão] é uma atividade que se realiza na tessitura de uma tradição literária [ou de qualquer outro setor artístico]. À exceção de alguns inovadores, a maioria dos escritores, mesmo os maiores dentre eles, falam numa linguagem que se tornou familiar por intermédio dos outros. Mesmo os que têm como meta a ininteligibilidade, como os poetas dadaístas, encontram seus vocabulários no contexto de uma sociedade, por mais seletos que sejam; sua ininteligibilidade é a maneira de se comunicarem – de forma inteligível – com os outros de seus círculos. A atitude de um escritor [do criador] frente à sua tradição pode ser dócil, ambivalente ou rebelde. Ele pode escrever da maneira que escreve porque, antes, outros escreveram dessa sua maneira ou porque, antes, outros não escreveram dessa sua maneira. Qualquer que seja sua atitude, ele não pode ficar indiferente à atmosfera que, pela escolha de sua profissão, é obrigado a respirar” [outra idéia que merece um destaque a mais].

5) Dizer que determinada pessoa tem estilo significa atribuir-lhe um adjetivo elogioso? Ou seja, as definições de estilo vêm imbuídas invariavelmente de uma conotação positiva?
Não. E para sustentar isso o autor cita a “balcanização” da produção literária nos tempos do consumo de massa onde se costuma dividir as tarefas e pensa-se legítimo “pedir a pesquisadores que pesquisem, a escritores que dêem às pesquisas uma forma de enredo, a estilistas que acrescentem os toques refinados”. Segundo o autor, “tal balcanização divide fatalmente o que se deveria unir; os produtos que tais métodos lançam no mercado são, como todos sabemos, mercadorias com embalagens atraentes, enfeitadas com trocadilhos obsessivos, superlativos gastos, episódios falsos. O estilo, aqui, é um subproduto do empreendimento comercial não é de forma alguma o homem, e sim o sistema”.

As passagens acima, colocadas entre aspas, foram selecionadas da introdução do livro "O estilo na história", de Peter Gay. O que está entre parênteses são inserções minhas.

Bem, deixa eu voltar aos meus afazeres.
« Última modificação: 06 de Junho de 2008, 14:21:21 por Leo Terra »


Leo Terra

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Resposta #1 Online: 06 de Junho de 2008, 14:21:01
Kika promovido a artigo.... ;)
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PARA DÚVIDAS SOBRE O FÓRUM LEIA O FAQ.


Kika Salem

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Resposta #2 Online: 06 de Junho de 2008, 14:38:03
Leo, nem é um texto acabado, mais um mote para resgatar tais discussões.
De qualquer forma, já que foi promovido, vou dar o maior crédito ao Ivan, que num tópico recente sobre composição e tantos outros, e também a você, que num tópico muito antigo (aquele do "O gênio é um por cento de inspiração e noventa e nove por cento de suor"), me fizeram relacionar essa leitura às questões discutidas aqui. Mas veja elas podem e devem ser refinadas, esse autor é só um ponto de partida.
Também não quero monopolizar a seção de artigos, sobretudo, porque, essas reflexões são ainda incipientes como também é minha prática.


Carlos Magalhaes

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Resposta #3 Online: 06 de Junho de 2008, 20:35:53
Kika, achei muito interessante. Os trechos do Peter Gay e os seus comentários sintetizam muito do que já foi discutido aqui. Me lembrei de um trecho do livro do Gombrich que trata da mesma questão, apresentando um exemplo muito curioso. Cito abaixo:

GOMBRICH, E. H. Arte e Ilusão. São Paulo: Martins Fontes, 1986. (p. 74)

“O sr. Chiang Yee certamente se deleita com a adaptação do idioma chinês a um novo objetivo. Quer que vejamos o cenário inglês [...] ‘através dos olhos de um chinês’ [1]. Mas é precisamente por esse motivo que é tão instrutivo comparar sua paisagem como uma versão tipicamente ‘pitoresca’ do período Romântico [2]. Vemos como o vocabulário relativamente rígido da tradição chinesa funciona como um crivo seletor, que admite apenas os aspectos para os quais existe schemata. O artista deixa-se atrair por motivos que podem ser representados no seu idioma. Ao esquadrinhar a paisagem, as vistas que podem ser ajustadas com êxito à schemata que ele aprendeu a manejar saltam aos olhos como centros de atenção. O estilo, como veículo, cria uma atitude mental que leva o artista a procurar na paisagem que o cerca elementos que seja capaz de reproduzir. A pintura é uma atividade, e o artista tende, conseqüentemente, a ver o que pinta ao invés de pintar o que vê”.

“É essa interação entre estilo e preferência que Nietzsche sintetizou no seu cáustico comentário sobre as pretensões do Realismo:”

“Toda natureza fielmente” – mas por qual estratagema
Será possível sujeitar a natureza ao jugo da Arte?
Seu menor fragmento é ainda infinito!
E assim ele pinta somente o que nela o agrada.
E o que é que o agrada? O que sabe pintar!


“Nessa observação há mais do que uma fria advertência sobre as limitações dos meios artísticos. Captamos um vislumbre das razões pelas quais essas limitações jamais se imporão nos domínios da arte propriamente dita. A arte pressupõe mestria, e quanto maior for o artista mais seguramente ele evitará, instintivamente, uma tarefa na qual a sua mestria de nada lhe servirá. O leigo pode se perguntar se Giotto seria capaz de pintar uma vista de Fiesole ao sol, mas o historiador suspeitará que de que, por carecer dos meios necessários, ele não desejaria fazê-lo. Nós gostamos de afirmar que querer é poder, mas esse ditado, em matéria de arte, deve ser invertido: o poder é que dita o querer. O indivíduo pode enriquecer os meios que a cultura a que pertence lhe oferece; dificilmente desejará o que nunca teve como possível”.


[1] Chiang Yee - Vacas em Derwentwater - 1936 - Pincel e Tinta



[2] Anônimo - Derwentwater, vista na direção de Borrowdale - 1826 - Litografia

« Última modificação: 06 de Junho de 2008, 20:38:33 por Carlos Magalhaes »
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Resposta #4 Online: 06 de Junho de 2008, 22:23:04
Olá Carlos!

Muito interessante as passagens que você citou. Assim a gente vai compondo um quadro e deixando certas questões mais claras, porque as mesmas não são de todo claras para mim, embora eu me guie por algumas linhas mestras e recuse determinadas idéias correntes.

Você percebeu a coincidência? Apenas ontem deparei-me com tais passagens no livro citado acima, que estava lendo por motivo bem diverso. Também tem aquele livro, a "Sociologia de um gênio", do Norbert Elias, que é muito elucidativo nesse sentido.

De novo, obrigada por complementar as idéias expostas acima. Vamos montando esse quebra-cabeça.

P.S.: Essa semana sem falta mando seu livro.
« Última modificação: 06 de Junho de 2008, 22:34:36 por Kika Salem »


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Resposta #5 Online: 06 de Junho de 2008, 22:49:59
Kika, muito legal a lembrança do livro do Elias. Mais uma para a lista impossível! Outro texto que separei recentemente para reler pensando em fotografia é o "Modos de produção e modos de percepção artísticos" do Bourdieu. Está no livro "Economia das Trocas Simbólicas".

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Resposta #6 Online: 06 de Junho de 2008, 23:08:45
Lista do impossível foi ótimo. Eu tenho uma dessas também.
Confesso que me esforcei para terminar, ou melhor, começar a ler com vontade "A economia das trocas simbólicas", mas o Bourdieu não me ajudou, acabei lendo apenas o capítulo que define "campo" e "habitus". Mas um que tenho como obrigação ler, mas que ainda permanece na lista do impossível, é "As regras da arte".
Carlos, a gente parece aquele personagem (Rob), do filme "Alta fidelidade", que faz lista pra tudo.


Carlos Magalhaes

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Resposta #7 Online: 07 de Junho de 2008, 00:10:22
Bourdieu não ajuda, é dose para elefante ler aquelas frases do tamanho de um parágrafo. Estava pesquisando aqui e vi um livro do Howard Becker que parece interessante: http://www.amazon.com/Art-Worlds-Howard-S-Becker/dp/0520052188/ref=si3_rdr_bb_product

O Becker é o contrário do Bourdieu, tem um texto cristalino. A Amazon tem o livro usado a parir de 1,90 (dolar). Vale a pena!

O Becker é um dos últimos grandes sociólogos americanos vivos. Tá fazendo 80 anos. No site dele tem muitos textos:
http://home.earthlink.net/~hsbecker/

Na seção "My Articles" tem artigos sobre jazz. Ele tocava piano em bandas de jazz na juventude.
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Kika Salem

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Resposta #8 Online: 07 de Junho de 2008, 09:48:23
Carlos:

Esse autor eu não conheço, vou procurar conhecer, afinal só coisa chata não dá. :ok:

Aqui, no site da Anpocs, tem uma série de resenhas, entre as quais do livro do Norbert Elias, "Mozart - a sociologia de um gênio". Estou citando-o porque tem muito a ver com nossa proposta aqui, pois discute com originalidade a concepção de gênio em uma sociedade pré-romântica, a sociedade de corte, ainda não receptiva a essa condição, tomando por tema a vida do compositor Mozart em espaço e tempo determinados e procurando dar conta da trilogia indivíduo, história e sociedade, por isso, distancia-se e muito da perspectiva biográfica. O interessante dessa análise é que ela não toma o artista como reflexo das condições sociológicas (reduz o sujeito às condições externas), como muito já se fez, nem tampouco se concentra apenas na trajetória individual do artista (faz o inverso, desconsidera as condições externas e concentra-se apenas na atividade personalista do artista), mas considera tanto os elementos específicos dessas trajetórias individuais como também condições sociológicas e contextos históricos.

P.S.: O Davi me ensinou a atribuir um link à palavra (exemplo da Anpocs acima), assim fica visualmente melhor. Obrigadinha.


lee oliveira

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Resposta #9 Online: 18 de Junho de 2008, 15:44:15
to entrando para agradecer a voces ,que com esses topicos ,fazem esses foruns ficarem uma delicia :ok:


Ivan de Almeida

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Resposta #10 Online: 10 de Julho de 2008, 12:04:44
Nosso estilo é a forma da nossa prisão psicológica;

Nosso estilo é o sintoma de nossa busca psicológica;

Ambas as afirmativas são verdadeiras. Nosso estilo é ao mesmo tempo algo recorrente, portanto prisão, e algo dentro do qual concentramos nossas buscas, portanto, caminho de liberdade.


Kika Salem

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Resposta #11 Online: 10 de Julho de 2008, 18:40:22
Nosso estilo é a forma da nossa prisão psicológica;

Nosso estilo é o sintoma de nossa busca psicológica;

Ambas as afirmativas são verdadeiras. Nosso estilo é ao mesmo tempo algo recorrente, portanto prisão, e algo dentro do qual concentramos nossas buscas, portanto, caminho de liberdade.

Ivan, vamos ver se eu entendi...
Prisão seria seu passado não só pessoal como humano, dentro daquela idéia de cultura que você desenvolveu em outro tópico. Busca seria seus interesses, o que te atrai, o que você pode fazer para aperfeiçoar etc.
Enfim, não articulei prisão e busca com o complemento psicológico. Portanto, acho que não alcancei a mensagem.
Vou falar a verdade. Não captei a mensagem mesmo, só arrumei um pretexto para ver se você se sente estimulado a desenvolver a idéia, se jugar necessário, evidentemente.



« Última modificação: 10 de Julho de 2008, 18:46:21 por Kika Salem »


Ivan de Almeida

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Resposta #12 Online: 10 de Julho de 2008, 21:23:58
Estilo é prisão, Kika, porque ele é uma forma de repetição, um traço, uma fisionomia que se mantém em nosso trabalho, e assim sendo ele é algo fixo e não necessariamente algo sobre o qual temos domínio. Se tentarmos ser de outro jeito, não conseguiríamos, entende?

Por outro lado, o único caminho para a liberdade é entender, tomar posse, tornar consciente aquilo que em nós é repetição (pois todos nós somos em enorme parte uma máquina de repetir condutas, pensamento, modos de sentir). Então, para que exista essa consciência é preciso que ela seja consciência de alguma coisa, não existe consciência de nada. Nosso estilo, portanto, é o nosso caminho de liberdade na hora que entendemos ele conter o desafio: "Decifra-me ou devoro-te!"

Por isso o estilo tem esse lado dual. Ele precisa ser decantado, isto é, precisa ser aceitado, reconhecido, desenvolvido e ao mesmo tempo digerido e sobre ele devemos ganhar algum controle.


Kika Salem

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Resposta #13 Online: 11 de Julho de 2008, 12:31:21
Estilo é prisão, Kika, porque ele é uma forma de repetição, um traço, uma fisionomia que se mantém em nosso trabalho, e assim sendo ele é algo fixo e não necessariamente algo sobre o qual temos domínio. Se tentarmos ser de outro jeito, não conseguiríamos, entende?

Por outro lado, o único caminho para a liberdade é entender, tomar posse, tornar consciente aquilo que em nós é repetição (pois todos nós somos em enorme parte uma máquina de repetir condutas, pensamento, modos de sentir). Então, para que exista essa consciência é preciso que ela seja consciência de alguma coisa, não existe consciência de nada. Nosso estilo, portanto, é o nosso caminho de liberdade na hora que entendemos ele conter o desafio: "Decifra-me ou devoro-te!"

Por isso o estilo tem esse lado dual. Ele precisa ser decantado, isto é, precisa ser aceitado, reconhecido, desenvolvido e ao mesmo tempo digerido e sobre ele devemos ganhar algum controle.

Em tese, acho que entendi. Estilo é a um só tempo prisão e liberdade. No processo de auto(re)conhecimento, a consciência tem papel definidor, pois é ela quem define se viveremos numa eterna prisão ou estaremos a caminho da liberdade.

Na prática, é claro, parece bem mais complicado. Lembro de ter visto, em algum tópico, uns exercícios que você propôs nesse sentido. Se minha memória não falha, acho que foi no tópico da maçã e em outros que não lembro agora.


Kika Salem

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Resposta #14 Online: 11 de Julho de 2008, 18:34:29
Como mencionei antes, achei esses dois posts, em tópicos diferentes.
Às vezes me espanto com minha memória seletiva.
Se eu fotografasse tão bem como faço pesquisa, já me dava por satisfeita. kkkk

Em algum momento, creio, será preciso escolher entre fazer o que é fácil e evoluir.

Para evoluir, a única técnica que conheço é sempre procurar ficar fora da "zona de conforto", isto é, daquilo que já estamos carecas de saber fazer.

Ao longo de muitas e muitas tentativas -e por isso não acredito mais nisso- todas as vezes em que tentei aumentar o nível de dificuldade de um processo de aprendizado coletivo houve reações contrárias do tipo "mas assim ninguém vai querer". Então assisto, atônito, essa coisa maluca de tantos dizerem quererem evoluir mas não quererem pagar o preço psíquico desta evolução.

Porque quando saímos da zona de conforto os resultados são incertos. Muita gente fala que o erro ensina. Não é bem o erro, é a percepção tardia do que seria certo, do que teria dado resultado.

Quando o rafanubi diz que sabia dos problemas da foto, ele de certa maneira está me dizendo que tentou fazer aquilo que não tinha certeza, e agora sabe o que precisa controlar. Isto em um fator absolutamente técnico, mas é um atestado de aprendizado.

No setor de linguagem pessoal, dá-se o mesmo. Podemos passar a vida fazendo fotografias genéricas, equivalentes a outras tantas fotografias. Isso é pecado? Claro que não. Eu acho pouco, pouco desafiante, pouco motivador, mas isso é de cada um.

O que sei é ser necessário sair da comodidade e ir fazer exatamente aquilo que é difícil. Não existe pescaria sem jogar o anzol ou a rede.
http://www.mundofotografico.com.br/forum/index.php?topic=18774.0
Este foi retomado dia desses, então foi fácil lembrar.

Pedro;

O que posso dizer a respeito é que você não cria uma personalidade fotográfica. A palavra criar é errada, em minha opinião, porque ela implica em uma espécie de planejamento e artificialidade, e ao meu ver a personalidade fotográfica é uma mistura de 1) reconhecimento de si mesmo; 2) reforço dos elementos positivos desse reconhecimento; 3) ampliação gradativa dos elementos.

Há muitos e muitos tópicos passados, durante minha primeira estação de frqüência deste fórum, em um tópico falei sobre o método que julgava bom para dar partida nisso.

Pegar todas as fotos suas de que gosta mais e juntá-las, separando-as por tipo.

Depois escrever em um papel o que nelas é "seu", o que se repete nelas, que tipo de abordagem está sempre presente.

Com isso nós percebemos qual a nossa maneira de olhar.

De posse disso, podemos então voltar à produção é empregar conscientemente os elementos antes reconhecidos. Aí eles não farão mais parte de um fundo incosciente mas terão sido elevados à consciência, à esfera da decisão consciente, e quando empregá-los você poderá julgar sobre seu emprego. Este é o segundo passo. Fazendo isso você ganha fluência de si mesmo.

Depois, já acostumado consigo, já capaz de reconhecer-se na produção, pode ser que ela esteja parca, pouco variada, limitada. Aí será a hora de expandi-la, mas mantendo o fulcro no que em você é verdadeiro. Aí você poderá: 1) incorporar idéias de outros foógrafos, mas traduzidas à sua maneira de ser; 2) realizar projetos e ensaios nos quais se imponha formas diferentes de fazer, e verificar como sua personalidade pega essas formas diferentes e as adapta ao seu modo. Esta é a fase de crescimento do vocabulário.

Mas nunca se faz isso "inventado do nada" um estilo. O seu estilo é você, somente que não é um você inconsciente de si. Como dizia o Hegel, o ser consciente deixa de ser "em si" e passa a ser "para si".

É isso.

Pegue cinquenta fotos suas que gosta mais, separe por gêmero e escreva sobre elas, descreva como se as explicasse a alguém, não uma de cada vez, mas os grupos parecidos.

Você deve prestar atenção, entre as fotos que gosta, como usou a luz, como usou as sombras, lembrar-se, no que for possível, da circunstância da foto, como abordou as pessoas, como elas reagiram, como você se sentiu abordando, lembrar se teve pressa ou calma, se gostava das pessoas ou era indiferente, se sentia pena delas e as via como exemplos de mazelas ou como pessoas curiosas, e cada sentimento desses deve ser reconhecido na fogografia.

Você vai achar engraçado, mas eu lembro bastante da ocasião de quase todas as boas fotos que acho ter feito. Lembro até dos meus gestos e pensamento.

Isso é o que acho maravilhoso na fotografia. Ela é um caminho de autoconhecimento. Você não adquire um estilo próprio sem reconhecer-se, sem autoconhecer-se.

Ivan
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Este último eu lembrei porque a história da borboleta do Pedro é impagável. kkkk Aliás, o que será que aconteceu com Pedro?

Deve ter outros, mas eu só acompanhei e tive acesso a esses, até onde a memória alcançou, ao menos.

Li, no primeiro post, que você já coordenou uma sala de fotografia autoral no Fotografia Brasil. Por que ela acabou?
« Última modificação: 11 de Julho de 2008, 18:35:53 por Kika Salem »