Autor Tópico: Ensaios sobre fotografia vão do familiar ao experimental  (Lida 2480 vezes)

Kika Salem

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Online: 05 de Julho de 2008, 11:32:20
Mais uma notícia sobre fotografia.

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Ensaios sobre fotografia vão do familiar ao experimental


"Hyères', fotografia de Henri Cartier-Bresson feita em 1932 e
que é tema de ensaio do crítico de arte Alberto Tassinari em livro

BORIS KOSSOY
ESPECIAL PARA A FOLHA

Em "8 X Fotografia", especialistas em diferentes áreas analisam a fotografia por meio de oito ensaios. A obra, organizada por Lorenzo Mammì e Lilia Moritz Schwarcz, teve sua gênese em seminário realizado em 2004, em que os autores, a partir da escolha pessoal de uma foto, desenvolveram suas argumentações e análises.
Na foto de Henri Cartier-Bresson (no alto desta página), analisada pelo crítico Alberto Tassinari, vemos, numa tomada de cima para baixo, um ciclista próximo a uma escada que se desenvolve em curva formando um movimento que aparenta seguir girando em nossa imaginação. O fotógrafo busca sentido na geometria de um evento corriqueiro no cotidiano da cidade de Hyères, França, em 1932.
Para Cartier-Bresson, "(...) fotografar é ter alinhados a cabeça, os olhos e o coração". É, enfim, perceber o momento decisivo como o desta foto e em inúmeras outras que pontilham na carreira do mestre. O poeta Antonio Cicero, colunista da Folha, detém-se na obra do artista David Hockney.
Este sente na fotografia normal um tédio que não ocorre na sua proposição de colagem de fotos articuladas sobre o assunto, isto é, segundo vários pontos de vista; uma construção que acredita aproximar-se mais da vida real. A imagem "Pearblossom Hwy.,11-18 de Abril, 1986", a preferida de Cicero, é considerada por Hockney como a "culminação de seus experimentos fotográficos".
O ensaio do crítico de arte Rodrigo Naves analisa a foto de André Kertész que registra um homem lendo em meio a respiradouros na cobertura de um edifício, num dia ensolarado de longas sombras em Nova York, em 1943 (veja foto acima).

Registro familiar
O jornalista Eugênio Bucci parte de uma foto de família tomada por um de seus irmãos, em 1979, que registra seu pai, seus irmãos e ele mesmo pescando nas proximidades do rio Pardo. Bucci contesta a passagem do tempo na sua concepção de fluxo contínuo e discorda que a apreciação das fotos do passado implica numa viagem no tempo. Estabelece uma "temporalidade do álbum de família" como "algo que não passa como passa o ponteiro do relógio", como "aquele instante que não se foi".
Marcelo Coelho, colunista da Folha, escreve sobre Walker Evans, famoso por sua obra documentária junto do programa governamental de registro do cenário rural americano durante a Depressão dos anos 30.
O fotógrafo se viu motivado pela região com seus anúncios de serviços e produtos diante de casas comerciais, postos de gasolina e caminhos. Coelho se identifica com a obra de Evans pelo mesmo interesse nas fotos dos cartazes de rua, como a escolhida, "Cartaz de Frutas", feita na Carolina do Sul, em 1936.
Sylvia Caiuby Novaes, livre-docente da USP, analisa duas fotografias de sua autoria que retratam mulheres bororo durante um rito funeral em 1985. Propõe o exercício do "ver" e o do "compreender" enquanto fases distintas do processo de recepção. Avançaremos pouco sem o conhecimento especializado da etnografia e da própria experiência do pesquisador.
Além da decifração dos ritos, a antropóloga se interessa na possibilidade de nos emocionarmos "com aquilo que não conhecemos, porque reconhecemos ali algumas emoções que para nós se expressam da mesma forma", como a própria dor diante da morte.

Salgado
José de Souza Martins, professor titular da USP, tem como tema uma fotografia de Sebastião Salgado que registra a invasão de uma propriedade rural no Paraná, em 1996, por manifestantes do MST.
Martins chama a atenção para o posicionamento do fotógrafo, do lado de dentro da propriedade. "(...) O testemunhado ato da invasão já encontra o fotógrafo lá dentro: ele invadira primeiro para poder construir a fotografia que imaginara...". Para o sociólogo, o "momento decisivo é fingido, (...) o ato político sucumbe ao ato fotográfico e o protagonista da foto acaba sendo o próprio fotógrafo".
Coube a Cristiano Mascaro, fotógrafo e arquiteto, o último ensaio, dedicado a Robert Frank, autor de "The Americans", registro contundente sobre a sociedade norte-americana de meados dos anos 50, composto de imagens tomadas em grande parte do país. O ensaio é ilustrado com a foto "Torrinha", de 1999, do próprio Mascaro, em função da não-concordância de Frank na reprodução de suas fotos.

BORIS KOSSOY é professor da Escola de Comunicações e Artes da USP e autor de "Fotografia & História" (Ateliê)

8 X FOTOGRAFIA
Organização: Lorenzo Mammi e Lilia Moritz Schwarcz
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 41 (192 págs.)
Avaliação: bom

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Fonte: FSP - Ilustrada - 05/07/08

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Bom final de semana para todos!


Chello

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Resposta #1 Online: 05 de Julho de 2008, 21:30:15
Srta kika!

Mais uma vez, nos brinda com um interessante material.
Lendo esse texto, recordei de um grande amigo que uma vez me disse que o ato de fotografar precisa ser totalmente desprovido da famosa "necessidade da foto perfeita", pois dessa maneira é que conseguimos transportar para a foto todas as palavras, emoções e percepções daquele momento.

Obrigado!

Um ótimo final de semana à vc moça!

Chello
Fotojornalista
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Instagram: @chellofotografo


RFP

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Resposta #2 Online: 05 de Julho de 2008, 22:36:41
Vi esse livro hoje na livraria. A crítica que a Simonetta Persichetti fez para o Estadão não foi tão positiva. Disse que dos 8 ensaios que compõem a publicação, só 3 se salvam:

http://www.estado.com.br/editorias/2008/06/22/cad-1.93.2.20080622.22.1.xml

Agora, ter 3 bons ensiaos já é lucro, tendo em vista a extrema escassez de livros teóricos sobre fotografia.
« Última modificação: 05 de Julho de 2008, 22:38:23 por RFP »


Kika Salem

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Resposta #3 Online: 06 de Julho de 2008, 00:23:34
É sempre bom confrontar opiniões diferentes. Obrigada Rodrigo por me apresentar esse outro ponto de vista.

A resenha do Kossoy é mais descritiva e a da Simonetta mais crítica. Ela segue um padrão bastante usual de concretizar uma crítica: começa ressaltando a importância da empreitada, da iniciativa, mas, nas linhas seguintes, reduz o resultado a quase pó, não sem as devidas justificativas, que convence em alguns pontos, em outros nem tanto. Boris Kossoy, por outro lado, não faz uma análise dos artigos, apenas apresenta-os.
Ambos são especialistas em fotografia, mas eu só li os trabalhos do primeiro ("A fotografia enquanto documento histórico", "Fotografia & História" e alguns artigos).

O fato dos editores colocarem as imagens analisadas no início do livro e os artigos citarem imagens que não estão ali reproduzidas é um problema editorial grave. O que espanta porque a Cia. das Letras, via de regra, é bem cuidadosa com as edições.

Vejo como um fator positivo a análise da fotografia realizada por pessoas de diferentes áreas, agora, de fato, o mínimo conhecimento do campo, dos principais fotógrafos/obras, da história da fotografia é sempre bem-vindo. O problema parece que está no fato do livro ser resultado de um seminário e todos os livros que já li - e nos últimos tempos, devido as mudanças na avaliação dos pesquisadores/professores universitários isso tornou-se uma prática corriqueira - apresentam claramente altos e baixos e, muitas vezes, nenhum um elo de ligação entre si e, pior, força o leitor a comprar oito artigos, quando ele só tem vontade, só se interessa, por ler um, por exemplo. Livros organizados sempre existiram, mas antes eles eram pensados como um projeto editorial, agora eles são quase que exclusivamente resultados de todos os seminários, eventos, congressos etc. que são realizados.

O fato de ser uma linguagem acadêmica, que ela critica por ser um problema para os leitores, é justificável considerando a natureza do livro, um evento acadêmico sobre fotografia que aconteceu em 2004. Agora fiquei curiosa para o que ela chama de "pedante". Procuro ponderar isso porque, no meio jornalístico, todo trabalho acadêmico é "pedante", por outro lado, no meio acadêmico, todo trabalho jornalístico é "superficial". Hoje vejo uma preocupação maior dos pesquisadores em geral e uma cobrança não só das editoras como também dos examinadores do trabalho, no sentido de tentar oferecer uma linguagem mais acessível aos leitores, sem o excesso de informação, de teoria, um texto mais fluente, mais agradável de ler. Mas se isso não é fácil para aqueles educados para isso, imagine para aqueles que até pouco tempo tinha a idéia de quanto maior o trabalho melhor e quanto mais ininteligível o trabalho, mais "erudito", mais "intelectual" (mil aspas aqui) era o seu autor. Isso existe ainda hoje, só que felizmente é mais diluído.

Pra mim, a assertiva abaixo demonstra mais um ranço, uma visão simplista, do que uma crítica fundamentada.
"Isso se dá muitas vezes porque se acredita que um historiador ou crítico de arte é conhecedor o suficiente de representações de linguagem não verbal para discorrer sobre a representação fotográfica".

As próximas linhas são mais interessantes porque acentua diferenças entre a fotografia e pintura, ainda que se aproximem, que estabeleçam diálogos:
"Um equívoco bastante comum. A fotografia está mais para a narrativa literária do que para a representação pictórica. A professora de história de arte moderna e contemporânea Rosalind Krauss, já deixou isso muito bem explicado em seu livro O Fotográfico (Editora Gustavo Gili, 237 págs., 1990). A fotografia pertence a um campo cultural diferente da pintura (embora muitas vezes dialogue com ela e sem dúvida lhe é muita próxima) e, portanto, as perspectivas de percepção são diferentes por parte dos espectadores."
Agora fiquei com uma dúvida: a pintura é vista como sendo do campo da "narrativa literária" e não da "representação pictórica"?

Ao apresentar as idéias centrais do livro citado acima, ela diz: "Rosalind Krauss parte do princípio que não é exato partir das noções de estética e estilo de história da arte para falar sobre fotografia".
Será que os artigos fazem isso? Desconsideram a fotografia como um campo artístico específico e subordinam a fotografia a uma ramificação da pintura, por exemplo.
Esse debate é ponto pacífico, o da fotografia como um campo dotado de especificidades próprias, ainda que dialogue com a história da arte, ou não?

A grande questão colocada pela Simonetta parece ser, ao meu ver, aquela velha história:  a de pensar a fotografia não como objeto de análise com linguagem própria, mas como ilustração, dependente de um discurso externo, emprestado de outra área, para se realizar.

Enfim, a resenha da Simonetta alcançou seu objetivo, mais do que a do Kossoy, pois aumentou minha vontade de ler não só esse livro, mas também e sobretudo o da Rosalind Krauss. Obrigada Rodrigo.

Bom final de semana pra você também Chello, embora acho que o casal nem conseguindo dormir direito está, com a Isabelli acordando diversas vezes durante a noite. Força camarada...

Boa noite pra todos!
« Última modificação: 06 de Julho de 2008, 00:29:51 por Kika Salem »


RFP

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Resposta #4 Online: 07 de Julho de 2008, 08:29:49
Também quero ler o da Rosalind Krauss, dei uma folheada no fim de semana e pareceu interessante, com uma tipo de abordagem no nível do Ato Fotográfico do Dubois.

Em relação às críticas, não tem jeito, temos que ler o livro e formar nossa própria opinião.