Autor Tópico: "Quero ter o direito de sentir saudade"  (Lida 1300 vezes)

Kika Salem

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Online: 25 de Janeiro de 2009, 18:15:16
Quem sabe sabe...

Postei aqui, no final do ano passado, uma matéria fresquinha - "Ave Leica!", do Cristiano Mascaro - que saiu num caderno especial da Folha de S. Paulo sobre Henri Cartier-Bresson, mas na ocasião não houve nenhum comentário. Talvez porque eu tenha postado todas matérias do caderno especial num único tópico ou por outro motivo qualquer: http://www.mundofotografico.com.br/forum/index.php?topic=25693.20

Noutros espaços, a repercussão foi bem maior, além de bastante calorosa, contou, inclusive, com respostas irônicas e bem humoradas do próprio Cristiano Mascaro.
http://tramafotografica.wordpress.com/2008/12/23/ave-leica/
http://forum.brfoto.com.br/index.php?showtopic=45874

Hoje uma nova matéria no jornal trouxe de volta o trabalho de Cristiano Mascaro que, além de mostrar suas fotos da Av. Paulista realizadas no último dia 19 de janeiro, pela primeira vez com uma câmera digital para surpresa dos seus críticos, comentou a repercussão do artigo passado. Como disse ele, não é crime sentir saudade ou algo assim.



Paulista, avenida por Cristiano Mascaro

Usando uma câmera digital, fotógrafo clica a via que melhor simboliza São Paulo, que está fazendo 455 anos


Fotos Cristiano Mascaro - 19.jan.09


TUCA VIEIRA
REPÓRTER FOTOGRÁFICO

Quem se dispusesse a percorrer o centro de São Paulo nos anos 1980 correria o risco de encontrar uma solitária figura de barba cheia, tripé nos ombros, mochila nas costas, olhando as sombras alongadas da primeira hora da manhã.
Em cima do tripé provavelmente estaria uma câmera sueca da marca Hasselblad parecida com a que foi à Lua. E dentro da mochila encontraríamos rolos de película fotossensível, dessas que passam por banhos de bórax e sulfito de sódio.
Cristiano Mascaro se lembra de quando "saía de casa antes do amanhecer, com os faróis do carro ainda ligados", como se tivesse um encontro marcado com a luz no centro de São Paulo. São dessa época algumas das mais importantes imagens da fotografia brasileira.
Quem se dispusesse a percorrer a Avenida Paulista, na tarde da última segunda-feira, encontraria essa mesma figura com a barba já branca, o mesmo tripé nos ombros e a mochila que deixava marcas de suor na camisa.
Mascaro aceitou o convite da Folha para fotografar a Paulista, asfaltada há cem anos: "Nunca vi comemorar asfaltamento de rua, mas tudo bem". É seu primeiro ensaio fotográfico com câmera digital.
Do centro velho para a Paulista, muita coisa mudou. Em cima do tripé, "um trambolho de 22 botõezinhos e 21,5 megapixels"; dentro da mochila, um "estojo de maquiagem" onde guarda os cartões de memória.



Mascaro foi motivo de polêmica depois que publicou um artigo no Mais!(de 21/12) em homenagem a Cartier-Bresson, em que lamentava o desuso das técnicas tradicionais.
O artigo circulou pela internet, e Mascaro foi chamado de mestre por uns e antiquado por outros. "Eu só quis fazer uma homenagem a uma época da fotografia que não pode ser apagada. Quero ter o direito de sentir saudade."
Entre curiosidade e ceticismo, Mascaro vai se entregando à novidade mais por necessidade do que por paixão. "É como tirar um pé de uma canoa para colocar noutra", define.



A fotografia é sobretudo uma aventura humana: "A fotografia te levava a conhecer as pessoas. O trabalho de campo passou a ser trabalho de gabinete. Tenho saudades de bater na porta do laboratório. Como vou fazer agora sem tomar café com a Rosangela, que revelou meus filmes por 20 anos?".
Mudam os tempos, muda a cidade, mas o olhar do fotógrafo permanece. Mascaro veio "tratar" as imagens (como se diz a respeito da pós-produção digital) e não havia nada para ser tratado. Suas fotos digitais, como numa prancha de contatos, precisam de ajustes mínimos de contraste e só.
Aos 64 anos, ele se renova: "Instalei um Photoshop CS4 e comprei um livro passo-a-passo, agora ninguém me segura!". Parece surgir um novo fotógrafo, 30 anos à nossa frente.

Fonte: FSP - Caderno Mais - 25/01/2009
« Última modificação: 25 de Janeiro de 2009, 18:26:34 por Kika Salem »


Thiago Sigrist

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Resposta #1 Online: 25 de Janeiro de 2009, 20:46:36
Legal demais a matéria, Kika!

Quando vi o 'Ave Leica!', supus um forte grau de saudosismo mesmo, então não li aquele texto com olhares técnicos, que foi o que muita gente fez em outros fóruns e aí surgiu uma certa polêmica.

O mais engraçado é que, no final das contas, ele pega a digital e faz bonito!

Parabéns a ele!

Abraços!

 -- thiago
Thiago Massariolli Sigrist
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Eduikeda

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Resposta #2 Online: 26 de Janeiro de 2009, 17:01:53
Só mesmo alguém como ele pra usar seu olhar diferenciado pra tirar grandes fotos despretensiosas da av. Paulista.
Parabéns a ele!
Edu Ikeda

Nicão D 80

visite minhas fotos e comente:
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Arnaldo Tomazetti

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Resposta #3 Online: 26 de Janeiro de 2009, 17:25:59
Quem sabe fazer, vai lá e faz.


Francisco

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Resposta #4 Online: 27 de Janeiro de 2009, 16:16:06
A máquina é o que menos importa no fim das contas. Depois de anos de técnica, de amadurecimento do olhar, de apropriação de um estilo, deve surgir uma sensação de liberdade. Liberdade porque caras como o Mascaro não precisam de uma macro, uma tilt-and-shift, uma 24mm f/1.4L para fazer algo que encha os olhos.

Guardadas as devidas proporções, hoje eu me sinto muito mais à vontade com uma compacta semi-automática do que há uns anos atrás. Com o conhecimento técnico adquirido, procuro "burlar" os automatismos para chegar onde quero. Fica essa sensação de que, com o tempo, o equipamento passa a importar menos. Não digo que seja desprezível, mas se antes eu me recusava a fotografar com uma compacta Sony W "podada" de recursos manuais, hoje até consigo me divertir com uma.

É muito legal quando notamos essa evolução. Talvez o próprio Mascaro tenha percebido que a tecnologia não é nada de outro mundo para quem já sabia fotografar com filme. O fim do texto, terminando com a frase: "Parece surgir um novo fotógrafo, 30 anos à nossa frente" resume a minha idéia.
« Última modificação: 27 de Janeiro de 2009, 16:17:39 por Francisco »
Francisco Amorim
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Kika Salem

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Resposta #5 Online: 27 de Janeiro de 2009, 18:37:32
Pra mim Francisco, esse texto tem três frases de impacto: a do título, a que você citou e o mundo de relações que está sintetizado na frase abaixo e que parece se esvair:
"Como vou fazer agora sem tomar café com a Rosangela, que revelou meus filmes por 20 anos?"

Lembra-me as primeiras estrofes do poema "Meus oito anos":
"Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!"

Tem algo de um saudosismo inocente que toda gente tem, mas que visto nos outros soa antiquado, retrógrado, passadista. Não eu não sei bem qual o problema de se fotografar com a câmera que mais lhe agrada (seja ela moderna ou antiga, nova ou velha), no que exatamente isso incomoda os outros.
« Última modificação: 27 de Janeiro de 2009, 20:54:17 por Kika Salem »


Anderson Fonseca

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Resposta #6 Online: 27 de Janeiro de 2009, 20:16:18
muito bom... :worship:

bem mais coerente...até que gostei do primeiro texto dele, oque gerou a tal polêmica, mas acho que alguém da grandeza dele podia ter escrito coisa melhor antes, sem ter dado espaço para a guerrinha filme x digital.