Autor Tópico: [ARTIGO] A tecnologia mais nova é sempre melhor?  (Lida 5570 vezes)

RFP

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Online: 14 de Março de 2009, 17:17:00
Recebi do Fernando Aznar a indicação de um artigo interessante da revista americana Rolling Stone, intitulado "The Death of High Fidelity" (A morte da alta fidelidade), de autoria de Robert Levine. O artigo fala sobre como os novos formatos de música, como o MP3, contém menos informações e menos qualidade do que um CD, que por sua vez também tem diferenças em relação ao som do vinil, que não sofre da compressão dos arquivos no sistema digital. Um trecho  do artigo fala sobre a gravação dos MP3:

"Para criar um MP3, o computador lê a música do CD e a comprime em um arquivo menor excluindo a informação musical que tende a ser menos notada pelo ouvido humano. Grande parte da informação deixada de fora está nos extremos altos e baixos, fazendo com que alguns MP3 pareçam desafinados. Cavallo diz que os MP3s não reproduzem bem as reverberações, e a falta de detalhes nos tons altos tornam o som quebradiço. Sem os baixos, ele diz, 'você não sente mais o impacto. Ele diminui o impacto do bumbo e da distorção do auto-falante quando o guitarrista toca uma power chord'."

O artigo comenta ainda que as gravadoras parecem estar numa competição pelo volume máximo, deixando de lado as variações na intensidade das músicas e esquecendo os detalhes. Tudo soa alto e claro e as nuances são perdidas. Isso reflete o hábito dos consumidores, que "nos anos sessenta e setenta prestavam atenção nas músicas", mas agora a música é ouvida enquanto se fazem outras coisas e precisa competir pela atenção do ouvinte.

É irresistível fazer a comparação com a fotografia. No entanto, em vez de estarmos na época do alto e claro, estamos na do nítido e claro. Afinal de contas, há milhares de imagens competindo pela nossa atenção a todo momento, e as mais nítidas e claras são as que vencem. A fotografia digital se adequou muito bem a essa proposta, com o crescimento vertiginoso da resolução das câmeras e lentes cada vez mais afiadas. No entanto, será que, assim como no caso do som, tenhamos perdido a sensibilidade para certas nuances e detalhes que se perderam na transição do filme para o sistema digital?



Podemos encontrar na internet milhões de discussões e artigos comparando a fotografia analógica com a digital. Poucas, no entanto, levam em consideração esse tipo de detalhe ou investigam a questão da mudança na percepção das imagens. A maioria se baseia em critérios objetivos como a resolução. Esse é um aspecto no qual a fotografia digital levar vantagem é uma questão de tempo, se é que já não ocorreu. Mas será que isso dá conta da questão? Existem certos aspectos da qualidade das fotos que não vemos, em geral, bem reproduzidos no sistema digital, como a variação de tonalidades que temos em um filme preto e branco, a saturação forte mas íntegra de um cromo ou mesmo o volume que temos num negativo colorido barato. Ou seja, valorizam-se números, mas a percepção é deixada de lado, quando o prazer que temos em ver uma foto agradável ou uma música bem tocada é o que realmente importa, e não quantos megapixels ou bits por segundo tem um arquivo.

Não quero dizer com isso que o filme seja melhor, até porque acredito que um arquivo digital bem trabalhado pode trazer tranquilamente esses aspectos característicos da fotografia analógica. O que eu quero dizer é que novas tecnologias podem fazer com que percamos a sensibilidade para certos aspectos de qualidade, tais quais os graves perdidos num arquivo MP3. Não é a questão se o MP3 é melhor ou pior, mais ou menos prático, mas sim se a nossa percepção e o nosso julgamento do que é bom esteticamente continua intacto quando novas formas de fazer as coisas surgem. Isso não implica em rejeitar as novas tecnologias, mas ter senso crítico em relação ao novo e, quando possível, adaptá-las de forma que seja possível manter a qualidade com a qual estamos acostumados.

Preciso repetir para que fique claro: esse texto não é sobre filme contra digital, e sim sobre a nossa percepção e a nossa forma de fazer as coisas. Não importa como objetivos são atingidos, desde que se tenha consciência das possibilidades e não se aceite um determinado tipo de linguagem como único padrão de qualidade. Nesse sentido, vale a pena olhar para diversos métodos e seus resultados, não para imitá-los, mas para que se possa ter o máximo de referências de bons aspectos a se perseguir e para que a sua fotografia (ou a sua música) não seja apenas boa, mas tenha uma identidade própria.

Para ilustrar (e talvez provocar), a foto abaixo, de autoria de Phil Hilfiker, é digital, mas contém as qualidades de uma foto noturna de filme. E foi feita com uma "reles" compacta de 3 megapixels da Olympus, a C-3040.



Recomendo a leitura dos ótimos comentários a esse artigo feitos no Câmara Obscura por Guaracy Monteiro, Nelson González Leal e Ivan de Almeida.

Autores das fotos que ilustram o artigo:
John Shappell
Ilias
Mugley
« Última modificação: 18 de Outubro de 2009, 21:12:48 por Paulo Machado »


Xiru

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Resposta #1 Online: 16 de Março de 2009, 15:46:33
Rodrigo, o link pro Camara Obscura está com problema ;)

Arrumado:
http://camaraobscura.fot.br/2009/03/14/a-nova-tecnologia-e-sempre-melhor
Gentileza gera gentileza.

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Xiru

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Resposta #2 Online: 16 de Março de 2009, 16:09:35
Li as respostas no link e continuarei aqui.

Cito parte da resposta do Ivan:
"Interessantemente, as três fotos mostradas por você no artigo são frias, embora não atendam ao tipo de foto mais comum que se vê por aí, são comprometidas com a contemplação em torrente, bastando notar que vê-las assim pequenas já foi suficiente para conhecê-las em seu jogo principal. Um bom critério para reconhecer uma foto envolvente é ela não prestar quando exibida em tamanhos diminutos. Geralmente as fotos que em tamanho diminuto “funcionam” são mais adequadas à comunicação por torrente."

Acho que elas funcionam tão pequenas por serem fotos "unárias", que apresentam apenas um elemento em destaque. Como uma macro. Ou um retrato simples. É como se fossem simplesmente o desenho dum ícone, uma placa de aviso, etc. Realmente 'feitas' para uma assimilação rápida, curta, direta. E parace que é isso que as pessoas querem ver, infelizmente.
Comecei a perceber isto ha alguns anos, acompanhando concursos. Muitas vezes ganham fotos super simples, que encontramos milhares de parecidas numa passada rápida pelo flickr.
O mesmo serve pra fotos apresentadas nos fóruns, nos sites, flicrs da vida, etc. Em geral as mais "simples e bem feitas" recebem enxurradas de elogios, comentários. E muitas belissimas e mais 'sofisticadas' não recebem atenção. (Ainda bem que sempre achei que em geral opinião alheia, em massa, não significa praticamente nada).

E isso tem a ver não só com a nova tecnologia de captura fotográfica, mas tbm (ou mais ainda) com a de visualização das fotos. Um "meio frio", como disse o Ivan.

E isto SEMPRE foi assim. Não é por nada que arte minuciosa e bem executada raramente fica popular. É O Tchan! faz muito mais sucesso (sucesso efêmero) do que Villa-Lobos. Spielberg / Peter Greenaway. E asim por diantes, com raras exceções.

Creio que boa parte disso se deva à popularização da fotografia. E se ela tivesse ocorrido com filme, provavelmente estaríamos numa situação parecida.




Outro ponto:
MP3-- WAV (acho que é esta a extensão, mas não entendo de música)
JPG-- RAW

Obviamente um MP3 perde muita informação em relação à um CD ou vinil. Assim como um JPG e filme. E,também obviamente, as massas não percebem isso. Ou percebem mas não se importam (assim como muita gente não se importa de sua opinião não valer nada). O efêmero é a regra. E pra fugir da regra, precisa 'se apresentar' de uma maneira também mais "quente", muito além de galerias da web, etc.

Esta é a busca, e não só fotográfica: achar as veredas pra tocar as pessoas. Como?
« Última modificação: 16 de Março de 2009, 16:31:16 por Xiru »
Gentileza gera gentileza.

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Pictus

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Resposta #3 Online: 16 de Março de 2009, 19:38:59
Interessante!
Independente dos gostos ou modismos, é só uma questão de tempo para o digital
superar o analógico em todos os aspectos.
Um dos problemas do digital e ser muito perfeito, aí podem aplicar algorítimos para
simular a “imperfeição” do analógico. 

Para áudio existem formatos sem perda(lossless).
http://wiki.hydrogenaudio.org/index.php?title=Lossless_comparison
« Última modificação: 16 de Março de 2009, 20:35:51 por Pictus »


Xiru

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Resposta #4 Online: 17 de Março de 2009, 23:47:53
Um dos problemas do digital e ser muito perfeito, aí podem aplicar algorítimos para
simular a “imperfeição” do analógico.

É o o mesmo que fazemos muitas vezes em fotos: adicionamos uma 'granulação digital', principalmente em PBs. Ou quando fazemos sépia, pra deixar foto digital (que nunca perde cor ou tons por envelhecer) com um 'problema bonito' que aparece em fotos reveladas há muito tempo. A beleza da imperfeição.

E como são bons de ouvir aqueles pequenissimos chiados do vinil!
Gentileza gera gentileza.

Xirú Sander Scherer - Ivoti / RS

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Pictus

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Resposta #5 Online: 18 de Março de 2009, 01:09:33
É um bom exemplo e vc tem a vantagem de poder escolher como e quanto...


Ivan de Almeida

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Resposta #6 Online: 18 de Março de 2009, 10:41:34
Citar
Acho que elas funcionam tão pequenas por serem fotos "unárias", que apresentam apenas um elemento em destaque. Como uma macro. Ou um retrato simples. É como se fossem simplesmente o desenho dum ícone, uma placa de aviso, etc. Realmente 'feitas' para uma assimilação rápida, curta, direta.

Perfeito. É isso mesmo. É exatamente isso a foto unária falada pelo Barthes. "Como o desenho de um ícone". isto é, quase uma palavra-visual.

Podemos, indo além, distinguir entre um texto em prosa direta e um texto poético. No texto poético não dá para separar o significado de cada palavra.


Edujazz

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Resposta #7 Online: 22 de Março de 2009, 14:02:29
Caro RFP, muito bom o teu artigo, instigante e provocativo. Sendo músico e em constante trabalho de equalização de instrumentos, consigo perceber, com alguma dificuldade, a diferença na qualidade de um mp3. Um sujeito com os ouvidos bem treinados, o que não é o meu caso, percebe de longe. Confesso que comprei uma agulha nova para poder ouvir os lps antigos na "vitrola". Mas a questão é: li alguns artigos de fotógrafos como Igor Amelkovich, por exemplo, que preferem trabalhar com película e depois digitalizar a imagem com um bom scanner. O que você acha disso? O scanner é capaz de captar as tais nuances características do filme?
Abraço do Edu.


Edujazz

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Resposta #8 Online: 22 de Março de 2009, 14:07:45
por que quando clico em qualquer link aqui sugerido caio em http://pt.wikipedia.org/wiki/HTTP  ?


Leo Terra

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Resposta #9 Online: 22 de Março de 2009, 15:57:18
Edu deve ser algum problema em sua máquina, aqui está tudo normal com IE8, Chrome e FF.
Leo Terra

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RFP

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Resposta #10 Online: 22 de Março de 2009, 19:27:35
O artigo está com problema nos links, realmente: o http está repetido. Agradeço se alguém da moderação puder consertar.


RFP

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Resposta #11 Online: 22 de Março de 2009, 19:32:59
Caro RFP, muito bom o teu artigo, instigante e provocativo. Sendo músico e em constante trabalho de equalização de instrumentos, consigo perceber, com alguma dificuldade, a diferença na qualidade de um mp3. Um sujeito com os ouvidos bem treinados, o que não é o meu caso, percebe de longe. Confesso que comprei uma agulha nova para poder ouvir os lps antigos na "vitrola". Mas a questão é: li alguns artigos de fotógrafos como Igor Amelkovich, por exemplo, que preferem trabalhar com película e depois digitalizar a imagem com um bom scanner. O que você acha disso? O scanner é capaz de captar as tais nuances características do filme?
Abraço do Edu.

Edu,

Acho que sim. Um bom scanner, bem operado (pois há laboratórios com ótimas máquinas mas com resultados ruins) gera arquivos de alta resolução com fidelidade de cores. E aí é o melhor de dois mundos, pois você tem essas características do filme, mas pode trabalhar no arquivo digital da forma como preferir.


Paulo Machado

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Resposta #12 Online: 22 de Março de 2009, 19:41:05
Corrigido o link.
When words become unclear, I shall focus with photographs. When images become inadequate, I shall be content with silent.  - Ansel Adams


WALTER-RJ

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Resposta #13 Online: 18 de Outubro de 2009, 18:12:59
alguém indicaria um ótimo scaner para quem tem mais de 1.000 fotos "analógicas" e precisa digitalizar?


MIKERUN

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Resposta #14 Online: 30 de Outubro de 2009, 08:06:26
Sinto saudades da minha analógica..rs