Autor Tópico: EXPERIMENTAL - Clínica de Análise Fotográfica  (Lida 3864 vezes)

Ivan de Almeida

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Online: 08 de Abril de 2009, 09:28:45
Os moderadores se quiserem movam este tópico para o lugar que acharem próprio, eu tive sérias dúvidas sobre qual seria.

Minha proposta implica em voluntariado limitado, isto é: a pessoa se propõe como avaliador episodicamente, não se torna avaliador para sempre, e ao se propor ela avaliará apenas umas tantas fotos e só voltará a fazer isso quando quiser novamente (e se proporá novamente nos termos abaixo ou assemelhados). Talvez esse tipo de coisa pudesse ficar na Gelaria ou no Corredor, não sei.

Este tópico é exemplificativo e também funcional, isto é, pretendo que ele de fato seja uma clínica, não é só para mostrar o modelo não.

Está aberto aos interessados.
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Clínica de Análise Fotográfica


Propósito:

Oferecer aos interessados uma análise balanceada e aprofundada de suas fotografias realizada pelo mesmo analista.

Tenho neste fórum analisado fotografias muitas vezes, e tenho obtido retorno dessas análises serem relativamente profundas.

A Clínica de Análise Fotográficaé uma atividade volitiva e grauita e tem por objetivo oferecer aos interessados análises estruturadas de suas fotos, permitindo um tipo de diálogo e de retorno superior à mera manifestação de gosto e abordando o conjunto técnica-estética-poética.

Como Funcionará:

Trata-se de um experimento, então é algo cujo funcionamento obedecerá a regras experimentais, que poderão, ao meu exclusivo julgamento, ser adaptadas, mas, grosso modo, será da seguinte forma:

1) Haverá apenas 10 participantes, e esses 10 participantes serão selecionados entre os 15 primeiros que postarem fotos neste tópico dentro das regras abaixo especificadas;

2) Àqueles 5 que ficarem de fora das análises não cabe nenhuma reclamação por isso. As fotos analisadas serão selecionadas por conterem pontos interessantes de análise e por terem algo que permita generalizações úteis a mais pessoas; Pode haver menos de dez participantes selecionados, caso não haja essa quantidade de fotos com interesse.

3) Cada pessoa deve postar até três fotos com 600 pixels na maior dimensão, sem moldura. O analista (eu) selecionará entre essas três fotos aquelas que serão analisadas, podendo ser uma duas ou três, ao meu exclusivo critério;

4) As três fotos deverão ser postadas juntas no mesmo post;

5) Mais de três fotos implica na não participação da pessoa;

6) Acima do 15 participante, as postagens serão ignoradas.

7) Cada foto deve vir acompanhada de um título e de uma explicação sobre o fato daquela foto ter sido escolhida para essa clínica. Repito: não é para dizer porque fez a foto e sim dizer porque a escolheu para a clínica. Não deve haver dados técnicos na fotografia nem menção de lente nem cãmera, desejavalmente deve ser apagado o exif, a fotografia deve falar por si mesma;

8) Fotografias que tenham características de série podem sofrer análise conjunta;

9) O analista responderá apenas uma vez a esclarecimentos após análise solicitados por cada participante;

10) Antes de postar pense se suas fotos precisam deste tipo de análise ou ainda contém outro tipo de problema mais relacionado ao domínio da câmera. O objetivo desta clínica não é ensinar técnica e quando ela for mencionada não será acompanhada de "como fazer".

Postagens até domingo. Eu estarei viajando, então só responderei semana que vem. Mas domingo considero encerradas as inscrições, ou quando completarem 15 inscritos, alternativamente, o que ocorrer primeiro.

Então, vejamos... Vamos supor que 15 pessoas postem três fotos cada uma. Entre essas 15 pessoas escolherei 10 para terem fotos analisadas, ou seja, um conjunto de 30 fotos. Dentro desse conjunto, escolherei uma, duas ou três fotos do participante para analisar, então serão analisadas um número de fotos entre dez e 30 no máximo (provavlemente 10 a 15 fotos, pois a idéia é apenas uma análise por pessoa).

Pode haver, na análise, menção sobre as outras fotos dos participantes, mas não haverá respostas posteriores sobre essas menções. Apenas a foto analisada poderá ser objeto de um esclarecimento adicional.

Esta clínica não gera qualquer obrigação para o analista, nem nada poderá ser dele cobrado. Trata-se de ação voluntária dosada conforme a oportunidade, a disponibilidade de tempo e o interesse. Quem postar fotos saberá que pode não as ter analisadas sem que caiba qualquer reclamação por isso. Em caso extremo de rumo indesejado do tópico pode não haver análise de nenhuma foto, até.

Aí está a proposta.

Quem quiser, pode postar.

Ao postar se está concordando com tudo acima dito.


fabio_yamauti

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Resposta #1 Online: 09 de Abril de 2009, 01:35:52
Sem Título


Sem Título


Sem Título


Escolhi estas fotos pois gostaria de entender o que pode caracterizá-las como bem sucedidas ou mal sucedidas como narrativas e descrição de momentos.
Até que ponto o jogo de mostra/esconde pode prender a atenção ou distrair o espectador? Que sensações são mais eficazes neste tipo de fotografia: estranheza, dúvida, harmonia, contradição, etc.?
Como saber se há informações o suficiente para o que se deseja mostrar sendo que eu, o fotógrafo, não consigo olhar a minha foto com olhos de espectador pois a cena real eu a vi por inteiro e a foto é um "crop" da realidade? O que dá mais "força" nas imagens: expressões, formas, cores, etc.?
O que eu poderia buscar para ser melhor sucedido na intenção de narração das cenas?
Não quero direcionar a análise das fotos mas achei interessante citar alguns pontos de interesse.
Não coloquei títulos nas fotos pois não quero que influenciem na imagem em si.

Abs,
Fabio
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Ivan de Almeida

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Resposta #2 Online: 09 de Abril de 2009, 09:35:59
Isso!

Bacana. Já conhecia algumas dessas imagens, mas isto não tem importância.
Quando eu voltar no domingo (estou arrumando as roupas para ir para a serra daqui a uma hora), começarei as análises.


Blasius

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Resposta #3 Online: 10 de Abril de 2009, 23:15:40
Solidão, por hora...


Arte, segundos antes!


Refrescante


O objetivo de cada foto postada (ou sempre que apertamos o "gatilho") foi o mesmo, alcançar um equilibrio entre beleza da imagem, e a sensação e percepção do momento e sua a consequência. Técnicas completamente diferentes, porém com o mesmo objetivo.

Abraços!
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Ivan de Almeida

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Resposta #4 Online: 13 de Abril de 2009, 07:44:22
Pois bem...

Fiquei bastante surpreso com a exiguidade das postagens, mas ela também responde a certas questões. Tudo é resposta se soubermos ler os fatos.

Como dito na postagem inicial, ontem encerrarou-se o prazo, então somente dois companheiros de fórum postaram suas fotos. Fica encerrada a primeira parte e começamos a segunda, a das analises.

Voltarei aqui em nova postagem, provavelmente hoje ainda de noite, começando as análises das fotos mostradas pelo Blasius e pelo Fábio..

Ivan


Ivan de Almeida

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Resposta #5 Online: 13 de Abril de 2009, 07:46:16
Em tempo:

Blasius; Por favor, gostaria que você complementasse sua postagem dizendo a razão de ter escolhido essas fotos. Você disse porque as fez, mas essa não é a questão importante. O importante para mim é saber a razão de ter escolhido essas fotos para análise.

Grande abraço,
ivan


Blasius

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Resposta #6 Online: 13 de Abril de 2009, 12:01:09
Olá Ivan!

Não sei se era isso...
Certo, a primeira foto, escolhi para analisar se o DOF, foco e a nitidez foram usados corretamente para passar o sentido desejado. À segunda, o uso correto do flash, foi bem usado juntamente com a fotometria correta? E por fim, uma foto (considero das três a mais difícil) complicada para se fazer pela luz dura, contrastes e principalmente por eu estar contra o sol, algo me encomodou bastante nela - apesar de gostar dessa foto - não sei o que foi... Cada uma foi realizada e pensada com o mesmo objetivo, porém de formas completamente diferentes. Caso eu seja mais direto, entrarei em contra-mão com o objetivo da Clínica e a foto não vai falar por si só...

Ok!  :ok:
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Ivan de Almeida

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Resposta #7 Online: 13 de Abril de 2009, 19:46:36
Blasius;

3 fotografias.

Vamos começar pela questão da Clínica não inteiramente cumprida: dizer por que escolheu estas fotos para serem analisadas. Inquirido especialmente sobre isso, o Blasius apontou razões de ordem técnica, as quais são facilmente verificadas pelo próprio fotógrafo, sem precisar de análise externa.

Esta não é uma questão menor, como pode parecer. Porque a resposta a essa questão indica certo grau de autoconhecimento fotográfica. Ao contrário, não indicar com clareza demonstra uma fase ainda tateante na qual o fotógrafo não sabe direito identificar os desafios de cada foto e o quanto eles foram convenientemente abordados. Reforça isso o fato das fotos não possuírem unidade temática, cada qual é uma qual, cada qual tem um objeto diferente, e bem diferente. Apesar disso, como veremos, possuem elementos comuns.

Vejamos  a primeira foto

Diz o autor:
a primeira foto, escolhi para analisar se o DOF, foco e a nitidez foram usados corretamente para passar o sentido desejado.

Ora, de fato a fotografia contém uma escolha quanto ao DOF, uma escolha bastante coerente. A vista se encaminha naturalmente para a flor, em que pese esta estar superexposta e ter perdido detalhes por isso. Mas, ainda assim, “funciona”, e os dois ramos mais nítidos dominam o conjunto, e o conjunto colabora com reforço do movimento ascendente para a esquerda. A dose, ou balanço, de ocupação e de vazio do quadro é especialmente boa, aliás, a melhor parte do quadro.

O autor demonstra satisfação em ter dado uma abordagem técnica à foto, mas ela é mais interessante pela composição, ainda que essa composição seja influenciada pela escolha técnica até certo ponto.


A segunda foto;

“o uso correto do flash, foi bem usado juntamente com a fotometria correta?”

Por que não? São questões que se respondem ao simples olhar da foto. São questões técnicas, assim como as primeiras.

O autor que antes de tudo saber que conseguiu fazer a foto assim ou assado. Os demais fatores, mais importantes, não são considerados, embora estejam na fotografia.

Uma cena doméstica, um garoto com uma expressão interessante e roupas interessantes, coisas que combinadas contam uma história de aconchego familiar. Boa narrativa, nesse aspecto. Uma luz uniforme em demasia, ou seja, o flash foi usado como enchimento em uma medida tão restrita que sequer desigualou as intensidades entre primeiro plano e fundo, motivo pelo que o ambiente ficou sem profundidade (ele existe, está narrado, mas a combinação de foco curto com a ausência de sombras nos dá uma impressão de planura.

Não é uma foto fácil, pois seria preciso antes fazer uma foto sem flash e verificar a profundidade do ambiente, e depois acertar o flash para iluminar a cena principal. Foi privilegiado pelo fotógrafo que o flash fosse tênue, pois observa-se sobre a mesa uma sombra vinda da direita, muito leve mas denotativa da intensidade do flash.

Perguntar sobre a justeza dessas regulagens  nos remete a alternativas e a observações sobre senões da fotografia.

O principal senão é que o DOF sendo curto e o objeto principal –o menino- estando pouco nítido devido ao provável movimento dele e do fotógrafo na baixa velocidade dá a impressão de não haver nitidez em parte alguma. Aliás, parece que a parte mais nítida está ligeiramente à frente, entre as luvas e a gola. Provavelmente uma dose maior de flash associada a uma menor exposição conseguida com mais velocidade e/ou menor abertura (prioridade em aumentar a velocidade), aumentaria o interesse do primeiro plano sobre o fundo, mas esse acerto seria ainda suficientemente pequeno para não produzir uma “fotografia de flash”. Não sei quantas fotos foram feitas na seqüência, mas certamente fazer uma série e experimentar a regulagem do flash parece um bom caminho. O rosto do menino me parece meio ponto menos exposto do que deveria. Provavelmente aumentando-se relativamente o flash em 2/3 de ponto e reduzindo a exposição pelo aumento da velocidade em 2/3 de ponto primeiro plano e fundo ficariam mais interessantes.

A terceira foto:

E por fim, uma foto (considero das três a mais difícil) complicada para se fazer pela luz dura, contrastes e principalmente por eu estar contra o sol, algo me incomodou bastante nela - apesar de gostar dessa foto - não sei o que foi...

O grande problema desta foto é sua composição. A copa do arvoredo coincide exatamente com o rio, nos impede de ver o rio e este, por sua vez, compete com a copa, impedindo que a vejamos destacada. A copa “fura” o teto, e assim percorre tr~es regiões distintas, céu, morro e rio, e impede que cada uma delas seja totalmente visualizada. Além disso a fotografia centralizando o objeto tomou como parte da centralização a sombra no pé da árvore, que sem dúvida é a parte mais incômoda da fotografia. Praticamente metade da foto é preenchida pelo gramado, não tendo este nem a função de fundo neutro, por recortado e com interferências, nem a função de elemento. É uma foto que devolve ao autor a questão: “por que?”. Nem o objeto tem interesse, nem a composição.

Observando as três fotos, vemos que o autor ao fotografar aponta o centro da lente diretamente para o objeto. A flor está no centro, o menino está no centro, a arvorezinha está no centro. Na primeira, os ramos ajudaram criando uma assimetria entre as partes cheias e as vazias, na segunda o ambiente rico disfarça isso, mas se notarmos, a centralização existe. Na terceira, quando o ambiente não ajudou e a dinâmica dos ramos também não, mostra-se claramente as limitações da abordagem, produzindo uma composição incômoda, direta em demasia. O fotógrafo esquece o fundo, concentrando-se no primeiro plano e queda-se hipnotizado por ele, atraído por ele mostrando isso ao centrá-lo.


Kika Salem

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Resposta #8 Online: 13 de Abril de 2009, 20:41:07
É de uma análise assim que todos reclamamos não ter sobre nossas fotos, nesse fórum, noutro fórum, na galeria ou no corredor. Mas, que, no entanto, perdemos a oportunidade de ouvir um parecer fundamentado por algum motivo que eu sei lá porque. Quem sabe na próxima eu tome coragem.

Em todo caso, aproveitei muito dos comentários feitos na foto do Blasius.

P.S.: Posso postar aqui ou atrapalho o desencadeamento das idéias?
« Última modificação: 13 de Abril de 2009, 20:42:11 por Kika Salem »


Formel

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Resposta #9 Online: 13 de Abril de 2009, 21:11:25
Boa pergunta Kika! Também gostaria de saber se posso postar? Sei que o prazo estourou, mas como existem apenas duas postagens vc bem podia aceitar mais postagens enquanto não chegar no limite de dez.

[ ]s

Formel


Ivan de Almeida

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Resposta #10 Online: 13 de Abril de 2009, 21:57:37
Olhem só...

A coisa é dinâmica. Sou, como todo homem, preguiçoso. Imbui-me de vontade e fiz a proposta da clínica esperando analisar umas dez fotos. Vou analisar seis devido ao fato de apenas dois postarem. Ao perceber que eram só seis, ajustei minha preguiça -risos. Agora é tarde, já está ajustada...

Este tópico-clínica eu considero fechado, faltando a análise do Fábio que é bastante interessante porque conheço um pouco do caminho dele.

Mas vou depois postar outra clínica, e aí quem quiser poderá apresentar fotos, dentro do critério "dez primeiros". Tão logo encerre esta, vou abrir outra, com novo prazo de postagem. Porque havendo mais postantes (os tais dez) não preciso analisar as fotos de cada um. É uma quastão de calibrar o esforço pelo montante de fotos.

Abraços a todos,
Ivan


Ivan de Almeida

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Resposta #11 Online: 13 de Abril de 2009, 22:03:36
É de uma análise assim que todos reclamamos não ter sobre nossas fotos, nesse fórum, noutro fórum, na galeria ou no corredor. Mas, que, no entanto, perdemos a oportunidade de ouvir um parecer fundamentado por algum motivo que eu sei lá porque. Quem sabe na próxima eu tome coragem.

Em todo caso, aproveitei muito dos comentários feitos na foto do Blasius.

P.S.: Posso postar aqui ou atrapalho o desencadeamento das idéias?

Pode postar comentários, Kika, não atrapalham.


Ivan de Almeida

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Resposta #12 Online: 13 de Abril de 2009, 22:39:00
Fábio

Acompanho o desenvolvimento do Fábio há algum tempo. As análises, assim, serão diferentes daquelas das fotos do Blasius.

De plano observa-se grande coerência nas fotos, há um denominador comum entre elas, há o mesmo tipo de atenção, a tal ponto elas conterem repetição de esquemas (isto não é negativo).

As indagações do Fábio, igualmente, são maduras. Transcrevo:
Escolhi estas fotos pois gostaria de entender o que pode caracterizá-las como bem sucedidas ou mal sucedidas como narrativas e descrição de momentos.
Até que ponto o jogo de mostra/esconde pode prender a atenção ou distrair o espectador? Que sensações são mais eficazes neste tipo de fotografia: estranheza, dúvida, harmonia, contradição, etc.?
Como saber se há informações o suficiente para o que se deseja mostrar sendo que eu, o fotógrafo, não consigo olhar a minha foto com olhos de espectador pois a cena real eu a vi por inteiro e a foto é um "crop" da realidade? O que dá mais "força" nas imagens: expressões, formas, cores, etc.?
O que eu poderia buscar para ser melhor sucedido na intenção de narração das cenas?

Pois bem, uma das coisas que exclama ao olharmos o conjunto é serem três fotos com dois personagens cada uma. As fotos, cada uma delas contém uma narrativa de uma relação entre duas pessoas presentes na cena. Esse diálogo não é ocasional, ele é produzido pela capacidade do fotógrafo acompanhar a cena em dois níveis, em dividir sua atenção em vários planos. Aqui temos algo diferente da abordagem hipnotizada. Ao mesmo tempo em que o fotógrafo presta a máxima atenção na cena, flagrando momentos como o da terceira fotografia no qual o espectador constrói na observação uma relação entre o padre e a mulher no segundo plano, seja por ele olhar naquela direção, seja por ela olhar para ele aparentemente esperando um chamado, ele mantém sua sobriedade, pois controla-se suficientemente para não submergir em qualquer parte da cena e ser capaz de narrá-la inteira. De fato o padre falava com a mulher? Provavelmente não. Mas a cena construída nos faz crer nisso, pois os olhares e os gestos constroem para o observador a relação. Não importa se na cena real a mulher de fato estava sendo chamada. Nós vemos assim, o fotógrafo fotografou/mentiu/narrou assim, e essa é sua manha. O grande barato da foto é a expressão de êxtase da mulher, é ela que muda o significado da cena toda, que sem isso seria uma fotografia comum de uma celebração religiosa, bem feita mas comum.

Existe composição, existe escolha, mas sobretudo existe a atenção no visor que o fez apertar o botão naquele momento, talvez nem mesmo inteiramente consciente, mas suficientemente consciente para ter apertado. E posteriormente em reconhecer na foto um valor especial.

Vamos à segunda foto. Esta repete o esquema dos dois personagens. Narra um momento de introspecção de ambos. Os dois estão em casa, ambos tranqüilos, cada qual em seus pensamentos que são distintos. Mas, sendo distintos, ambos se dão a esses pensamentos permitidos pelo ambiente familiar. O fotógrafo escolhe o foco, e há nisso muito critério, pois o homem ao fundo tem expressão mais interessante que a jovem em primeiro plano, então a escolha dela focada melhora sua importância na cena, contrabalançando a presença muito forte do segundo plano. A cobertura do sofá com o símbolo do Santos FC é um arremate luxuoso à cena.

A primeira foto, se não me engano, pertenceu à série na qual o Fábio descobriu este modo de fotografar. Havendo duas pessoas (na verdade três) em cena, o primeiro plano é tão anulado que não percebemos a personalidade daquela que pinta o rosto, e ao olharmos nos concentramos completamente no rosto da garota de onde emana uma espécie de expressão entre satisfeita e exultante com sua própria aparência e com o momento.

Todas as três fotografias possuem certa uniformidade de luz. Não é apenas a uniformidade de luz mais ou menos inevitável visto ser a luz da cena, mas uma uniformidade que não é tocada no tratamento posterior. O fotógrafo prefere manter a cena pouco dramatizada em termos de luz, como se isso fizesse parte do seu dogma íntimo. Não tenho certeza quanto a isso ser a melhor opção, penso que algumas das fotos se beneficiariam com tratamentos e conversões mais profundas.

Não vejo jogo de esconde em nenhuma delas, vejo sim uma narrativa muito boa de cenas, capaz de prender o observador durante muito tempo e em várias visitas à foto, visitas nas quais vai lendo os detalhes.

Penso que a fotometria usada é a possível, e é exata nisso, mas penso igualmente que a exploração de contextos com luz mais rica poderia render fotos ainda melhores, não melhores na narrativa, mas num sentido plástico relativo a cor e sombras.

Não penso que você viu a cena por inteiro. A cena por inteiro, como mostrada por você, nunca existiu, e isso não importa. O que há são as cenas narradas, e há um momento em que a pessoa tem de aceitar que está acertando, pois não cabem mais dúvidas. As cenas narradas são criações suas, ainda quando produzidas pelos que estão nas fotos.


fabio_yamauti

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Resposta #13 Online: 14 de Abril de 2009, 00:58:10
Ivan, primeiramente gostaria de parabenizá-lo pela iniciativa e agradecer pela análise de minhas fotografias.
São quase 1h da manhã e preciso acordar cedo mas hoje à noite pretendo escrever sobre a análise.

Abraços,
Fábio
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Resposta #14 Online: 14 de Abril de 2009, 10:57:12
Citação de: Ivan de Almeida
Fábio

Acompanho o desenvolvimento do Fábio há algum tempo. As análises, assim, serão diferentes daquelas das fotos do Blasius.

De plano observa-se grande coerência nas fotos, há um denominador comum entre elas, há o mesmo tipo de atenção, a tal ponto elas conterem repetição de esquemas (isto não é negativo).

Também percebo esta repetição de esquemas. Creio que é devido a quase sempre utilizar as mesmas distâncias focais, profundidade de campo curta e uniformidade da luz. A profundidade de campo resulta das grandes aberturas de diafragma para o melhor aproveitamento da luz escassa.

Citação de: Ivan de Almeida
As indagações do Fábio, igualmente, são maduras. Transcrevo:
Escolhi estas fotos pois gostaria de entender o que pode caracterizá-las como bem sucedidas ou mal sucedidas como narrativas e descrição de momentos.
Até que ponto o jogo de mostra/esconde pode prender a atenção ou distrair o espectador? Que sensações são mais eficazes neste tipo de fotografia: estranheza, dúvida, harmonia, contradição, etc.?
Como saber se há informações o suficiente para o que se deseja mostrar sendo que eu, o fotógrafo, não consigo olhar a minha foto com olhos de espectador pois a cena real eu a vi por inteiro e a foto é um "crop" da realidade? O que dá mais "força" nas imagens: expressões, formas, cores, etc.?
O que eu poderia buscar para ser melhor sucedido na intenção de narração das cenas?

Pois bem, uma das coisas que exclama ao olharmos o conjunto é serem três fotos com dois personagens cada uma. As fotos, cada uma delas contém uma narrativa de uma relação entre duas pessoas presentes na cena. Esse diálogo não é ocasional, ele é produzido pela capacidade do fotógrafo acompanhar a cena em dois níveis, em dividir sua atenção em vários planos. Aqui temos algo diferente da abordagem hipnotizada. Ao mesmo tempo em que o fotógrafo presta a máxima atenção na cena, flagrando momentos como o da terceira fotografia no qual o espectador constrói na observação uma relação entre o padre e a mulher no segundo plano, seja por ele olhar naquela direção, seja por ela olhar para ele aparentemente esperando um chamado, ele mantém sua sobriedade, pois controla-se suficientemente para não submergir em qualquer parte da cena e ser capaz de narrá-la inteira. De fato o padre falava com a mulher? Provavelmente não. Mas a cena construída nos faz crer nisso, pois os olhares e os gestos constroem para o observador a relação. Não importa se na cena real a mulher de fato estava sendo chamada. Nós vemos assim, o fotógrafo fotografou/mentiu/narrou assim, e essa é sua manha. O grande barato da foto é a expressão de êxtase da mulher, é ela que muda o significado da cena toda, que sem isso seria uma fotografia comum de uma celebração religiosa, bem feita mas comum.

Quando comecei a me interessar pela Fotografia, a abordagem hipnotizada era mais frequente. Acho que ficar hipnotizado por algo em particular é comum e normal já que nossa atenção é atraída para o evento ou assunto que julgamos mais interessante. Na minha opinião, não é tarefa fácil evitar ser hipnotizado e começar a ver as cenas de forma mais abrangente. Poderia dizer que fotografar cenas é uma tarefa "fria" no sentido de o fotógrafo não deixar-se submergir em detalhes?
A foto é da encenação de casamento, típica nas Festas Juninas. O padre provavelmente acenava para alguém à esquerda do espectador e fora da fotografia. Ele era um ator muito divertido, diga-se de passagem.
Não sei se transparece na fotografia o aspecto cômico do personagem. 

Citação de: Ivan de Almeida
Existe composição, existe escolha, mas sobretudo existe a atenção no visor que o fez apertar o botão naquele momento, talvez nem mesmo inteiramente consciente, mas suficientemente consciente para ter apertado. E posteriormente em reconhecer na foto um valor especial.

Houve a preocupação consciente em incluir as bandeirinhas e o público. O meu modo de fotografar é mais ou menos assim: enquadrar, compor e ficar observando pelo visor com o dedo no botão disparador. Nunca faço várias fotos em sequencia, esperando que uma delas saia razoavelmente boa. Aguardo um momento que julgo interessante.
Na foto em questão, estava acompanhando o desenrolar da cena e, no exato momento em que o padre abriu os braços decidi que aquele era um momento bacana. A moça ao fundo também foi incluída conscientemente e sua expressão foi registrada por sorte. Um bônus para a fotografia.

Citação de: Ivan de Almeida
Vamos à segunda foto. Esta repete o esquema dos dois personagens. Narra um momento de introspecção de ambos. Os dois estão em casa, ambos tranqüilos, cada qual em seus pensamentos que são distintos. Mas, sendo distintos, ambos se dão a esses pensamentos permitidos pelo ambiente familiar. O fotógrafo escolhe o foco, e há nisso muito critério, pois o homem ao fundo tem expressão mais interessante que a jovem em primeiro plano, então a escolha dela focada melhora sua importância na cena, contrabalançando a presença muito forte do segundo plano. A cobertura do sofá com o símbolo do Santos FC é um arremate luxuoso à cena.

Esta fotografia é interessante pois mostra-me como fotografar é um jogo de construção de "realidades fictícias".
Foi feita durante uma visita do meu tio e minha prima à minha casa. Meu tio ao fundo, prestava atenção ao meu pai, ao lado direito e fora da fotografia. Minha prima estava brincando com o jogo resta um, aquele com bolinhas de gude, que fica em cima da mesa. Por isso está olhando para baixo. Não é frequente ela nos visitar e creio que isso foi um fator que pesou na escolha do foco em seu rosto. Queria registrá-la, deixando um papel secundário ao meu tio. O interessante é que eu poderia ter feito um retrato somente dela mas fotografei os dois e isso criou uma cena.

Citação de: Ivan de Almeida
A primeira foto, se não me engano, pertenceu à série na qual o Fábio descobriu este modo de fotografar. Havendo duas pessoas (na verdade três) em cena, o primeiro plano é tão anulado que não percebemos a personalidade daquela que pinta o rosto, e ao olharmos nos concentramos completamente no rosto da garota de onde emana uma espécie de expressão entre satisfeita e exultante com sua própria aparência e com o momento.

A fotografia foi feita na festa de aniversário do filho da minha prima. Após algumas tentativas frustradas com o flash, desliguei-o e uma nova Fotografia revelou-se aos meus olhos: a fotografia com luz, texturas, profundidade, cores, sombras e contrastes mais naturais.

Citação de: Ivan de Almeida
Todas as três fotografias possuem certa uniformidade de luz. Não é apenas a uniformidade de luz mais ou menos inevitável visto ser a luz da cena, mas uma uniformidade que não é tocada no tratamento posterior. O fotógrafo prefere manter a cena pouco dramatizada em termos de luz, como se isso fizesse parte do seu dogma íntimo. Não tenho certeza quanto a isso ser a melhor opção, penso que algumas das fotos se beneficiariam com tratamentos e conversões mais profundas.

Confesso que não tenho conhecimento o suficiente para tratar as fotos de forma mais profunda. E também não tenho esta "visão" de que tipo de tratamento poderia melhorar as fotos. É algo que preciso aprimorar. O que você sugere seria trabalhar melhor a luz na conversão do RAW?

Citação de: Ivan de Almeida
Não vejo jogo de esconde em nenhuma delas, vejo sim uma narrativa muito boa de cenas, capaz de prender o observador durante muito tempo e em várias visitas à foto, visitas nas quais vai lendo os detalhes.

Talvez eu tenha me equivocado em relação ao jogo de esconde. Pensei haver o jogo pois na foto da festa junina não mostro de fato para quem o padre está olhando e na foto do meu tio / prima não mostro para onde eles estavam olhando. O legal é que agora percebo que estas informações não têm importância e ausência delas é que fazem as fotos serem o que são.

Citação de: Ivan de Almeida
Penso que a fotometria usada é a possível, e é exata nisso, mas penso igualmente que a exploração de contextos com luz mais rica poderia render fotos ainda melhores, não melhores na narrativa, mas num sentido plástico relativo a cor e sombras.

Concordo, Ivan. Infelizmente não é frequente eu presenciar cenas familiares com luz mais dramática pois em casa as lâmpadas são todas fluorescentes e a própria iluminação natural não é lá essas coisas. Fora de casa, ficarei mais atento à exploração da luz.
 
Citação de: Ivan de Almeida
Não penso que você viu a cena por inteiro. A cena por inteiro, como mostrada por você, nunca existiu, e isso não importa. O que há são as cenas narradas, e há um momento em que a pessoa tem de aceitar que está acertando, pois não cabem mais dúvidas. As cenas narradas são criações suas, ainda quando produzidas pelos que estão nas fotos.

Você tem razão, a cena mostrada nunca existiu. São, como disse acima, "realidades fictícias" e não há nada de mal nisso. Na verdade, isso é que é o divertido: ver como a mesma imagem é lida por diversas pessoas, cada uma montando mentalmente a cena como um todo e criando hipóteses. É o que torna as fotos interessantes.

Fiquei muito satisfeito com a análise. Foi a melhor que já recebi. Mais uma vez parabéns pela iniciativa e obrigado. Uma pena não haver mais iniciativas assim nos fóruns.

Abraços,
Fabio
Fotografia Karatê Ecoturismo Geocaching