Autor Tópico: Linguagem X Mistura de técnicas  (Lida 933 vezes)

Marcelo Favero

  • Trade Count: (0)
  • Membro Ativo
  • ***
  • Mensagens: 767
  • Sexo: Masculino
    • Marcelo dos Santos
Online: 22 de Julho de 2009, 09:13:48
Sem formação acadêmica, mas trabalhando há muitos anos com artes visuais, acredito ter desenvolvido minha linguagem pessoal. E as voltas com a montagem de um portifólio que resolvi trabalhar baseado num tema específico, durante a escolha das fotos, sempre me deparo com imagens que talvez não se enquandrem no meu padrão de linguagem, mas das quais gosto muito.

Então fica a pergunta: O quanto é válido ou danoso para um trabalho (ou portifolio) incluir nele material que não pertençam a sua identidade, ao seu "vocabulário visual"? Como pode ser vista, por exemplo, a mistura de técnicas, seja a opção por cor ou p&b ou pós-tratamento?

Abraços
Marcelo dos Santos

Associado Fototech


Kika Salem

  • Trade Count: (2)
  • Membro Ativo
  • ***
  • Mensagens: 1.266
  • Sexo: Feminino
Resposta #1 Online: 22 de Julho de 2009, 21:09:07
Marcelo, como ninguém até agora respondeu, vou dar meu palpite baseado no que eu ouvi o Emídio Luisi dizer sobre os trabalhos de curadoria e organização de exposições e na orientação dele de uma simbólica exposição dos alunos.

Acho que o mais importante é que as imagens dialoguem entre si, independente das técnicas utilizadas. Na medida em que o público vai acompanhando uma exposição ou folheando um livro ou mesmo um portifólio ele tem que, de alguma forma, ir assimilando uma lógica interna, mesmo que essa lógica não seja explícita, acho até legal que ela não seja mesmo explícita pra não ficar monótono também. Lembro por exemplo, de um livro que ele organizou e duas fotos eram de futebol, não lembro bem, mas ele fez um arranjo muito legal de uma foto de um chute contra de um jogador do Palmeiras com outra da bola entrando no gol ou pegando trave. Eu não lembro bem se o jogo de imagens anulava o gol contra ou se fazia a bola pegar na trave. Sendo ele torcedor do Palmeiras, suponho que o gol pegava na trave. hahaha Não lembro se era bem isso, mas o importante é que o diálogo ficou interessante.

Mas também as fotos podem dialogar por técnicas semelhantes, por formas, por estilos, por tratamentos, atmosferas. Fotos diferentes que se aproximam e não fotos semelhantes, ou melhor, a semelhança não é sinônimo de iguais, mas de complementares. Enfim, é uma gama bem grande, talvez por isso se torne uma tarefa complexa. Acho que eu descrevi, num outro tópico antigo, o processo de edição passo-a-passo dessa mini-exposição orientada por ele. Vou ver se acho, embora não seja bem essa sua indagação.

Também penso que se você conseguir intercalar essas fotos que diz gostar com as outras que retratam seu estilo, é capaz que dê até uma vida diferente ao conjunto como um todo, que dê ritmo ao montante geral.

Nesse trabalho que eu acompanhei, achei o mais difícil fazer os trabalhos dialogarem, sobretudo se as fotos são nossas. Acho que com você é diferente, mas muita gente fica meio cega quando tem que selecionar suas próprias fotos, sobretudo se a gente é inexperiente, meu caso. Achei o trabalho de edição bem difícil, mas bem gostoso também.

Enfim, só respondi de palpiteira que sou e pra ver se estimulo algum responder também.
« Última modificação: 22 de Julho de 2009, 21:13:35 por Kika Salem »


Marcelo Favero

  • Trade Count: (0)
  • Membro Ativo
  • ***
  • Mensagens: 767
  • Sexo: Masculino
    • Marcelo dos Santos
Resposta #2 Online: 23 de Julho de 2009, 08:16:41
Kika

Ontem enviei essa indagação a uma amiga e comentei no e-mail: Vou esperar a Kika Salem, o Ivan de Almeida e outros que se envolvem com esse tipo de assunto...

Acho que o que você disse é fundamental, e foi algo que ela citou: "criar um código"! E concordo com você sobre o quanto é difícil a seleção do material. A opinião muda de um dia para o outro. Um dia uma foto tem um enorme significado para você, e no outro percebe que "só" terá significado para você. E em outro ainda percebe que uma foto que seria descartada associada a outra ganha muitos significados... Bem, é um trabalho à parte esse. Obrigado pelo embasado "palpite" (oras...). Era bem o tipo de opinião que eu estava procurando.


Alguém mais??
Marcelo dos Santos

Associado Fototech


wdantas

  • Trade Count: (0)
  • Membro Ativo
  • ***
  • Mensagens: 1.183
  • Sexo: Masculino
    • WDantas Fotogaleria
Resposta #3 Online: 23 de Julho de 2009, 13:46:08
Olá Marcelo,

O post da Kika, quando ela coloca o diálogo entre as fotos de um conjunto. é muito pertinente mesmo.
Certa ocasião mostrei um ensaio meu ao Diógenes Moura (curador da pinacoteca de sp) e ele rapidamente selecionou algumas, excluiu outras e montou uma sequencia me mostrando como dialogar entre as páginas opostas. Ou seja, tem foto que não pode ser mostrada junto com outra porque uma anula a outra.

Cara, desde então estou esperando que pinte por aqui um WS de curadoria pra pegar umas dicas de seleção de fotos. Portanto agora vai o PITACO.

  • Uma coleção pode ter só fotos COR, só PB e misto, desde que não haja uma mistureba. Ex. Vai colecionando em cor e no meio abre um espaço PB, mostra algumas e volta pra COR, mantendo uma linha de pensamento lógico.
  • Numa coleção ou portfólio, as paginas opostas não devem conter fotos de página inteira - cansa a vista
  • Em paginas opostas, se quer dar ênfase a uma foto, coloque ela maior que a outra. Tenha em conta que a vista normalmente pára na página direita. Excessão se a da esquerda for espetacular, e mesmo assim dá um desconforto. Tua vista corre pra direita mas volta pra esquerda
  • Depois de uma sequencia de umas dez páginas, por exemplo, deixa uma em branco do lado esquerdo pra descansar a vista
  • A sequencia das páginas pode ir mudando o clima do tema, contando que não aconteça com as opostas.
  • No fim da sequencia (páginas) pode ir maneirando (talvez com fotos menores que as do clímax) pra não criar a expectativa na última foto de se virar a página e descobrir que acabou a mostra
  • Um portfólio, conforme aprendi com o Scavoni, não deve ter muito mais que 20 fotos e a primeira tem que motivar o espectador a ir adiante
  • Usar pouco foto de página inteira. A moldura formada pelo papel em branco dá elegância, principalmente em PB
  • Nunca usar aquelas decoraçõeszinhas que os programas de fotolivro permitem se o trabalho é sério. No máximo usar uma moldura discreta em algumas fotos (algumas!)
  • Fundo preto, dependendo do tema, pode ficar interessante. Ex. Fiz um com fotos de dança em teatro com fundo preto porque pra mim é pertinente, uma vez que tudo é escuro e só no palco tem luz

Como não tenho nenhum embasamento técnico/estético, é PITACO mesmo, rsrs

Bom, acho que é por aí.

Ia esquecendo, também tenho sérias dificuldades na seleção. Nós (fotográfos) não somos indicados pra selecionar nossas fotos porque existe o sentimento envolvido. O ideal é pedir pra outra pessoa que seja capaz, e aceitar a opinião que pode ser divergente da nossa.

Espero ter ajudado,

Abraço
« Última modificação: 23 de Julho de 2009, 13:50:10 por wdantas »


Kika Salem

  • Trade Count: (2)
  • Membro Ativo
  • ***
  • Mensagens: 1.266
  • Sexo: Feminino
Resposta #4 Online: 23 de Julho de 2009, 20:24:06
Até eu agradeço a contribuição do Wellington que considerou vários detalhes da manufatura de um portifólio.

Kika
E em outro ainda percebe que uma foto que seria descartada associada a outra ganha muitos significados...

A foto em contexto, muitas vezes, tem outro significado mesmo. Mas nem todo mundo considera isso. Às vezes, vejo alguém retirando uma foto de um fotógrafo renomado e criando um tópico para perguntar o que aquela foto tem de especial, já que ele não viu nada ou considerou que qualquer um poderia fazê-la, justamente porque não considerou o contexto nem o conjunto.

Lembro de ter postado aqui uma série de fotos de um fotógrafo que está exposto no Pompidou. Era uma séria toda cheia de significado, com criação de um universo onírico, com metáforas da arquitetura, cinema e litetura e inspiração nas obras de Kafka e Tarkovsky.

Na época, as postagens dividiram-se entre aqueles que elegeram as fotos preferidas e aqueles que não viram nada de extraordinário nas imagens. Nenhuma delas foi além da imagem vista, contextualizando-a ou mesmo tentando entender as intenções do fotógrafo.

Enfim, citei esse exemplo por dois motivos: um para acentuar a importância do contexto, outro para dizer que o público alvo deve ser considerado na manufatura do portifólio. Por exemplo, se você for apresentá-lo para um curador deve ser um tipo de portifólio, agora se for para apresentá-lo a possíveis "clientes" talvez fosse o caso de ser outro. Uma pessoa com pouca intimidade com questões compositivas poderá ter dificuldades de aceitar uma foto fora dos padrões tradicionais, por exemplo.

Enfim, mais um pitaco por aqui. hahaha
« Última modificação: 23 de Julho de 2009, 20:24:36 por Kika Salem »


Marcelo Favero

  • Trade Count: (0)
  • Membro Ativo
  • ***
  • Mensagens: 767
  • Sexo: Masculino
    • Marcelo dos Santos
Resposta #5 Online: 24 de Julho de 2009, 08:32:37
Valeu WDAntas, boas dicas!

Só não entendi essa aqui

  • Numa coleção ou portfólio, as paginas opostas não devem conter fotos de página inteira - cansa a vista


Realmente o diálogo é fundamental. Mas minha maior dúvida ainda é a mistura de técnicas. Vejam, altenrar PB com cor pode até ser possível, uma vez que são claramente linguagens diferentes. Mas tenho tendência a saturar imagens quando tenho luz direta do sol, e a desaturar quando a luz é difusa. Isso produz imagens que não parecem pertecer ao mesmo autor as vezes. É a impressão e o receio que tenho!

Ah, moldurinhas e penduricálios nunca!! eheheh, no máximo um filetezinho bem fino em alguns casos, mesmo assim, não gosto muito.

Kika

Na verdade estou montando dois portifólios, mas os dois são autorais, à parte de meu trabalho comercial. Um é quase uma pauta, sobre a pesca no litoral paulista. E outro que deve ser uma coletãnea de lugares e pessoas que me fazem parar o carro durante viagens. Fotos que não "me" encontraram, nem que busquei encontrar. Mas nos encontramos.

abç[/list]
Marcelo dos Santos

Associado Fototech


PH Camargo

  • Trade Count: (0)
  • Novato(a)
  • Mensagens: 2
  • Sexo: Masculino
  • Imagem: Geraldo de Barros (Fotoforma, 1950)
Resposta #6 Online: 26 de Julho de 2009, 11:46:08
Olá,...
concordo com a Kika, e acho também, que este diálogo entre as imagens se dispõe diretamente à percepção de quem verá as imagens. Partindo de um (somente um) dos conceitos acerca da fotografia, podemos pensar que a imagem fotográfica é um ato comunicacional, ou seja, que quem fotografa quer se expressar, se comunicar e interagir de alguma forma. Por isso, acho muito importante você ser honesto com suas "idéias visuais", mostrar o que você pensa visualmente. É lógico que apoiar-se na técnica é importante para sustentar e aumentar suas possibilidades de manifestação expressiva, porém, acredito também que um catálogo de efeitos técnicos e visuais (pseudo estéticos), já estamos cheios por aí. O que falta ainda bastante, e que sempre gostamos de encotrar quando vemos um trabalho de alguém, é seu "jeito" de olhar e mostrar o que pensa visulamente. Por isso nos encantamos sempre com a poesia de alguns fotógrafos.
É muito comum vermos que quando se tem um perfil de trabalho e de portifólio, todos são muito parecidos.
Se gostarem do seu trabalho, irão querer conhecer outras coisas, e ai se inclui como vc pensa também, com trabalhos técnicos e outros.




Marcelo Favero

  • Trade Count: (0)
  • Membro Ativo
  • ***
  • Mensagens: 767
  • Sexo: Masculino
    • Marcelo dos Santos
Resposta #7 Online: 26 de Julho de 2009, 13:11:30
É lógico que apoiar-se na técnica é importante para sustentar e aumentar suas possibilidades de manifestação expressiva, porém, acredito também que um catálogo de efeitos técnicos e visuais (pseudo estéticos), já estamos cheios por aí.


Não, não Geraldo... A técnica não é base nem o objetivo do que quero comunicar. Mas o meio. E como tal, existe, para mim, variação entre as diferentes formas de "melhor" tornar a ideia e o pensamento fluidos. Somente isso. E a questão é tão somente se a variação dela não pode parecer mais uma indecisão, uma insegurança ou uma inconsistência na forma de comunicar ou no conteúdo.

Abraço
Marcelo dos Santos

Associado Fototech


PH Camargo

  • Trade Count: (0)
  • Novato(a)
  • Mensagens: 2
  • Sexo: Masculino
  • Imagem: Geraldo de Barros (Fotoforma, 1950)
Resposta #8 Online: 26 de Julho de 2009, 13:46:44
Então Marcelo,
eu particularmente, sinto muito mais clareza e decisão quando vejo um trabalho que demonstra força subjetiva e que não deixa de estar ligada a linguagem fotográfica. Tentei dizer que há um padrão estético, técnico, etc., que predomina e que é difícil de não sermos engolidos por ele, principalmente no mercado de trabalho, e que muitas vezes (maioria das vezes) acabamos por nos aproximar deste padrão (mesmo que sem querer) para de alguma forma, sermos mais aceitos e reconhecidos.
Bacana sua dúvida! Sempre que temos esse tipo de questões, temos também a chance de respondê-las, e isso provoca resultados!
Boa sorte para vc e para todos nós que temos muitas dúvidas!



Ps: Geraldo é o crédito da imagem que estou usando (Geraldo de Barros)


Marcelo Favero

  • Trade Count: (0)
  • Membro Ativo
  • ***
  • Mensagens: 767
  • Sexo: Masculino
    • Marcelo dos Santos
Resposta #9 Online: 26 de Julho de 2009, 17:14:05
Valeu, PH Camargo! É bem isso, onde está o "eixo"!

Ps: Geraldo é o crédito da imagem que estou usando (Geraldo de Barros)
Putz, que mancada a minha  :ok:!
Marcelo dos Santos

Associado Fototech