Autor Tópico: [ARTIGO] E essa tal de técnica?  (Lida 8184 vezes)

RFP

  • Colunista
  • Trade Count: (2)
  • Membro Ativo
  • *****
  • Mensagens: 626
  • Sexo: Masculino
Online: 27 de Dezembro de 2009, 11:27:44
A técnica é provavelmente um dos assuntos mais discutidos entre fotógrafos, especialmente os amadores. No entanto, esse termo engloba muito mais do que os ajustes da câmera, alcançando um status quase mítico entre aqueles que se debruçam sobre a fotografia. Mas o que é, afinal, a técnica? E como ela se relaciona com outros aspectos da produção de imagens?

A técnica é o input, ou seja, o conjunto de instruções que damos ao equipamento, a forma de operar a máquina. Essa máquina pode ser a câmera fotográfica, um equipamento de iluminação ou um computador realizando o pós-processamento. Geralmente, quando se fala de técnica fotográfica, o assunto é a manipulação da câmera, notadamente ajustes de abertura, velocidade, ISO, distância focal, entre outros.

O que eu percebo é que a técnica é vista de forma distorcida, de diversas formas. Uma delas é a sobrevalorização. Acredita-se que saber fotografar é igual a dominar o input, ou seja, a apertar os botões.  Confunde-se o domínio da operação do equipamento com o domínio da fotografia como um todo, e frequentemente o fotógrafo amador se frustra ao conhecer todos os aspectos técnicos mas ainda assim não conseguir produzir fotografias de qualidade. Geralmente os cursos, sites e fóruns de fotografia destacam muito o desenvolvimento da operação do equipamento, deixando de lado outros aspectos do fazer fotográfico que são tão ou mais importantes do que a técnica.


Akshay Mahajan

Outro aspecto no qual ocorre distorção é a dicotomia entre técnica e criatividade. Acredita-se que existe uma técnica correta, única, e portanto limitadora de um fazer mais criativo. Algumas pessoas valorizam a não-técnica como uma expressão mais livre. No entanto, se há fotografia, é porque houve input. Se há input, há técnica. Mesmo que o input seja apertar o disparador segurando a câmera numa determinada altura virada para uma determinada direção, há algum técnica. Não se pode fugir disso.

Uma vez que a falácia da técnica correta é amplamente difundida, é natural que alguns fotógrafos busquem fugir disso, usando técnicas "erradas". No entanto, essa é uma armadilha e o resultado provavelmente será tão inócuo quanto os obtidos pelos fotógrafos esmerados em produzir uma foto tecnicamente perfeita. Continua-se obedecendo cegamente a um preceito técnico, só que de forma inversa.


Camil Tulcan

Se considerarmos que: a.) sempre existirá uma técnica; b.) não há técnica correta e c.) a técnica não é é limitadora da criatividade, qual o real lugar da técnica na fotografia? A técnica, o modo de fazer, a operação, o input, são importantes, mas devem ser secundários e subordinados à intenção do fotógrafo, à ideia, à motivação que leva ao ato fotográfico. A técnica deve ser aliada do desejo do fotógrafo em expressar algo que está no mundo.

Se a ideia é apenas mostrar algo que existe, aquilo que é tido como técnica "correta", que faz com que a fotografia seja bastante parecida com a realidade, é suficiente. Se a ideia é mostrar bagunça, movimento, então pode-se usar procedimentos para gerar fotos borradas, sobrepostas. Sensações de amplitude ou achatamento são obtidas através do uso de distâncias focais mais curtas ou longas. Subexposições ou superexposições são úteis para criar certas atmosferas de escuridão ou grande luminosidade. Ou seja, a fotografia apresenta uma enorme gama de possibilidades de expressão. Para isso, no entanto, o carro não deve ser colocado na frente dos bois, e os recursos técnicos não podem ser vistos como fim em si mesmos. Quando se consegue estabelecer um processo criativo em que se sabe o que quer e a técnica é bem empregada a fim de se obter aquilo que quer, os resultados são melhores e a fotografia se torna um processo mais completo e integrado.

Link: http://camaraobscura.fot.br/2009/12/27/e-e...tal-de-tecnica/
« Última modificação: 27 de Dezembro de 2009, 16:23:25 por Pictus »


pedro_raythz

  • Trade Count: (4)
  • Referência
  • *****
  • Mensagens: 8.469
  • Sexo: Masculino
Resposta #1 Online: 27 de Dezembro de 2009, 15:03:41
A fotografia é como a pintura e a câmera é apenas o pincel. Existem regras para a pintura? Se você for pintar um quadro renascentista, há algumas, mas de maneira geral a arte não é limitada neste ponto. Para coisas específicas, devem haver algumas regras (que exigem seguir técnicas), como, por exemplo, em fotografia para um cardápio, é sabido que tons quentes são melhores e despertam mais o apetite do que uma macarronada com tons frios.

Por outro lado, há várias maneiras de falar da técnica, inclusive ela pode defender a primeira foto. As asas tremidas dão sensação de movimento, assim como o horizonte torto ajuda a enfatizar isso, além de me dar a impressão de equilibrar mais o peso das informações


thiagolara123

  • Trade Count: (2)
  • Freqüentador(a)
  • **
  • Mensagens: 331
Resposta #2 Online: 27 de Dezembro de 2009, 15:59:01
Técnica só se torna preocupação quando em falta.  >:D

c.) a técnica não é é limitadora da criatividade

Como assim? Se vc imagina um negócio, visualiza uma imagem na sua cabeça, seja ela uma imagem "produzida" (cenário, modelo, etc), seja uma captura de algo que está acontecendo mas que vc quer registrar e dividir a SUA visão, como é que vc faz? Vai tentando até acertar? Isso aí golfinho e chimpanzé tb faz.

Técnica é fundamental. Senão é a visão da câmera conjugada com a visão da sorte, vc só serviu de tripé.

A não ser nos casos das lomografias da vida, que pô, sem comentários...

No geral, se as questões técnicas estão muito presentes na sua cabeça na hora de fotografar, está faltando técnica.

Eu passo umas 30 vezes mais tempo estudando fotografia, inclusive técnica, do que fotografando de fato.

Mas tb quando estou fotografando nem penso nisso, sempre tenho conseguido fazer tudo o que eu quero.

Eu acho bastante importante separar a hora do estudo da hora da fotografia propriamente dita. Sem querer mandar um papo muito transcedental/xarope, mas quando vc observa os caras bons trabalhando, eles entram numa espécie de transe, num estado de espírito particular, onde o acesso às questões interiores fica facilitado exatamente por causa de um certo isolamento às questões exteriores. Ninguém pensa em câmera, em luz, em light-ratio de uma luz pra outra... Nada disso. Sai naturalmente.

Essas coisas vc pensa na hora do estudo, ainda que seja um estudo com a câmera fotográfica. Mas fotografar mesmo, conseguir se expressar através da fotografia, tem que ser natural, como dirigir, como andar de bicicleta, como surfar. Tem que sobrar técnica, pra caber a visceralidade. O valor é a visceralidade, mas a visceralidade é posterior a técnica.

Técnica é bom que sobre, sempre. O caminho é estudar. Simples assim.

É claro que essa é só a minha opinião, e outras pessoas vão achar outras coisas.
« Última modificação: 27 de Dezembro de 2009, 16:00:50 por thiagolara123 »
http://www.thiagolara.com <<<Não me odeie, não me inveje, TRABALHE!

O Brasil somos eu e vc, não é só os outros não. Então samba aí: "Se gritar pega ladrão / não fica um meu irmão / se gritar pega ladrão / não fica um..." http://www.youtube.com/watch?v=2WQtQwRHD6k


André Sena

  • Trade Count: (23)
  • Colaborador(a)
  • ****
  • Mensagens: 4.673
  • Sexo: Masculino
Resposta #3 Online: 28 de Dezembro de 2009, 00:27:48

c.) a técnica não é é limitadora da criatividade

Como assim? Se vc imagina um negócio, visualiza uma imagem na sua cabeça, seja ela uma imagem "produzida" (cenário, modelo, etc), seja uma captura de algo que está acontecendo mas que vc quer registrar e dividir a SUA visão, como é que vc faz? Vai tentando até acertar? Isso aí golfinho e chimpanzé tb faz.


Você está se contradizendo, pois o que disse é que você é capaz de imaginar o que quer, mas não consegue executar, daí entra a técnica.
Onde está a diferença disto para a frase do RFP que vc destacou? Quer dizer que se você não consegue executar a princípio, nunca irá imaginar o resultado que quer?
"c.) a técnica não é é limitadora da criatividade"

[ ]'s
André Sena


thiagolara123

  • Trade Count: (2)
  • Freqüentador(a)
  • **
  • Mensagens: 331
Resposta #4 Online: 28 de Dezembro de 2009, 02:35:05
Como assim? Se vc imagina um negócio, visualiza uma imagem na sua cabeça, seja ela uma imagem "produzida" (cenário, modelo, etc), seja uma captura de algo que está acontecendo mas que vc quer registrar e dividir a SUA visão, como é que vc faz? Vai tentando até acertar? Isso aí golfinho e chimpanzé tb faz.



Você está se contradizendo, pois o que disse é que você é capaz de imaginar o que quer, mas não consegue executar, daí entra a técnica.
Onde está a diferença disto para a frase do RFP que vc destacou? Quer dizer que se você não consegue executar a princípio, nunca irá imaginar o resultado que quer?
"c.) a técnica não é é limitadora da criatividade"

[ ]'s

Eu não disse nada disso, o que eu disse está escrito lá em cima, onde eu disse.  :D

Mas resumindo: Não tem como antever um resultado se vc não sabe o caminho pra chegar até ele, e antes de tudo, se ele é ou não possível. Não tem como perseguir algo que vc não sabe que existe.

Aí quando acerta é isso, acidente. Foi isso que eu disse.

Tem um ditado que talvez ajude: "Quem procura o que não perdeu, quando acha, não sabe o que é."

Entendeu?

Pode-se aprender com acidentes, durante o estudo, e esses acidentes deixarem de ser acidentes e passarem a ser recursos.

Mas se expressar no acidente é coisa de incapaz.

Não entendi onde vc viu contradição.

A diferença entre isso e a frase que eu destaquei é de 100%, uma vai pra esquerda, outra pra direita. O Rodrigo está defendendo que a técnica NÃO é limitadora da criatividade.

O que eu estou defendendo é que a técnica É SIM limitadora da criatividade. Mais do que isso: a criatividade só é possível (e tangível) A PARTIR da técnica. "Criatividade" é a conjugação de técnica e sentimento. Idéias soltas na cabeça são mero diletantismo, prazer, isso não é criatividade. Criatividade é trabalho duro, sempre a partir das possibilidades reais, principalmente em se tratando da construção de um discurso visual.

Fernando Pessoa:

"Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?"

Não adianta nada o sujeito ser cheio de questões e apresentar uma fotografia primária, tatibitati, recheada e sustentada muito mais pelos vícios e virtudes do próprio suporte "fotografia" do que pelas questões particulares do fotógrafo.

Acaba que vc vê as fotos do cara ao invés de ver um olhar, vê uma máquina fotográfica. Quando muito, vê um cara brigando com uma máquina fotográfica.

Eu acho caído, quando a técnica não tá dominada. Acho que fica menos visceral e dá pra ver na foto.

Já o cara que tem a técnica fortemente interiorizada, esse pode até se dar o luxo de ser burro, que mesmo assim vai conseguir construir uma fotografia particular, expressiva e verdadeira, que supera o suporte, simplesmente porque as questões do suporte já vão ter sido superadas ANTES do fazer artístico.

Deu pra entender?

Mais uma vez: Essa é a minha opinião, o meu caminho. Só. ;)

Tem gente que joga a câmera pra cima no timer e acha que está se expressando. É como o Rodrigo disse, não deixa de ser uma "técnica". Assim como índio enterrar criança doente é "cultura" e McDonald's é "comida".  :D


http://www.thiagolara.com <<<Não me odeie, não me inveje, TRABALHE!

O Brasil somos eu e vc, não é só os outros não. Então samba aí: "Se gritar pega ladrão / não fica um meu irmão / se gritar pega ladrão / não fica um..." http://www.youtube.com/watch?v=2WQtQwRHD6k


RFP

  • Colunista
  • Trade Count: (2)
  • Membro Ativo
  • *****
  • Mensagens: 626
  • Sexo: Masculino
Resposta #5 Online: 28 de Dezembro de 2009, 07:31:39
Como o André, eu também acho que você está concordando comigo sem perceber... rs.


Kika Salem

  • Trade Count: (2)
  • Membro Ativo
  • ***
  • Mensagens: 1.266
  • Sexo: Feminino
Resposta #6 Online: 28 de Dezembro de 2009, 08:22:17
O que eu percebo é que a técnica é vista de forma distorcida, de diversas formas. [...].  Confunde-se o domínio da operação do equipamento com o domínio da fotografia como um todo, e frequentemente o fotógrafo amador se frustra ao conhecer todos os aspectos técnicos mas ainda assim não conseguir produzir fotografias de qualidade.

Rodrigo:
Sem o adendo "amador", eu concordo em gênero, número e grau com você.
A frustração pra mim é uma rua de mão dupla. Há frustração quando se tem uma intenção, mas não consegue executá-la por falta de conhecimento mínimo, mínimo mesmo, porque conhecendo as funções básicas cria-se muita coisa. Ou, então, quando se conhece a técnica, aqui incluo a manipulação da imagem, mas não sabe o que se quer, pra onde ir, o que fazer, por que fazer?

O que eu estou defendendo é que a técnica É SIM limitadora da criatividade. Mais do que isso: a criatividade só é possível (e tangível) A PARTIR da técnica. "Criatividade" é a conjugação de técnica e sentimento.
Acordei cedo, aliás acordo cedo pra cuidar da Alice, mas hoje ela resolveu dormir um pouco mais porque está chovendo, e eu vim ligar o computador. Acessei o fórum e, pela segunda vez no dia que acaba de começar pra mim, li a palavra "sentimento" como definidora de algo a mais na fotografia, um plus. Sem querer polemizar onde talvez não haja sentido polemizar, fiquei intrigada da primeira e mais intrigada ainda da segunda vez que li "sentimento". Não vou sair da rota do artigo do Rodrigo, mas taí uma curiosidade: o que, afinal, é o sentimento na fotografia? como reconhecê-lo? Uma pessoa que não o vê, assim, de forma tão paupável, será insensível para as coisas do mundo? Será como na música "as coisas estão no mundo só eu preciso, as coisas estão no mundo só eu preciso..."?

Também não entendi bem a contradição.

Por hora é o que deu pra dizer, a Alice acaba de sair da cama. Pois é, ela já faz isso e completou dez meses hoje. kkkkk
« Última modificação: 28 de Dezembro de 2009, 08:31:40 por Kika Salem »


André Sena

  • Trade Count: (23)
  • Colaborador(a)
  • ****
  • Mensagens: 4.673
  • Sexo: Masculino
Resposta #7 Online: 28 de Dezembro de 2009, 10:12:10
Mas resumindo: Não tem como antever um resultado se vc não sabe o caminho pra chegar até ele, e antes de tudo, se ele é ou não possível. Não tem como perseguir algo que vc não sabe que existe.

O que eu estou defendendo é que a técnica É SIM limitadora da criatividade. Mais do que isso: a criatividade só é possível (e tangível) A PARTIR da técnica. "Criatividade" é a conjugação de técnica e sentimento. Idéias soltas na cabeça são mero diletantismo, prazer, isso não é criatividade. Criatividade é trabalho duro, sempre a partir das possibilidades reais, principalmente em se tratando da construção de um discurso visual.


Segundo o seu raciocínio, se eu tenho uma idéia, uma proposta, uma visão, um sentimento e não conheço a técnica para executá-la eu não sou criativo.

E seu eu ainda não sabendo como executa-la contrato uma pessoa que conheçe a técnica para realizar minha idéia. Eu sou apenas um visionário sem o mínimo de criatividade?

« Última modificação: 28 de Dezembro de 2009, 10:12:34 por André Sena »
André Sena


thiagolara123

  • Trade Count: (2)
  • Freqüentador(a)
  • **
  • Mensagens: 331
Resposta #8 Online: 28 de Dezembro de 2009, 14:51:28
Como o André, eu também acho que você está concordando comigo sem perceber... rs.

Rodrigo,

Não é porque vc escreveu um texto em cima do muro, cheio de vai e vem, que ele vai abarcar tudo o que for dito depois dele. Não vamos nos fazer de malucos, que fica feio pra todo mundo que tá lendo, e mais feio ainda pros que estão entendendo. O fato do "ponto" do texto estar flutuante ao invés de estar claramente demarcado como deve ser é um problema do texto, não do entendimento que eu fiz dele... rs. (tb sei rir)

Independente disso, o seu texto (aliás, os seus textos) tem um viés absolutamente claro: A técnica, ou a falta dela, NÃO É UM FATOR NECESSARIAMENTE PREPONDERANTE na construção de uma poética fotográfica própria.

(Poética aqui no sentido de um arcabouço de idéias, recursos, temas, linguagem, no sentido de fazer daquele artista uma personalidade de relevo, de modo que vc olhe a obra e consiga perceber esses atributos.)

É disso que eu discordo. Está bem claro. A partir de agora, colocado dessa forma, se vc não entendeu eu não sei mais por onde te ajudar, ok?

Na verdade eu tenho certeza que vc me entendeu. Vc é um cara que entende coisas muito mais complicadas do que as coisas que eu escrevo. ;D

---

*Sobre Criatividade

Vcs me desculpem, mas achar que as idéias "nascem" assim do nada é a mais pura ignorância epistemológica, não tem como colocar isso de outro jeito. É o carro na frente dos bois.

Vejam bem, vou explicar de novo: Como é que vc vai procurar um negócio que vc nem sabe que existe?

Porque é isso: achar que vai fazer sem técnica é sair de casa pra procurar algo, sem saber o que é esse algo.

Um exemplo fácil pra gente entender isso é pegar uma foto de um grande que a gente goste muito, e que a gente já conheça há muito tempo. Por exemplo: Eu gosto do Avedon, sempre gostei, desde antes de fotografar. Mas quanto mais técnica eu tenho, mais coisa eu vejo nas fotografias dele, e mais qualificada fica a minha percepção a respeito daquele material. Se antes eu conseguia perceber "X" em determinada foto, hj eu consigo perceber "X, Y e Z". Ter muita ou pouca técnica à disposição MUDA SIM A PERCEPÇÃO DAS COISAS.

E é aí que está o pulo do gato.

Veja, nenhuma idéia é "nova", "nasce" assim do nada. "Idéias novas" nada mais são do que realocações de percepções anteriores.

Ninguém nasce sabendo. O movimento original do "fazer arte" vem de fora pra dentro. O que é de dentro pra fora é a realocação das percepções num novo conjunto, que se chama "idéia". Mas isso é posterior, não é aí que começa o fazer artístico. Prova disso é que se vc for olhar a biografia dos grandes artistas vc vai ver que é muito comum que com o tempo e o aprofundamento no trabalho esses artistas acabem cada vais mais isolados, inacessíveis, exageradamente criteriosos com quem e o quê pode se aproximar deles. Isso é porque eles sabem que o "fazer arte" começa no sentir o mundo, e se vc quer dar uma cara ao seu trabalho, vc tem que editar o seu mundo pra ele ter a cara que vc quer que o trabalho tenha. Artista sabe que pra ser artista tem que ficar ligado 24hs, não dá pra prestar atenção na vida só de oito da manhã até cinco da tarde. TUDO o que vc vive vai pro trabalho. Mas isso é outro papo.

Eu estava dizendo que idéias novas nada mais são do que realocações de percepções anteriores.

Veja: esse conjunto (idéia) não tem nada de inédito. As percepções são SEMPRE anteriores, e referentes a externalidades. Vc NÃO pode imaginar (de maneira sólida, objetiva, capaz de orientar um fazer) algo que vc nunca viu, nunca sentiu, nunca experimentou. O que vc pode é realocar as percepções QUE VC TEVE, COISAS QUE VC VIU, SENTIU, EXPERIMENTOU DE FATO, pra aí sim, conjecturar outros arranjos, outras "idéias". Mas essas idéias são meramente novos arranjos a partir de velhas experiências.

Tanto é assim que a palavra "original" não se refere a algo novo, inédito, mas muito pelo contrário, essa palavra se refere à "origem". A força, o impacto de obras "originais" está muito mais relacionado à visceralidade do que ao ineditismo. As pessoas confundem "original" com "inédito" simplesmente porque o mundo é mediocre e poucas são as coisas verdadeiramente sinceras com as quais a gente cruza no dia a dia.

O artista é como uma esponja: Ele absorve, transforma e expele. O gargalo sempre vai estar em algum lugar, seja na absorção (o artista não consegue editar a própria vida a fim de reunir as condições necessárias a uma expressão particular, nobre e valorosa), seja na transformação (o artista não é talentoso, não tem referências internas, não tem material humano relevante), seja na hora de expelir (o artista não tem técnica o suficiente pra concretizar a idéia).

É tarefa do artista estar sempre de olho pra ver onde está o seu gargalo, e trabalhar em cima dele pra fazer o ciclo fluir. Quando a gente resolve um gargalo, surge outro em outro lugar, e assim vai o desenvolvimento do artista.

NA MINHA OPINIÃO o start do ciclo está no gargalo técnico. É a partir da técnica de reserva, a técnica que "sobra", que se tem espaço pra resolver outras questões mais conceituais ou até mesmo formais da obra.

---

Rodrigo, eu acho que vc devia dar uma chance ao Círculo de Viena na sua vida, principalmente ao Karl Popper, tenho certeza de que vc vai gostar.

Se não gostar, pelo menos vai conhecer o inimigo :D , porque é um jeito de pensar que vai numa direção absolutamente contrária a sua.

---

Segundo o seu raciocínio, se eu tenho uma idéia, uma proposta, uma visão, um sentimento e não conheço a técnica para executá-la eu não sou criativo.

Exatamente, vc não é criativo. Criativo é quem consegue colocar pra fora. Ser criativo só do lado de dentro só serve pra se sentir incompreendido. O Fernando Pessoa está falando exatamente sobre isso aí em cima.

E seu eu ainda não sabendo como executa-la contrato uma pessoa que conheçe a técnica para realizar minha idéia. Eu sou apenas um visionário sem o mínimo de criatividade?

E contratar uma pessoa não é um jeito de executar? Se o trabalho do cara exige recursos humanos, não tem porque ele diferenciar isso de um pote de tinta. Vai lá e compra.

André, vc está confundindo o trabalho intelectual com o braçal. Mais especificamente, vc caiu numa confusão clássica de todo mundo que não entende de arte, que é confundir arte com artesanato. Os valores são outros, muito diferentes.

Em arte já está mais do que estabelecido (há séculos, isso mesmo, centenas de anos) que o artista não é quem pôs a mão, mas quem teve a idéia.

Quando vc olha um prédio e acha bacana, vc dá o crédito pro pedreiro? O crédito é do arquiteto.

Aliás, no paradigma contemporâneo, é muito comum vc contratar alguém pra executar parte ou até mesmo todo o trabalho. Vc já teve oportunidade de trabalhar assim, André? Com alguém fazendo pra vc?

O dia que vc tiver a oportunidade, vc vai ver que na primeira conversa com o "peão" que vai fazer o trabalho, ele vai te apresentar uma cacetada de questões específicas da técnica, dos materiais, possibilidades e problemas que vc sequer imaginava e que vão permear e modificar todo o trabalho, que aliás só poderá ser chamado de "trabalho" a partir do momento que vc dominar e interiorizar pro trabalho essas novas questões que o técnico vai colocar pra vc.

Vou dar um exemplo bem real e rasteiro: Antes da fotografia eu trabalhava em design, era sócio de um escritório. Pois bem, eu nuca gostei de programação, web, flash, então tinha um cara lá que entendia disso e era ele quem desenhava essas coisas de web e a gente mandava pra programadora. Como em escritórios pequenos o grosso do trabalho é web, virava e mexia sobrava um site pra mim. No começo, eu me lembro que eu saía da reunião com a programadora sempre desolado :D , de tanta coisa que ía ter que mudar pro projeto funcionar, entre coisas que eu achava que dava mas não dava pra fazer dentro da estrutura que eu queria, e sugestões que ela dava...

Com o tempo isso foi diminuindo, eu fui entendo os limites e possibilidades, e cada vez mais saía tudo redondinho de primeira.

Mandar fazer tb requer muita técnica, e pode ter vários motivos. O principal deles é estrutura. Certas empreitadas artísticas são tão grandiosas que é mais necessário "personalizar" a gestão da empreitada do que o "fazer" propriamente dito. Outro motivo comum é o tempo: Não é raro alguém que pinta precisar fazer uma escultura (por exemplo) pra relacionar com um trabalho de pintura anterior e seguir em frente com a sua linha de raciocínio. Nesses casos, parar pra aprender uma técnica nova pode fazer o artista perder o fio da meada.

Mas ninguém simplesmente "não sabe" executar algo. Não sabe, aprende.
http://www.thiagolara.com <<<Não me odeie, não me inveje, TRABALHE!

O Brasil somos eu e vc, não é só os outros não. Então samba aí: "Se gritar pega ladrão / não fica um meu irmão / se gritar pega ladrão / não fica um..." http://www.youtube.com/watch?v=2WQtQwRHD6k


thiagolara123

  • Trade Count: (2)
  • Freqüentador(a)
  • **
  • Mensagens: 331
Resposta #9 Online: 28 de Dezembro de 2009, 14:57:21
Aliás, esse esforço em defender o "não saber" de alguma coisa é algo tão recorrente na maioria dos fóruns de fotografia brasileiros quanto o tipo de análise superficial que está sendo criticado pelo texto. É o outro lado da mesma moeda.
http://www.thiagolara.com <<<Não me odeie, não me inveje, TRABALHE!

O Brasil somos eu e vc, não é só os outros não. Então samba aí: "Se gritar pega ladrão / não fica um meu irmão / se gritar pega ladrão / não fica um..." http://www.youtube.com/watch?v=2WQtQwRHD6k


André Sena

  • Trade Count: (23)
  • Colaborador(a)
  • ****
  • Mensagens: 4.673
  • Sexo: Masculino
Resposta #10 Online: 28 de Dezembro de 2009, 15:45:27
Rodrigo,

Não é porque vc escreveu um texto em cima do muro, cheio de vai e vem, que ele vai abarcar tudo o que for dito depois dele. Não vamos nos fazer de malucos, que fica feio pra todo mundo que tá lendo, e mais feio ainda pros que estão entendendo. O fato do "ponto" do texto estar flutuante ao invés de estar claramente demarcado como deve ser é um problema do texto, não do entendimento que eu fiz dele... rs. (tb sei rir)

:shock:
 

Quando vc olha um prédio e acha bacana, vc dá o crédito pro pedreiro? O crédito é do arquiteto.
Mas isto foi o que eu disse.
André Sena


thiagolara123

  • Trade Count: (2)
  • Freqüentador(a)
  • **
  • Mensagens: 331
Resposta #11 Online: 28 de Dezembro de 2009, 16:03:34
:shock:
 
Mas isto foi o que eu disse.


Não. O que vc disse foi:

Segundo o seu raciocínio, se eu tenho uma idéia, uma proposta, uma visão, um sentimento e não conheço a técnica para executá-la eu não sou criativo.

E seu eu ainda não sabendo como executa-la contrato uma pessoa que conheçe a técnica para realizar minha idéia. Eu sou apenas um visionário sem o mínimo de criatividade?


Vc disse o que tá escrito aí. Se vc tentou dizer outra coisa e saiu isso, aí já não é problema meu.

Tá vendo o que eu falei? É em todos as áreas da vida. Pensou uma coisa mas não conseguiu dizer, daí não adiantou nada.

Aliás, se não disse, é provavelmente porque não pensou. Pensar em algo é bem diferente de algo te "passar pela cabeça".

É o que eu estou dizendo: Criatividade é o exercício concreto do pensamento, não o seu usufruto puro e simples. O usufruto puro e simples do pensamento sem conexão com o concreto chama-se diletância, não criatividade.
http://www.thiagolara.com <<<Não me odeie, não me inveje, TRABALHE!

O Brasil somos eu e vc, não é só os outros não. Então samba aí: "Se gritar pega ladrão / não fica um meu irmão / se gritar pega ladrão / não fica um..." http://www.youtube.com/watch?v=2WQtQwRHD6k


Ivan de Almeida

  • Trade Count: (1)
  • Referência
  • *****
  • Mensagens: 5.297
  • Sexo: Masculino
  • . F o t o g r a f i a .
    • Fotografia em Palavras
Resposta #12 Online: 28 de Dezembro de 2009, 17:53:36
É preciso considerar algo. A fotografia é um artesanato. É uma arte -se é arte- artesanal. O que caracteriza as artes artesanais é que nelas não existe divisão entre o modo de fazer e o resultado. É a "mão" que faz que deixa seu rastro na obra. Não é possível fazer uma foto puramente conceitual, ela ao ser feita vai ser modelada pelos procedimentos de fazer. E mesmo se imaginarmos... "bem, eu vou ter uma idéia precisa do resultado que quero" achando que isso diminui a artesania, não diminui nada, pois a própria imaginação do querer já embute um VOCABULÁRIO de ações e resultados esperados.

Assim, não há fotografia sem técnica, e a técnica termina virando uma obsessão da maioria dos fotógrafos. Não toda a técnica nem a técnica enciclopédica, mas aquela que foi sendo desenvolvida junto com seu querer.

Contudo, o texto do Rodrigo fala, em meu entendimento, de outra coisa. Fala de uma produção fotográfica coletiva na qual a maioria dos produtores busca uma técnica genérica como resposta para sua fotografia, INCLUINDO nessa resposta coisas que não são provenientes da técnica.

Por exemplo. Gosto de retratos, não gosto de macros. Essa escolha provém da minha personalidade anterior à de fotógrafo. Provém de minha maneira de ver o mundo. Não há nada no aprendizado técnico que vá dar conta desta minha preferência. Ela não surge da técnica, embora depois determine que vou desenvolver-me tecnicamente assim e não assado.

Assim, também, quando na fotografia busco uma luz flamenca, dramática, não a busco porque a técnica me ensinou, mas porque durante a vida vi pinturas, informei-me sobre a pintura Flamenca, entendi a luz do Caravaggio e depois, ao fotografar, vi que ela era possível a partir de algumas opções técnicas na captura e no tratamento. A mera posse da técnica de fotometria não me diz qual o balanço lumínico adequado a uma foto minha. A mera posse do conhecimento genérico de fotometria conduzir-me-á a uma fotografia sempre igual àquela, talvez, que a máquina faria sozinha.

Então há algo além da técnica e que não se origina da técnica. Origina-se de nossa vida, de nossos interesses, de nossa experiência, e poderá ser ou não expressado conforme tenhamos a técnica para expressar. Mas a técnica, assim entendi o artigo do Rodrigo, não faz um "Deus ex machina", não é capaz de produzir os rumos embora os delimitem.

Mas, em um coletivo de produtores fotográficos onde a maioria tem baixíssima formação visual, onde a maioria tem como referências visuais as imagens da publicidade, as fotografias de calendários, há uma baixa propensão a criação que mescle a cultura visual aprofundada com a técnica, e então é atribuído à técnica o papel de Deus ex machina, de Deus surgido da máquina, capaz de gerar ele mesmo as questões formais.

Então, por um lado, o lado do artesanato, é "mexendo na argila" que o fotógrafo percebe uma ou outra possibilidade formal... mas... mas ele reconhece a possibilidade formal à luz de sua cultura visual, artística, poética, etc.

Devemos ter toda a técnica que pudermos ter, pertinente ao que desejamos fazer, e as técnicas abrirão novos caminhos e nos farão desejar coisas que não suspeitávamos. Mas a bússola não é ela. O navegante deve ser um bom navegador, saber manejar o barco, mas deve também saber aonde quer ir.

O que entendi do artigo do Rodrigo e com o que concordo, é que nessa balança está sendo esperado da posse de conhecimento técnico algo que dele não poderá provir, que é um sentido distintivo para a produção. E concordo que até certo ponto abordagens técnicas simples mas possuídas por gente de cultura visual, artística e geral refinada são suficientes para a produção de coisas mais interessantes que aquelas onde tudo se espera da técnica.


thiagolara123

  • Trade Count: (2)
  • Freqüentador(a)
  • **
  • Mensagens: 331
Resposta #13 Online: 28 de Dezembro de 2009, 18:07:57
Possuir cultura visual, artística e geral refinada, pelo menos pra mim, é parte da técnica.

Quando eu falei de técnica, é claro que eu não estava falando de "fotometria". Técnica compositiva, cromática, semiótica, semântica (para o desenvolvimeto do tema), tá tudo aí dentro.

Saudades suas, Ivan. Precisamos marcar qualquer coisa.



EDIT: Aliás, acho que esse negócio de câmera é o de menos, pelo menos pra mim é a parte mais elementar. Difícil é sofisticar sem se repetir nem inventar malabarismo. Difícil é ter linguagem. É tb a essa técnica a que me refiro.
« Última modificação: 28 de Dezembro de 2009, 18:13:55 por thiagolara123 »
http://www.thiagolara.com <<<Não me odeie, não me inveje, TRABALHE!

O Brasil somos eu e vc, não é só os outros não. Então samba aí: "Se gritar pega ladrão / não fica um meu irmão / se gritar pega ladrão / não fica um..." http://www.youtube.com/watch?v=2WQtQwRHD6k


Ivan de Almeida

  • Trade Count: (1)
  • Referência
  • *****
  • Mensagens: 5.297
  • Sexo: Masculino
  • . F o t o g r a f i a .
    • Fotografia em Palavras
Resposta #14 Online: 28 de Dezembro de 2009, 18:31:51
Thiago;

Vindo de  práticas profundamente artesanais como o desenho, para mim entender o papel da técnica no resultado é natural, evidente mesmo. Quando o fotógrafo possui a técnica, ela é fonte de idéias.