Autor Tópico: O fotojornalismo subversivo de Ivars Gravlejs  (Lida 8976 vezes)

RFP

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Online: 14 de Janeiro de 2010, 17:01:44
O fotógrafo tcheco Ivars Gravlejs desenvolveu, durante um ano e em segredo, um projeto de arte contemporânea enquanto era repórter fotográfico do jornal Deník. Ele manipulava sistematicamente detalhes de suas fotos antes de enviar para publicação, e depois criou uma exposição com os recortes de jornal contrapostos às fotografais originais. O trabalho é extremamente interessante e relevante, uma vez que estamos vendo uma mídia histérica com o Photoshop que insiste em vender a imagem da fotografia como reflexo da realidade.

O próprio autor descreve o projeto "My Newspaper":

"Todos os dias eu recebia, de editores e jornalistas, a incumbência de fotogravar eventos em Praga. Antes de enviar as fotos para o banco de imagens do jornal, eu rapidamente as manipulava no Photoshop. Originalmente, a idéia era mudar alguns detalhes pequenos e desimportantes, que não alteraria muito o conteúdo da fotografia, como por exemplo adicionar mais botões na camisa de um escritor ou adicionar uma pichação na parece. No entanto, durante o processo, houve algumas mais radicais, como criar um congestionamento numa estrada ou cortar o dedo do cantor José Carreras. O objetivo desse projeto foi criar manipulações absurdas a partir das manipulações da mídia."

O artista Milan Mikuláštík comenta o trabalho de Gravlejs:
"O projeto é um exemplo típico de 'arte subversiva'. É uma arte que parasita o tema concreto e afeta, sabota e critica esse tema (no caso a sociedade midiática). Por um lado, Ivars Gravlejs desconstrói a autoridade do negócio midiático, desconstrói a autenticidade e a objetividade da informação (que é, de qualquer forma, já midializada e interpretada), mas por outro lado ele contempla a situação do artista contemporâneo, que frequentemente precisa suspender seu processo criativo a fim de ganhar dinheiro para viver. Gravlejs cuidadosamente 'contrabandeou' sua arte na sua atividade 'não artística' diária."





Sobre o exemplo acima, o artista descreve:
"No dia 31 de agosto eu deveria fotografar um congestionamento. Fui até o local, mas não havia congestionamento. Para fazer a foto, eu poderia jogar um tijolo na estrada ou escolher a maneira menos dolorosa — ir para casa e fazer a foto em paz. Os assuntos mais importantes para o jornal 'Deník' eram congestionamentos, ruas e parques sujos, moradores de rua, estrangeiros e o tempo."

Isso nos leva a refletir sobre a cadeia de produção de informações. O fotógrafo precisa fazer uma foto que satisfaça o repórter, que segue uma linha editorial feita para agradar os leitores do veículo. Quem faz finge dizer a verdade e quem lê finge acreditar. E quando alguém expõe a artificialidade do processo (e a fotografia jornalística é uma entre diversas artificialidades tomadas como verdades), há uma reação histérica em defesa da objetividade e da imparcialidade santa dos meios de comunicação.

Mais no site do artista: Ivars Gavlejs.
« Última modificação: 14 de Janeiro de 2010, 17:17:58 por RFP »


Ana Adams

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Resposta #1 Online: 14 de Janeiro de 2010, 17:07:49
Não acho nem justo chama-lo de " artista" . Ele no final é tão enganador quanto o meio que paga seu salário.
Teria sido melhor denunciar esta manipulação para algum meio concorrente.
A imprensa é poderosa e perigosa, temos sempre o dever de analisar e buscar informações mais a fundo antes de comprar uma história.
Por exemplo, anteontem, várias horas depois do terremoto no Haiti, tanto O Globo quanto o Terra diziam que não havia vítimas fatais.


gastro

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Resposta #2 Online: 14 de Janeiro de 2010, 17:15:38
Me pergunto...
Será que o jornal não ficou PPPPPPPPPPPPPPP da vida com ele ?

O_o


Marcelo Favero

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Resposta #3 Online: 14 de Janeiro de 2010, 17:34:23
Ser antiético é ser subversivo?

Tudo bem, não somos inocentes ou hipócritas, pois o quarto poder, de forma geral, manipula a informação em todos os níveis. Mas essa manipulação, seja da imagem ou da informação é um crime, mesmo sendo objeto, meros botões de uma camisa. Pois havendo alguns bons veículos, havendo alguma imprensa realmente séria a "arte" deste "artísta" é criminosa. E criminosa de forma qualificada, pois compromete toda a credibilidade da informação, toda a credibilidade dos veículos e toda a credibilidade de seus colegas, banalizando a falta de escrúpulos para obtenção de um holofote exclusivo.

A imprensa, boa ou ruim, é a única forma de garantir um mínimo estado de direito, de liberdade e democracia. Transformar sua incompetência em algo corriqueiro para satisfazer o ego pseudo-artístico do sujeito é eliminar o fôlego, ainda que pequeno, desta instituição, falha, mas indispensável.

Abraços

Marcelo dos Santos

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RFP

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Resposta #4 Online: 14 de Janeiro de 2010, 17:54:35
"E quando alguém expõe a artificialidade do processo (e a fotografia jornalística é uma entre diversas artificialidades tomadas como verdades), há uma reação histérica em defesa da objetividade e da imparcialidade santa dos meios de comunicação."


Ana Adams

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Resposta #5 Online: 14 de Janeiro de 2010, 18:01:57
O compromisso com a verdade deveria estar acima de qualquer outro interesse dos meios jornalísticos.
Se não há este compromisso, passa a ser ficção.
Todos sofrem com essa corrupção : jornalistas e fotojornalistas responsáveis, público, os próprios meios, tanto os corruptos como os fiéis ao fato, e num âmbito maior ,todo o meio.


RFP

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Resposta #6 Online: 14 de Janeiro de 2010, 18:06:40
Ana, vou te contar um segredo: "verdade" é algo que talvez não exista. Não conte pra ninguém, ok?


AFShalders

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Resposta #7 Online: 14 de Janeiro de 2010, 18:07:45
O cara é um imbecil  farsante . Desculpe a franqueza.
« Última modificação: 14 de Janeiro de 2010, 18:08:39 por afshalders »
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Marcelo Favero

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Resposta #8 Online: 14 de Janeiro de 2010, 18:09:39
"E quando alguém expõe a artificialidade do processo (e a fotografia jornalística é uma entre diversas artificialidades tomadas como verdades), há uma reação histérica em defesa da objetividade e da imparcialidade santa dos meios de comunicação."

Ah, não percebí que ele é um mártir!

Ao meu entender ele expôs o que fez de errado (e manipular fotos de reportagem é errado, não importa quanto isso seja comum e é antiético, convenhamos!) e ganhou para isso. Para mim parece mais apologia do que "revelação".

Por que ele simplesmente não denunciou o que era obrigado a fazer? Por que ele foi conivente e está tirando proveito disso novamente agora?

Desculpa se te pareci histérico, mas defender o que é correto (e não alguma santidade) é uma coisa que realmente costumo fazer.

Marcelo dos Santos

Associado Fototech


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Resposta #9 Online: 14 de Janeiro de 2010, 18:10:33
O cara é um imbecil  farsante . Desculpe a franqueza.

Imagine, estou adorando os comentários, pois a cada manifestação como essa o trabalho do cara se torna mais válido.


AFShalders

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Resposta #10 Online: 14 de Janeiro de 2010, 18:25:19
Imagine, estou adorando os comentários, pois a cada manifestação como essa o trabalho do cara se torna mais válido.

Não pra mim. Se eu fosse empregado meu eu demitia com justa causa.
Manipulação de imagem com fins artísticos tudo bem. Com fins jornalísticos é fraude. Lembra do caso das fotos dos mísseis do Irã e algumas do Iraque que o fotógrafo adulterou um monte de coisas ?

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dondon

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Resposta #11 Online: 14 de Janeiro de 2010, 18:38:43
Acho que se ele tivesse restringido as edições a pequenos detalhes como os botões da camisa, uma pichação que não existe, detelhes que não mudam nem recriam a mensagem jornalística seria um bom trabalho, teria até um tom de humor além da denúncia e da reflexão. Mas a partir do momento que ele admite ter refeito cenas, produzido notícias, intervindo na realidade a fim de gerar fatos que não existiram, ele perde a graça e o trabalho perde o valor. Passa a ser só o "farsante" dito pelo afshalders.

Abraço.


Ricardo Lou

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Resposta #12 Online: 14 de Janeiro de 2010, 18:41:22
Manipulação de fotos em meios jornalísticos não é um ato tão incomum; no atentado a bomba a trens na Espanha em 2004, o própria Jornal do Brasil manipulou a foto, enquanto o jornal EL Pais a prublicou em sua total originalidade, vejam
.
"De acordo com o editor executivo do Jornal do Brasil, Marcos Barros Pinto (2005), a decisão pela foto foi feita por essa ser, indiscutivelmente, a melhor e a mais chocante, tendo auto-rizado ao Departamento de Imagem a eliminar o pedaço do corpo, pois, de acordo com ele, o fragmento era de conteúdo insignificante e nada acrescentaria ao teor jornalístico da cena.
"
in http://www.fafich.ufmg.br/~espcom/revista/numero1/ArtigoClaudiaGastelois.html

Se se deve ou não fazer manipulações em fotos, é uma história muito longa e que muitos dos órgãos de imprensa que as condenam, na prática as fazem.

Meu parco entendimento é que tal prática não deveria ser implementada, pois seremos então, uma legião de enganados, assim como a grande mídia nos propõem esta condição diariamente.

Em verdade, o que interessam a eles é o faturamento, o resto. É resto!!!
Que a arte (me) aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Oswaldo Montenegro (adaptação nossa)


Ana Adams

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Resposta #13 Online: 14 de Janeiro de 2010, 19:02:27
Ana, vou te contar um segredo: "verdade" é algo que talvez não exista. Não conte pra ninguém, ok?

Toda história tem 3 versões : a sua, a minha, e a verdade.


RFP

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Resposta #14 Online: 14 de Janeiro de 2010, 19:25:56
Toda história tem 3 versões : a sua, a minha, e a verdade.

Pô, Ana, frase feita?