Autor Tópico: Magenta… e todas as outras cores da massa cinzenta.  (Lida 1340 vezes)

spegiorin

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Online: 10 de Outubro de 2010, 13:13:53
Pessoal, este é um Ctrl+C Ctrl+Vde um artigo muito interessante do Kentaro Mori.
Achei importante para entender o que é espaço de cor.
Vale a leitura.




Acima você confere o espectro de luz visível, que pode ser entendido como ondas eletromagnéticas simplesmente variando em freqüência, da mais baixa à direita à mais alta na esquerda. Vá mais baixo e você adentra o infravermelho, o microondas e o rádio, vá mais acima e você avança sobre o ultravioleta, raios-X e raios gama.

Vemos o espectro de luz visível em todo lugar, e de forma especialmente bela nas cores do arco-íris. É comum pensar que deve conter todas as cores, tanto que a expressão “todas as cores do arco-íris” tem 12.300 resultados no Google, quase sempre referindo-se a todas as cores existentes.



Agora ache a cor magenta no espectro. Ela não está lá. Todas as cores no arco-íris não incluem o magenta. Como podemos enxergá-la? Seria uma freqüência mágica que não existe realmente? Flicts?

Segundo Liz Elliot, sim. Em uma nota onde diz que magenta não é uma cor, Elliot explica que o magenta é uma mistura dos dois extremos do espectro, violeta e vermelho. E o cérebro ao invés de somar as duas frequências e enxergar algo em seu meio – que seria o verde – faz um malabarismo e inventa uma cor completamente nova entre o vermelho e o violeta. Magenta seria uma grande mentira, uma ilusão.

Soa inacreditável. Provavelmente porque não é realmente verdade. E a verdade pode ser ainda mais impressionante.

DIAGRAMA ERRADO

Em Yes, Virginia, there is a magenta, Chris Foreman corrige as atrocidades que Elliot cometeu em sua nota. Foreman exibe logo de cara um diagrama de espaço de cores CIE:



E, bem, você vai encontrar o magenta aí. O que o espaço de cores CIE representa é exatamente a percepção humana de cores. Criado através de experimentos em 1931 pela Comissão Internacional sobre Iluminação (CIE), o diagrama leva em conta como nós percebemos as cores, e aqui está a resposta mais simples para o erro de Elliot. Ela simplesmente se valeu de uma conceituação e uma representação errada para o que são as cores.

As cores que percebemos não são determinadas apenas por sua frequência no espectro eletromagnético, e sim em como estimulam nossa retina, sensível a três cores primárias. Não temos um sensor ótico capaz de medir a frequência exata da luz que entra em nossos globos oculares, e sim três tipos de células sensíveis a cor que reagem apenas a três pequenas fatias desse espectro, localizadas aproximadamente em sua metade e dois extremos. Nós literalmente interpolamos a medida de um amplo espectro contínuo a partir de três sensores de sensibilidade bem limitada.

No espaço de cores acima, o espectro de luz visível compõe os contornos curvos da “ferradura”. O comprimento das ondas eletromagnéticas visíveis estão nessa linha contínua, indo de em torno de 380 a 700 nanômetros. Agora, todas as cores dentro da ferradura, incluindo o magenta, “não existem”, não são frequências eletromagnéticas definidas. São construídas em nosso cérebro combinando os diferentes estímulos captados por nossos três tipos de células cromáticas.

E é assim que o rosa-choque, o marrom e uma infinidade de outros tons dentro da ferradura do espaço de cores CIE se juntam ao magenta, e não existem como um comprimento de onda eletromagnética definido. São diferentes frequências estimulando simultaneamente diferentes células sensíveis a cor em nossos olhos. E não para aí. O espaço de cores representado acima não é completo, não apenas porque seu monitor é incapaz de representá-lo de forma perfeita – como nenhum monitor no mundo é capaz.

O espaço de cores precisa de mais um eixo para representar a intensidade da cor, indo do preto ao branco, e todos os tons de cinza entre eles. Imagine essa ferradura estendendo-se tridimensionalmente, variando seu brilho. Porque, se você ainda não notou, nem o preto, o branco ou nenhum tom de cinza surge no espectro de luz visível. Também não existem? Claro que existem.



Como deve estar claro, não é que essas não sejam realmente cores, ou mesmo cores “de verdade”. É que a definição de cores como determinados comprimentos de onda é simplesmente incorreta; é impossível definir as cores sem fazer referência a como nós as percebemos.

UM MAGENTA ESPECIAL, AFINAL

Entender como percebemos as cores e apresentar o espaço de cores derivado de tal, no entanto, sim ilustra algo interessante. O magenta sim é especial. Lembre-se de que todo o contorno curvo da “ferradura” de cores compõe o espectro de luz visível, são comprimentos de onda eletromagnética definidos.

Essa curva contrasta com a linha reta entre o violeta e o vermelho. Que inclui o magenta em seu meio. Todos os pontos nessa linha, a “linha de púrpuras”, são extremos mas não existem como comprimentos de onda definidos. É fácil entender o porquê.



O espectro de luz é linear, começa em um ponto e termina em outro. Já a percepção de cores combinando três tipos de células cromáticas produz um espaço de cores circular, onde você pode começar em um ponto e percorrer os outros em um mesmo sentido até voltar aonde começou. A linha reta entre o violeta e o vermelho é a linha “imaginária” que completa esse círculo, transformando o espectro linear em algo circular.

E o magenta está lá em seu meio. Assim, há mesmo algo especial no magenta e todas as cores na linha de púrpuras: são cores completamente saturadas, mas nenhuma frequência única de luz pode produzi-las. Se vivêssemos em um Universo com leis físicas e axiomas matemáticos completamente diferentes, onde o espectro eletromagnético fosse circular, talvez esses púrpuras tivessem uma frequência determinada e fossem parte das cores do arco-íris. Arco-íris que seriam sempre circulares, imagino.

(Em verdade existem halos solares e lunares, grosso modo “arco-íris” circulares, mas adivinhe em que sentido se distribuem suas cores. Não, não é como no círculo de cores acima. A natureza teima em ser coerente).


[De Calovi no Flickr]

Claro que mesmo neste Universo Bizarro com arco-íris como círculos de cores, todas as infinitas outras cores dentro da ferradura continuariam não existindo no espectro. E como vimos, ainda assim seriam cores, que enfim, não são simplesmente parte do espectro de luz.

QUALIA, MOLHO ESPECIAL E RETINEX

Soam como nomes de produtos, mas são apenas alguns dos outros conceitos envolvidos aqui. Vimos, literalmente, como as cores dependem da forma como as percebemos fisiologicamente, o que envolve detalhes sobre nossa retina. As coisas são em verdade ainda mais complicadas. E proporcionalmente curiosas.

Talvez você tenha achado estranho que nos diagramas acima se tenha misturado uma ferradura com um círculo. O círculo é apenas uma representação gráfica mais simples, de fato uma das primeiras teorias de cores desenvolvidas por Newton. A ferradura CIE é uma representação mais precisa de nossa percepção de cores criada no século passado.

Ainda assim, você também pode ter se perguntado por que a ferradura tem um aspecto assimétrico. Não poderia ser um triângulo mais bem ajeitado? Poderia, se nossas células sensíveis a cor reagissem da mesma forma aos comprimentos de onda que buscam captar, fossem distribuídas uniformemente na retina, e se os comprimentos de onda captados também se distribuíssem igualmente ao longo do espectro de luz. Na vida real, as coisas não são bem assim, e o triângulo ideal se transforma em uma ferradura.



Nossa sensibilidade a diferentes comprimentos varia bastante, e os cones sensíveis ao verde e vermelho em verdade sobrepõem-se, e muito. Mesmo quando você vê uma placa perfeitamente vermelha, os cones sensíveis ao verde também estão sendo estimulados – só um pouco menos. Como vemos as diferenças entre verde e vermelho tão claramente nos semáforos?

Aqui entra o nosso cérebro. Que tenhamos um espaço perceptual de cores que se aproxime de um triângulo com uma enorme gama de tons se deve ao fato de que o cérebro lida com todas estas limitações de nossa retina. O conjunto completo do sistema visual é fruto de milhões de anos de evolução de todos os seus componentes, incluindo aí o cérebro. Ao investigar o conjunto de perto, descobrimos uma série de gambiarras, e por assim dizer o que não foi implementado em hardware é corrigido em software. Ao final, o importante é que ele funciona incrivelmente bem dadas as condições. Não temos a melhor visão no mundo animal, mas enxergamos milhões e milhões de cores.

Se o hardware tem severas limitações na captação bruta de cores primárias (devido a adaptações que favoreceram a nitidez da visão) o software que nós temos consegue fazer milagres com o que recebe dele. Se olharmos ainda mais de perto, descobriremos que as cores não são apenas combinações determinadas de estímulos dos três tipos de sensores cromáticos. O sistema visual calcula a percepção de cores de forma extremamente sofisticada levando em conta diversos pontos do campo de visão, para – sempre usando analogias da tecnologia moderna – aplicar um balanço de cores automático. É a extremamente importante constância de cores.

Veja o hambúrguer abaixo. Consegue ver o alface verdade, o pão bege, o queijo amarelo e a carne marrom?



Parabéns, você viu as cores em seu cérebro. A imagem tem apenas tons de vermelho e cinza. As outras cores foram vistas porque, apesar de sua retina ter captado apenas tons de vermelho, seu cérebro processou a informação adicional codificada nos tons de cinza intercalados. Escrevi uma coluna a respeito há algum tempo: “Molho especial”. Essa nova teoria de cores incluindo como nosso cérebro processa os dados algoritmicamente foi proposta e desenvolvida há apenas trinta anos atrás por Edwin Land, inventor da câmera Polaroid.

Se você continuar se aprofundando no tema, acabará entrando mesmo em questões como até que ponto a percepção de cores também é cultural (você sabia que para os japoneses verde e azul são a mesma cor?) e conceitos filosóficos como o qualia e a consciência, que o RicBit (que foi como me inteirei por toda essa polêmica) já começou a abordar no BrainDump: There Is No Magenta (mesmo?)

Tudo isso porque o magenta não está no arco-íris. Mas então, mesmo as cores que vemos no arco-íris não passam de construções peculiares de nosso sistema visual, combinando nossos olhos e cérebro. Embora parte das cores que percebamos tenha correspondentes no espectro em um arco-íris e todas as cores sejam derivadas de estímulos físicos reais captados por nossa retina, as cores em si mesmas, incluindo as espectrais, são a rigor todas construções mentais. Como não poderia deixar de ser, não há algo como uma “vermelhidão” saindo de um tomate e entrando diretamente em seu cérebro.

O arco-íris em si mesmo se estende muito além do que vemos como cores, em frequências de infravermelho e ultravioleta, que por sua vez são apenas parte do vasto espectro eletromagnético inundando todo o espaço de ondas de rádio de quilômetros de tamanho a radiações extremamente curtas como raios-x ou gama. O fascinante é que, através da ciência, outra criação de nosso cérebro, também podemos enxergá-los.


Link do artigo original:
http://scienceblogs.com.br/100nexos/2009/02/magenta-e-todas-as-outras-cores-da-massa-cinzenta.php
« Última modificação: 10 de Outubro de 2010, 13:19:27 por spegiorin »
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Biofa

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Resposta #1 Online: 10 de Outubro de 2010, 17:59:48
Poxa vida cara, muito interessante mesmo, eu estava atrás de algo relacionado a este assunto.
Nos ajuda a entender muito melhor a fotograia, considero isso como tema básico para quem quer uma fotografia mais consistente.

Obrigado!


majewski

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Resposta #2 Online: 11 de Outubro de 2010, 07:40:15
Ótimo tópico spegiorin.

É sempre válido que os fotógrafos estudem também a teoria - cor, luz, composição. Isso engrandece essa arte.
Para quem curte esses tipos de artigo, sugiro que leiam os textos disponíveis no Cambridge in Colour - http://www.cambridgeincolour.com/pt/tutoriais.htm

[]s,
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José LEONEL Majewski
josemajewski@gmail.com
Visitem meu humilde blog sobre fotografia - http://www.byleonel.blogspot.com/ (voltando a ativa em breve)