Autor Tópico: LINGUAGEM II  (Lida 876 vezes)

Ivan de Almeida

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Online: 08 de Agosto de 2006, 09:47:56
Prezados:

Dando prosseguimento à vertende de abrir debates sobre LINGUAGEM, e entendendo essa como o conjunto dos recursos formais-simbólicos que comandam o processo de representação na fotografia, transcrevo um interessantíssimo TEXTO DO RODRIGO PEREIRA postado em seu Multiply

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   Antepassados da fotografia: Etienne de Silhouette
Rodrigo Pereira



Parece sempre ter existido um impulso humano para obter aquilo que só a fotografia conseguiu realizar: a de fixar, no tempo, um traço de algum elemento real, como o rosto de uma pessoa ou uma paisagem. Quando se anda para trás na história da fotografia, ela não caminhará em direção à pintura, mas mais especificamente a essas outras tentativas de representação do real que às vezes caminham com a pintura, e em outras se afastam totalmente.

Um exemplo é o de Etienne de Silhouette (1707-1767), ministro de Luís XV que desenvolveu uma técnica para desenhar e cortar do papel a forma projetada do rosto de pessoas. Uma vela era colocada do lado da pessoa e uma folha de papel do outro, próxima do rosto. O desenhista poderia ficar atrás da folha e delinear os contornos da sombra projetada. O resultado era recortado e geralmente enquadrado, se tornando uma moda na época.

O termo "silhueta" origina-se dessa prática. Ainda hoje há quem faça esse tipo de trabalho e mantém viva a técnica (consultar links nas referências). As silhuetas mostram uma etapa da evolução no desafio de se capturar traços do real e poder mantê-los, possibilitando, já nessa época, que as pessoas tivessem a sua imagem de um determinado momento marcados para toda a vida.

Referências
Wikipedia (2006). Silhouette. http://en.wikipedia.org/wiki/Silhouette
Arnold, T. (2002). The silhouette man. http://www.silhouette-man.com/index.html
The Jane Austin Magazine (2006). Period lighting and silhouette making. http://www.janeausten.co.uk/magazine/page....?pid=391&step=4
E-How.com (2006). How to cut a silhouette. http://www.ehow.com/how_16736_cut-silhouette.html


Ivan de Almeida

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Resposta #1 Online: 08 de Agosto de 2006, 09:51:20
Antes que me perguntem, o Rodrigo gentilmente me autorizou a transcrição.


Carlos Magalhaes

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Resposta #2 Online: 08 de Agosto de 2006, 14:19:54
Ivan, li o seu post depois do almoço. E nesse clima escrevi algumas considerações digestivas (!). Não sabia da origem da palavra "silhueta". Abraço.
*****

Estava lendo a introdução do E. H. Gombrich ao “Tête à Tête” do Cartier-Bresson e algumas questões são bem interessantes. Ele fala sobre o mistério existente na obtenção de semelhança no retrato seja qual for o meio de representação (escultura, pintura, fotografia, etc). “Afinal de contas, a impressão de vida costuma situar-se no movimento. Como, portanto, é possível haver imagens que nos dão a impressão de estar frente a frente com uma pessoa real [...]?" De acordo com Gombrich, o aspecto da pessoa retratada, da maneira como foi registrado, só pode ser mantido por um breve instante. “No momento imediatamente posterior, eles talvez tenham desviado o olhar, virado ou inclinado a cabeça, erguido as sobrancelhas ou baixado as pálpebras, enrugado a testa ou franzido o lábio, e cada um desses movimentos teria afetado radicalmente suas expressões.”

Para Gombrich, a linguagem verbal é incapaz de descrever todas as nuances de fisionomia provocadas pelos movimentos dos músculos faciais. Isto acontece porque julgamos uma fisionomia de forma global e não por movimentos isolados. Um sorriso pode ser sarcástico ou amigável, cínico ou sincero. Mas o sorriso por si só não nos indica o seu próprio sentido. O sentido é dado pelas RELAÇÕES entre os movimentos: sorriso combinado com sobrancelhas arqueadas, por exemplo.

Julgamos um retrato como SEMELHANTE quando reconhecemos a expressão global registrada como pertencente ao repertório da pessoa que conhecemos.

Curiosamente, a fotografia instantânea não facilitou a “representação semelhante”. Pelo contrário, a exatidão “em frações de segundo” do registro fotográfico torna mais difícil a criação de uma imagem convincente. O momento exato congelado nem sempre corresponde a uma expressão global que reconhecemos como pertencente ao modelo. Não por acaso, uma grande quantidade de pessoas detesta se ver em fotografias. Na frente do espelho, escreve Gombrich, costumamos fazer a cara que mais nos agrada. Mas a fotografia frequentemente nos trai, apresentando uma expressão da qual sequer suspeitávamos.

Segundo Gombrich, os desenhos feitos por Bresson mostram que ele era “um explorador ardoroso da paisagem variada do rosto humano”. Mas não basta conhecer bem a paisagem variada do rosto humano. É preciso ter a sensibilidade e o tino de reconhecer o momento exato de fazer a exposição para congelar a expressão reveladora da personalidade do modelo. Bresson era mestre nesse ofício (muitos fotógrafos, de acordo com Gombrich, fazem uma grande quantidade de fotos e depois selecionam as mais apropriadas. Atualmente esse procedimento é facilitado pelas digitais, mas o texto é do tempo do filme).

No final das contas, cada meio tem as suas características, a sua gramática, a sua linguagem. O objetivo é o mesmo: representar a realidade de uma forma adequada segundo critérios determinados.  Talvez uma das grandes diferenças seja a quantidade de informações ou sinais que cada meio é capaz de processar. A SILHUETA é simples nesse aspecto, com pouquíssimos sinais, constrói-se a representação. Quando esses sinais estão de acordo – são coerentes - com as regras da percepção, a representação será convincente.

A fotografia parece a muitos como o meio mais fácil já que não é preciso fazer nada além de olhar, apontar e clicar. Mas esse pensamento é um engano. Por ser um meio que tem como característica o registro automático de uma grande quantidade de informações, acaba sendo tão ou mais difícil do que outros. Desde que alguém aprenda as técnicas da pintura realista, pode representar uma paisagem com uma certa facilidade. Compor uma boa foto de uma paisagem, no entanto, é uma arte que não se esgota com o domínio técnico do equipamento. É preciso saber o que fazer com o excesso de informações que a câmera é capaz de registrar.
 
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Ivan de Almeida

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Resposta #3 Online: 08 de Agosto de 2006, 14:34:57
Quel legal, Carlos.

Muito interessante o texto, que remete mesmo à arte do retrato. Eu gosto imensamente do retrato, e já disse aqui e repito: só consigo retratar direito pessoas de quem gosto. Acho que é por saber vê-las dentro dessa apreensão da expressão.

Recentemente fiz uma foto do Seu Tuninho Mineiro, o Sassá, lá na serra onde tenho casa. Já havia feito uma foto (aliás várias) dele há certo tempo, mas naquela época, por não saber talvez lidar com uma personalidade tão diferente, eu não tinha muita paciência para ele. Depois, lendo o Guimarães Rosa, reconheci a fala do Seu Tuninho e essa encantou-se para mim, entendi a maneira de falar, o sabor das expressões, etc. Além disse fizemos algumas coisas juntos, eu o chamei paara fazermos uma escada no meu terreno e passamos o dia conversando.

Bem, no dia seguinte ele apareceu lá e fiz a melhor foto dele que já fizera. Pela primeira vez gostei de uma foto que dele fiz.

A análise do Bresson é perfeita. Geralmente, pois não sou o Bresson, faço duas ou três fotos quando retrato. Mas há sempre uma que sintetiza. Os retratos do Bresson são fantásticos, geralmente aparecendo o corpo inteiro. É um olhar muito sofisticado, e eu sempre presto atenção nas fotos dele para ver se aprendo alguma coisa.

Acrescentando:
A fotografia em silhueta tornou-se uma espécie de solução fotográfica, com árvores pretas contra crepúsculos, etc. O interessante é que embora isso confirme fortemente a estrutura figura-fundo, nega também a percepção das situações, pois nosso olho não vê as árvores totalmente pretas, pois quando as examinamos ele adapta-se à sua claridade.

É mais um exemplo do "molde" da representação convencional que se impõe, herdado das silhuetas com velas ou sol.
« Última modificação: 08 de Agosto de 2006, 18:47:54 por Ivan de Almeida »


RFP

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Resposta #4 Online: 08 de Agosto de 2006, 14:52:45
Ivan, obrigado pelo link para o meu texto. Era um tanto inevitável que, ao falar de silhueta, caíssemos no retrato. E pelo que parece, a questão é como realizar um retrato "autêntico", que, de fato, revele a pessoa fotografada.

Vocês comentaram sobre o Bresson, que tem como marca seus momentos definidores. Lembro de um fotógrafo com estilo antagônico, Paul Strand. Strand, em seus retratos, pedia que as pessoas posassem e, aparentemente, parecia levar o tempo que fosse necessário até que a pessoa se mostrasse, ou seja, que ele conseguisse captar toda uma vida, ou muito mais do que o tempo de exposição podia obter.

É muito apropriado o que o Carlos falou: "o que fazer com o excesso de informações que a câmera é capaz de registrar". Eu diria mais, acho que se pode trabalhar com o tangível, ou seja, as informações visuais na foto, e o intangível, como o tempo. Pode-se condensar num momento mais do que se mostra enquanto o obturador está aberto? Se o trabalho de Strand realmente o faz, a questão não é apenas lidar com o excesso de infrmação, mas também dizer mais, usando o que não está na foto, ao menos não de forma explícita.
« Última modificação: 08 de Agosto de 2006, 14:53:41 por RFP »


Carlos Magalhaes

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Resposta #5 Online: 08 de Agosto de 2006, 15:03:48
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A fotografia em silhueta tornou-se uma espécie de solução fotográfica, com árvores pretas contra crepúsculos, etc. O interessante é que embora isso confirme fortemente a estrutura figura-fundo, nega também a percepção das situações, pois nosso olho não vê as árvores totalmente pretas, pois quando as examinamos ele adapta-se à sua claridade.
 
De acordo com o Gombrich a silhueta funcionaria porque nos orientamos no mundo a partir da nossa grande capacidade de enxergar relações. Bastam dois sinais - claro e escuro, aceso e apagado - desde que sejam coerentes, para que se torne possível a reconstituição mental da situação representada.

Acredito que essa idéia esteja relacionada ao experimento que você fez em sua dissertação de mestrado, conforme explicado no tópico anterior (Linguagem I).

Quanto ao Bresson, é muito interessante a força dos retratos dele. Fui à casa da minha mãe no fim de semana e levei o livro. Ela, que nunca olhou fotografias diferentes das "fotos de família", pegou o livro e ficou impressionada, ficou observando as fotos durante um longo tempo e dizia assim: "É incrível, parece que as pessoas estão vivas!"

E as fotos são em preto e branco, são tons de cinza impressos no papel. É curioso o fato de que a menor quantidade de sinais pode dar uma maior impressão de realidade.  
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Resposta #6 Online: 08 de Agosto de 2006, 16:05:17
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A fotografia em silhueta tornou-se uma espécie de solução fotográfica, com árvores pretas contra crepúsculos, etc. O interessante é que embora isso confirme fortemente a estrutura figura-fundo, nega também a percepção das situações, pois nosso olho não vê as árvores totalmente pretas, pois quando as examinamos ele adapta-se à sua claridade.
 
De acordo com o Gombrich a silhueta funcionaria porque nos orientamos no mundo a partir da nossa grande capacidade de enxergar relações. Bastam dois sinais - claro e escuro, aceso e apagado - desde que sejam coerentes, para que se torne possível a reconstituição mental da situação representada.

Acredito que essa idéia esteja relacionada ao experimento que você fez em sua dissertação de mestrado, conforme explicado no tópico anterior (Linguagem I).

Quanto ao Bresson, é muito interessante a força dos retratos dele. Fui à casa da minha mãe no fim de semana e levei o livro. Ela, que nunca olhou fotografias diferentes das "fotos de família", pegou o livro e ficou impressionada, ficou observando as fotos durante um longo tempo e dizia assim: "É incrível, parece que as pessoas estão vivas!"

E as fotos são em preto e branco, são tons de cinza impressos no papel. É curioso o fato de que a menor quantidade de sinais pode dar uma maior impressão de realidade.
Carlos:

A estrutura figura-fundo é a estrutura essencial da percepção, me parece, aquela que quando adquirida possibilita o desenvolvimento de todas as outras. A identificação da mãe no meio do quadro visual indeterminado, o esforço para fixá-la conduzem à primeira separação de um objeto do fundo, separação esta que vai ganhando força no segmento da construção do real na psique.

Na verdade, todo ato discriminatório, seja visual, seja definidor no campo das idéias é uma separação figura-fundo.

A aquisição primitiva da figura, isto é, de algo que se isola do universo e pode ser seguido pela mente através de atos perceptivos está presente em tudo.

No caso da silhieta, ela confirma e contradiz a percepção, ao mesmo tempo. Ela contradiz no sentido de contradizer nossos atos perceptivos quando estamos de fato diante de um quadro alto-c0ntrastado, pois nossa rotina é ver o claro e o escuro em dois atos com ajustes diferentes e depois interpretá-los como ato único, coisa única.

Mas, na linha do que você disse na sua excelente primeira mensagem do outro tópico, fomos ensinados a ver a silhueta como correspondente a um certo aspecto da coisa. A idéia de que a silhieta representa a coisa foi impartida a todos, e assim somos capazes de perceber na silhueta significado. É, como você diz, uma relação, uma relação entre algo que significa e algo que não significa.

Se atentarmos para os atos do olhar que preticamos ao observar numa foto uma paisagem em silhueta podemos claramente perceber que o olho "pula" (pula mesmo, há movimentos a isso correspondentes) entre fundo e silhueta, fazendo os dois significados, um a cada ato.


Carlos Magalhaes

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Resposta #7 Online: 08 de Agosto de 2006, 17:24:25
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Eu diria mais, acho que se pode trabalhar com o tangível, ou seja, as informações visuais na foto, e o intangível, como o tempo. Pode-se condensar num momento mais do que se mostra enquanto o obturador está aberto?
Rodrigo, você já leu um conto do Julio Cortazar que se chama "As babas do diabo"? Faz parte do livro "As armas secretas". Seu post me fez lembrar desse conto maravilhoso.

Veja o que o Davi Arrigucci fala sobre o conto:

"Parece não ser outra a concepção da fotografia (e do conto) contida no texto: captar um fragmento da realidade, fixando-o dentro de determinados limites, mas de forma que não se petrifique dentro dos limites estabelecidos e, sim, abra para uma realidade muito mais ampla, como uma visão significativa, ou melhor, como uma verdadeira 'revelação'. Fixar limites para transcender limites é o aparente paradoxo do fotografar (e do contar). Na essência dessa concepção de fotografia e do conto está em jogo a oposição entre limite e abertura, ou, mais precisamente, entre repouso e movimento [...] Como revelar através de uma imagem petrificada a móvel realidade? O limite, para o fotógrafo, já é determinado, como deixa explícito Cortazar pela própria máquina; conforme se lê no conto, 'o fotógrafo age sempre como uma permutação de sua maneira pessoal de ver o mundo por outra que a câmera lhe impõe, insidiosa'".

A questão é usar o limite que a câmera impõe para provocar uma ilusão de abertura. Como diz o próprio Cortazar a questão é como fazer com que um RECORTE da realidade atue como uma explosão que abre uma realidade muito mais ampla e dinâmica que transcende o campo abarcado pela câmera.

Um dos artifícios que Cortazar usa no conto é fazer o narrador mencionar várias vezes a passagem de nuvens e os momentos em que o céu está limpo. Isso remete à variação da luz que ocorre initerruptamente. Acredito que é uma metáfora que mostra que a vida é fluxo, mudança contínua. Como congelar o que se move e muda o tempo todo de modo a dar impressão de movimento e mudança?
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Resposta #8 Online: 08 de Agosto de 2006, 18:35:29
Carlos, você conseguiu com essa passagem deixar bem claro o que eu queria dizer. E aí passamos do recorte literal da silhueta, em que os retratos eram de fato cortados no molde da sombra para esse outro tipo de recorte, no espaço-tempo, realizado pela fotografia.

Quando nos aprofundamos numa questão dessa forma, fica bem claro que para fazer boas fotos, considerando como boas fotos aquelas que vão além dessa limitação, as ferramentas são diferentes. Nem de relance cabe pensar em equipamento aqui. Acho que a ferramenta, nesse caso, como exemplificam aqueles que conseguem produzir esse tipo de arte, vai além até da questão do olhar, e entra já na atitude que se tem perante a vida, de uma forma mais ampla.


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Resposta #9 Online: 08 de Agosto de 2006, 18:43:30
Citar
ai além até da questão do olhar, e entra já na atitude que se tem perante a vida, de uma forma mais ampla.

Muito bem dito. Fotografia não é registro, é DEPOIMENTO DA NOSSA PRESENÇA, conformada pela qualidade da nossa presença que determina para onde olhamos, como olhamos, etc.

Isso para ser buscado em nós, isto é, usando a linguagem da fotografia, para ser revelado e trazido ao pensamento consciente exige uma inrospecção, introspecção no ato de fotografar, procurando identificar os movimentos mentais realizados, os movimentos estéticos conjugados, e uma introspecção quando olhamos uma fotografia, procurando entender como se processa isso de apreender uma fotografia, de lê-la.


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Resposta #10 Online: 08 de Agosto de 2006, 18:51:06
Vou colar aqui uma resposta que dei nesta mesma discussão (foi postada igual em três ffóruns, neste, no BrFoto e no FotografiaBrasil, e desenvolve-se completamente diferente em cada um. Mas aqui o debate está mais sutil e profundo, como já fora no outro.

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Mensagem na FotografiaBrasil
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De fato é bem interessante.

Mas vou colocar algumas questões...

Já pensaram que a vista humana não vê silhuetas? Isso porque quando apontamos o olho para a parte clara o olho se regula para perceb~e-la sem "estourar", e quando olhamos para a parte escura ele se regula para ver os detalhes de sombra. Quando reunimos as duas coisas no cérebro, ele faz um amalgama onde as informações do ambiente são processadas como uma espécie de HDR, e não de silhueta.

De modo que a silhueta é mais um desses casos onde se observa a diferença entre a representação fotográfica e a percepção humana, mais um desses casos que nos impede de ver a cãmera como olho-de-vidro.

Indo além, na verdade a silhueta em fotografia é uma tradição que começa com a silhueta feita com vela ou com a luz do Sol, evolui para as superfícies sensíveis gravadas por contato de folhas, etc, e depois para a fotografia, e vamos nos acostumando com isso a tal ponto que a fotografia em silhueta nos parece natural embora não corresponda a uma experiência perceptiva.

Isso nos mostra mais uma vez que vemos aquilo que somos treinados para ver. Na história das imagens, há uma linha hereditária entre o homem que contempla as sombras duras do Sol de forma interessada, o homem que com uma vela traça a silhueta de alguém e mostra a outro homem como reconhecer ali "fulano", o home que coloca um ramo sobre uma superfície sensível sem cãmera alguma e a expõe ao Sol e finalmente o homem que fotometra o fundo e deixa o primeiro plano empretecer. E paralelamente, os homens vão ensinando uns aos outros verem essas imagens e as interpretarem, mesmo contrariando a experiência concreta.

Um segundo ponto a se considerar sobre isso é o movimento ocular para leitura da imagem. Se observarmos nossos olhos enquanto vemos uma fotografia em silhueta podemos identificar pequenos "saltos" musculares, e podemos observar uma ping-pong no qual o olho alterna a observação do fundo e a observação da silhueta, mas, isso sim relevante, não na mesma visada, mas em movimentos alternados figura-fundo-figura-fundo-figura...

Mais uma vez a mente funciona reunindo as duas coisas, e temos a sensação de estarmos percebendo uma única coisa.
 


André Sena

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Resposta #11 Online: 09 de Agosto de 2006, 23:01:32
Bom... não tenho o que acrescentar neste tópico, mas estou achando-o muito interessante.

 :clap:

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Um exemplo é o de Etienne de Silhouette (1707-1767), ministro de Luís XV que desenvolveu uma técnica para desenhar e cortar do papel a forma projetada do rosto de pessoas. Uma vela era colocada do lado da pessoa e uma folha de papel do outro, próxima do rosto. O desenhista poderia ficar atrás da folha e delinear os contornos da sombra projetada. O resultado era recortado e geralmente enquadrado, se tornando uma moda na época.

O termo "silhueta" origina-se dessa prática. Ainda hoje há quem faça esse tipo de trabalho e mantém viva a técnica (consultar links nas referências). As silhuetas mostram uma etapa da evolução no desafio de se capturar traços do real e poder mantê-los, possibilitando, já nessa época, que as pessoas tivessem a sua imagem de um determinado momento marcados para toda a vida.
Não fazia a menor idéia da origem do termo "silhueta".

Com relação a este último post do Ivan, quanta informação nova.. :denken: .... ainda vou levar um tempo p/ entender certas coisas, se é que vou conseguir.

Parabéns a todos pelo excelente tópico.

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André Sena